Entrevista | Rufus Wainwright

Esta entrevista foi feita por telefone a partir das Caldas da Rainha no dia 23 de Abril. Durou 25 minutos. Podia ter demorado mais, mas Rufus tinha mesmo de partir para o local do concerto em Paris. Saiu em versão curta no Destak em 2005.



Ser ou não ser ‘cantautor’
Rufus em busca da singularidade musical
Entrevista. Rufus Wainwright aos 31 anos é um músico realizado que, entre a abertura em relação à sua homosexualidade e a voz quente e melodiosa, escreve letras que cativam. Rufus é um cantautor e um músico completo que quer escrever mais sobre o mundo e procura, acima de tudo, ser único e original. Determinado e sincero, sabe o que quer da vida e da música. Numa conversa telefónica a 23 de Abril, horas antes do concerto em Paris e um dia antes de ter deslumbrado o Coliseu de Lisboa, Rufus fala sobre concertos, Portugal, música, letras, e as suas reflexões. Para ele uma coisa é certa: não existe outro Rufus.




VER AQUI CRÍTICA AO CONCERTO DO DIA SEGUINTE

João Tomé

Onde está neste momento?Antes estive na Alemanha, agora estou num quarto de um hotel em Paris, onde tenho um concerto daqui a pouco e já amanhã parto para Portugal para mais um concerto em Lisboa e depois no Porto.

O que o fascina mais em fazer digressões pelo mundo e particularmente na Europa?Bem, é muito mais interessante do que quando estou em digressão nos Estados Unidos (risos). Estive em digressão na costa Oeste norte-americana há uma semana, mais ou menos, e lá é tudo muito igual. Na Europa é espantoso as diferenças que existem de um país para outro. Em França uma das coisas que mais me fascina é que existem muitas mais semelhanças entre o Quebec (Canadá) – de onde eu sou natural, e onde se fala francês – e a França do que a Alemanha e França, quando a distância é tão pequena. São países tão diferentes. Tenho a certeza que com Portugal e Espanha acontece o mesmo. Eu adoro isto! É como viver num livro de banda desenhada em que viramos a página e estamos noutra história diferente.

O que costuma fazer quando não está em concerto quando faz digressões?(risos). Tento fazer exercício um pouco todos os dias. Porque já tenho 31 e já não posso comer o que quero e não pagar um preço. Por isso tento cuidar de mim, ter o máximo de sono possível. Mas depende em que cidade estou. Gosto muito de estar no hotel a falar com a minha mãe e também adoro tocar na Alemanha, porque na maioria das vezes vou dar uma volta pelas bonitas ruas. Eles têm cidades lindas. Como trabalhamos tanto e a banda está tão cansada, essencialmente tentamos recuperar a nossa energia.

Guarda alguma memória em particular das vezes que esteve em Portugal?
Já aí estive muitas vezes e tenho algumas boas memórias. Sem dúvida que o concerto do ano passado na universidade, sem banda, foi dos melhores concertos que alguma vez dei. Penso que foi na Aula Magna. Foi um espectáculo fabuloso, fiz uns quatro encores e as pessoas criaram um ambiente muito agradável e estavam muito contentes por me ver. A sala também era especial. Parecia que estávamos nas Nações Unidas. Também me lembro no dia seguinte de ter dado um passeio maravilhoso pela cidade. Uma das coisas mais engraçadas que fiz foi descobrir este museu de carruagens bem antigas e foi impressionante. Porque havia carruagens que pertenciam ao Vaticano (risos) e eram as coisas mais assustadoras que vi na minha vida. Não sei porquê ficaram na minha memória. Imaginei essas carruagens que ao longo da história devem ter sido assustadoras.

Quando passava nas ruas portuguesas havia pessoas que o reconheciam?Algumas sim, mas não eram muitas.

Como lida com a fama, que começou tão cedo devido a ter pais músicos e conhecidos nos EUA e no Canadá?
Quando era mais novo, especialmente quando saiu o meu primeiro álbum, quase ninguém sabia quem eu era. E eu parecia um bocado louco, porque queria que todos soubessem quem eu era. Então sentava-me em cafés, com uns óculos escuros gigantes e esperava que me reconhecessem. Era um pouco estranho. Agora é muito melhor quando as pessoas de facto me reconhecem, porque eu agia como uma celebridade muito maior do que realmente era – quando comecei – e agora passo mais despercebido, passei essa fase, e é mais engraçado quando me reconhecem.

Quando é que soube que queria começar a cantar, ser compositor e cantor?
Fui primeiro para uma escola de arte, durante algum tempo, depois parti para uma escola de actores. Mas a música já estava quase nas “cartas”, porque quando era criança estava constantemente a cantar. Acho que cantava mais do que falava. E também sentia que acontecia alguma coisa quando subia a um palco que era imediatamente reconhecível a todos na sala. A luz e a forma de estar no palco tinham muito a ver comigo enquanto pessoa. Há uma frase célebre da Katherine Hepburn. Quando alguém lhe perguntou o que era ser uma estrela. Ela respondeu: “Eu não sei o que é, mas eu tenho-a, seja lá o que isso que for”. E eu sempre me senti assim, eu não sei qual é a diferença, mas eu sei que tenho. Era óbvio. E não era nada que tivesse construído ou trabalhado. É uma espécie de vibração natural que acontece quando eu entro em palco.

Que influência teve em si o facto de ter mudado para o Canada depois da sua mãe ter-se divorciado do seu pai?
Foi uma influencia muito grande. Em grande parte porque quando a minha mãe saiu dos Estados Unidos ela estava a deixar grande parte da indústria americana de música. Eu não cresci com as tretas das companhias discográficas americanas. Estávamos afastados disso. E Montreal – onde cresci – é sem dúvida a cidade mais europeia da América do norte, de longe. É como França e havia muita identidade europeia. Falávamos francês em casa e eu cresci a conhecer muito sobre a música francesa. E de uma forma muito estranha Montreal vivia naqueles tempos uma recessão e não havia mais nada para fazer senão escrever músicas ou fazer arte. E talvez por isso em muitos aspectos há um grande movimento de renascença e sair agora dessa cidade. Com os Arcade Fire, The Pierre´s, ou os God´s Speed Black Amper, ou eu e a minha irmã Martha [Wainwright]. Ninguém trabalhava e por isso tínhamos tempo para aperfeiçoar na nossa arte.

Quando escreve quais são as inspirações em se vai baseando… Foram-se modificando ao longo da sua vida? Em que estado está no último álbum Want Two?
Eu tento escrever sobre tudo o que circunda a minha vida. Quando comecei a escrever era muito influenciado pelo que acontecia na minha vida pessoal. Mas à medida que me vou tornando mais velho descobri que ainda é importante nos relacionarmos com o mundo enquanto um todo. E penso que neste álbum existem alguns bons exemplos dessa tentativa. Existem músicas sobre outros sujeitos, para além de. E esse é um lado que tenho tentado aperfeiçoar ao longo dos anos com a Gay Messiah, The Art Teacher ou Outside World. São canções sobre o mundo exterior e acho que é uma área importante para um bom compositor também dominar.

É uma tentativa de mudar o mundo?Estou a tentar definir a nossa era. O tipo de mundo em que todos vivemos.

Mostrar as falhas e preconceitos que nos rodeiam…
Exactamente isso… e há uma linha ténue porque eu não quero ser um cantor de protesto ou um defensor dos direitos gays. Mas é importante ter canções mais identificadas com uma consciência geral da humanidade.

A ópera e a música clássica é uma presença clara na sua música. De onde nasceu a influência e fascínio que se nota em músicas como Barcelona e que o tornaram no inventor da chamada ‘Pop Opera’?Sempre me senti identificado com a música clássica e gostava mesmo de um dia compor uma ópera (risos). Tive uma educação musical evoluída e aos seis aprendi piano. Depois ouvi muita música diversa onde os clássicos Verdi e Mozart assumiram um papel importante. Gosto de colocar em algumas músicas pedaços de música clássica, é um tipo de música fascinante. Mas também adoro pessoas e estilos como Edith Piaf, Judy Garland e Al Jolson. E estou sempre a aprender.

Viveu com a sua mãe e irmã grande parte da vida. De que forma encara as diferenças e semelhanças entre homens e mulheres na sua música?
A masculinidade e feminidade estão tanto em homens como mulheres. Na minha música encaro da forma tradicional o binómio. A parte mais masculina é mais dura e egoísta. E a feminina mais misteriosa e romântica e também sensível. Mas acredito que esses dois mundo vivem em todos nós. Quer dizer, eu tenho um forte lado feminino, como penso que muitos homens têm. E estou interessado em explorar ambos na música e na vida. Mas decidi olhar para trás, para a história, e verificar como a história humana define estas diferenças. Acho que todas as respostas estão na história antiga, como os gregos. Não acho que tenha mudado muito desde esse tempo, para ser sincero (risos). Ainda estão em guerra… ainda existe a guerra dos sexos.

Os homossexuais ainda são considerados aberrações da natureza na sociedade, ainda sente isso? Ainda quer ser um Gay Messiah?
Não quero ser, porque vivo com a minha música de uma forma desprendida, sem estar preso a assuntos de homossexualidade. Mas infelizmente penso que a homossexualidade tornou-se num assunto controverso no futuro dos Estados Unidos. Por exemplo, as pessoas que votaram no Bush novamente consideram que o verdadeiro inimigo não são os terroristas, mas as pessoas gays e as mulheres. Numa entrevista a uma revista alemã perguntaram-me se me sentia um Judeu antes do holocausto, eu respondi que não, que me sentia era um homossexual antes do holocausto. Por exemplo, se tivesse escondido a minha homossexualidade no inicio da minha carreira penso que poderia ter tido um começo mais auspicioso com resultados excelentes porque era um jovem muito bonito.

Qual o papel dos homossexuais na sociedade?
Acho que os homens gays são quase ‘sagrados’ para a sociedade porque são a ponte quer para homens quer para mulheres. Acho que as relações dos homens gays na sociedade acabam por ser menosprezadas. Sejam as relações dos homens gays com mulheres – que são importantes –, ou dos homens gays com homens heterossexuais – que também são bastante importantes. Eu tenho muitos amigos heterossexuais em que ambos já tivemos uma espécie de paixão um pelo outro, apesar de não ter nada a ver com sexo. Acho que somos [os homossexuais] os grandes comunicadores e detemos um papel muito importante na sociedade.

Jeff Buckley. Primeiro foi um adversário, depois passou a vê-lo como um amigo? Como foi essa transição que o levou a dedicar-lhe a música Memphis Skyline?Senti-me adversário dele e odiava-o no inicio e durante algum tempo. Apesar de o ter conhecido uma vez, e termos falado considerava-o um bocado ‘secante’ e não percebia o sucesso dele. Havia na altura uma rivalidade na minha cabeça com ele e teria sido interessante ter feito uma competição a cantar com ele. Mas depois tudo mudou e apesar de nunca ter sido influenciado directamente pela música dele, fui influenciado pelo génio dele. Quer dizer, nunca o percebi no inicio, mesmo quando o conheci pessoalmente. Mas quando ele morreu voltei atrás à música do Jeff e percebi o quão único ele era. Penso que fui em grande parte influenciado por essa singularidade dele. Sentia que queria e podia ser o mais único possível. Não havia mais ninguém como ele e acho que não há mais ninguém como eu e isso é uma coisa boa.

Existem várias celebridades que já admitiram publicamente serem fãs seus. Martin Scorcese convidou-o para participar no filme Aviador (a cantar), Elton John, Kirsten Dunst, entre tantos outros. Essa é uma recompensa agradável e um ânimo para o seu trabalho?
Sinto-me bem com esse tipo de atenção, mas há um motivo para eles fazerem isso. Porque a música é mesmo boa. Estou confiante no meu trabalho. Tenho trabalhado tanto no meu álbum, nas minhas digressões e em aperfeiçoar-me como um letrista e um ‘performer’. Isto não é propriamente um truque, esta atenção está mesmo a acontecer e faz parte de um crescimento longo, que não é imediato. Depois têm surgido convites que me honram como a participação numa das cenas do Aviador, do Martin Scorcese, e mais recentemente participo como actor no filme Heights – que ainda não estreou. São experiências diversificadas que me dão um certo gozo porque gosto de cinema e de fazer músicas para filmes [Moulin Rouge, Zoolander, I Am Sam, Bridget Jones, são alguns exemplos], mas nunca abandonando a música.

may rufus be with you

Concerto de 24 de Abril 2005 (domingo).


Rufus trouxe magia e fetiche ao Coliseu
Com muita conversa, ritmos contagiantes, uma voz grave e pitadas de ópera o cantautor Rufus Wainwright voltou a Portugal para levar ao delírio o Coliseu de Lisboa que, apesar de não ter enchido teve uma intimidade inesquecível.

João Tomé

Quem é Rufus Wainwright? Quem esteve durante as quase duas horas de concerto do americano residente do Canadá no passado domingo em Lisboa percebeu quem ele realmente é. Depois de uma primeira parte com os sons harmoniosos e calmos de cantora Joan Wasser, que é membro integrante da banda de Rufus, o espectáculo que jovens, adultos e mais velhos esperavam começou ao som exótico de Agnus Dei.
Houve muita pop-ópera vinda do piano de Rufus – que passou a noite entre o piano e a guitarra, sentado e em pé, como é habitual –, e da sua banda composta por violoncelo, violino, guitarras acústicas, guitarra eléctrica, bateria (com tambores), dependendo das músicas. O cantor usa muita bem a sua bonita voz, grave, e que nem sempre foi bem captada pelo microfone. Assumidamente homossexual, tem uma forma de escrever, cantar e dançar descontraída e particular.
O que Rufus pretende? «Ser único e original», disse no passado sábado em entrevista ao Frescas e Boas (a ser brevemente publicada). E isso já ele o conseguiu.
A primeira parte do espectáculo contou com as músicas do último álbum Want Two. «Esta é a primeira música em muitos anos que consegui escrever sem ser sobre mim», explicava o cantor antes de cantar The Art Teacher. Do último álbum também cantou as aplaudidas This Love Affair e The One You Love.

Falador, descontraído e divertido Rufus tem sempre o público atento, gosta de falar antes de cada música, explicar como ela surgiu e também falar sobre a sua vida. Logo no início falou que adora a palavra ‘Lisboa’, dá ares de anos 30 e falou no jogo Estoril-Benfica – que motivou gritos benfiquistas. Mas Rufus dedicou a música seguinte aos derrotados. «Vou para Roma e esperava que não houvesse nenhum Papa», diz antes de começar a cantar a música Gay Messiah, que dedica com ironia a todos os Papas mortos e vivos.
Depois fez ainda uma dupla homenagem ao falecido Jeff Buckley, primeiro com Memphis Skyline, depois com a fabulosa canção Hallelujah – de Leonard Cohen, mas celebrizada pela fantástica interpretação de Buckley. Outra das partes dos concerto foi dedicada à sua família, todos eles também cantores e autores e que curiosamente estão em digressão pela Europa.
Começou por contar, com o seu jeito muito próprio e comunicativo, uma história ‘maluca’ vivida no próprio dia pela mãe – com quem fala todos os dias –, em digressão na Holanda. E de seguida cantou Beauty Mark, a música dedicada à sua mãe, Kate McGarrigle.

Ainda teve a sinceridade para pedir que todos comprassem discos da irmã, Martha Wainwright, a quem dedicou Little Sister – onde ele acreditava ser Mozart 'himself'. Rufus é muito sincero e não se põe com falsas modéstias, bem pelo contrário. Terminou a parte dedicada à família com a música em honra do pai, que confessa amar apesar de ter estado muito ausente na sua vida. «Ele é um letrista fantástico», explica antes de cantar a música muito aplaudida Dinner at Eight sobre o pai, Loudon Wainwright III.
Na etapa seguinte do concerto somos levados para um outro universo, místico e etéreo com Across The Universe. A música mais esperada, Cigarettes and Chocolate Milk, foi bem tocada e fez as delícias da audiência já totalmente rendida. Rufus ainda nos guiou pela sua cidade de sempre, Montreal, no Canada, com Hometown Waltz e falou nos muitos portugueses que existem por lá: «adorava a comida portuguesa».




Para o primeiro encore estava reservada a parte mais inesquecível e que demonstra as várias facetas do cantor. A banda e Rufus começam a despir-se. Quando parece uma pequena brincadeira, todos continuam até ficarem em trajes menores muito divertidos. O público ria-se e aplaudia de pé em êxtase. Rufus ficou de saltos altos vermelhos e cueca fio dental, com uma asas de borboleta e uma varinha mágica. Uma espécie de Sininho. As duas raparigas da banda ficam em roupa interior provocante, e os outros alternavam trajes menores muito divertidos.
Tocaram assim vestidos e ao terceiro encore vestiram roupões turcos e ainda tiveram tempo para a linda canção Califórnia. Rufus ainda perguntou: «ficaram chocados?». A resposta foi não e o público dificilmente vai esquecer um concerto que foi tão diversificado quanto apetecível.


Entrevista | Danny Cannon

Entrevista em versão completa ao realizador inglês Danny Cannon, a propósito do filme Golo. Feito por telemóvel em 2005.






P&R ao realizador Danny Cannon

Gosta de futebol? Quais são as características principais do jogo, na sua opinião?
Sim, gosto muito. É um jogo muito mais energético e mais apaixonante do que, por exemplo, ver um filme. Por isso penso que tentámos capturar essa paixão e determinação em película. Jogo futebol todos os domingos, é algo que adoro fazer. Jogo numa pequena Liga, aqui em Los Angeles.

O futebol está a tornar-se mais popular nos EUA?
Muito popular, de dia para dia nota-se cada vez mais isso, um maior interesse norte-americano neste desporto.

Como inglês e um fã de futebol porque escolheu este projecto, o Golo? Queria mostrar a paixão do futebol?
Foi exactamente isso, pensei poder mostrar a paixão do futebol. Porque não tinha existido, até agora, um bom filme que demonstrasse essa paixão futebolística. Queria apenas ser positivo em relação ao jogo e também esta é uma boa altura para mostrar que toda esta paixão e determinação pode compensar. Penso que falta às pessoas, actualmente, inspiração. Vamos a um jogo de futebol e as coisas correm bem à nossa equipa, esse tipo de inspiração e emoção apenas pensei que isso também deve estar representado no cinema e não deve estar só no campo de futebol.

Foi convidado para este projecto?
O projecto esteve previsto ser feito por outra pessoa [
Michael Winterbottom], mas não conseguiram dar início ao argumento e as coisas acabaram por não correr bem. Depois conheci um dos produtores em Los Angeles – estava a realizar o CSI na altura –, e mesmo sem ler a ideia do filme, disse-lhe, que se ia fazer um filme sobre futebol, para incluir alguns tópicos que eu gostava. A segunda parte disto foi que queria trabalhar com o Dick Clemmens, e o conjunto de argumentistas, um deles era de Newcastle, quando lhes disse isso juntámo-nos todos e os três fizémos um guião com o qual toda a gente se identificou. E penso que tudo o que eu queria no filme, ficou lá.

Quais eram os tópicos que falou à pouco que gostaria de ver no filme.
São duas coisas essenciais. A emoção de ir ao jogo em si, não interessa que fique mais velho, a emoção permanece a mesma e só o facto de se olhar à volta para a multidão nos Estádios, há tantas diferentes pessoas, miúdos, idosos, rapazes com as namoradas, de todas as classes, que partilham esta paixão. E pensei que o público deste filme não deveria apreciar apenas uma parte específica do jogo, devia experienciar todas estas coisas. Devia ser um filme em formato de viagem, era isso que eu queria. Porque viajamos por tantas emoções, tantos tipos de pessoa e mesmo assim estamos interessados no filme. E outra das coisas que queria captar tem a ver com uma experiência que tive recentemente. Joguei num grande estádio e só a antecipação de estar no balneário e sair pelo túnel para o relvado foi um grande momento da minha vida, e, por isso, queria transmitir essa sensação neste filme.

No filme conseguimos ver essa emoção, quando Santiago entra pela primeira vez como jogador no estádio do Newcastle e olha a multidão à volta com estupefacção e ansiedade…
Sim, exactamente. Não creio que tivesse conseguido fazer isso, se não quisesse, eu próprio, de estar a viver aquilo. Dizia muitas vezes ao Kuno [Becker], que ele estava a viver o meu sonho e se eu estava a exigir muito dele, para ele me dizer. Como disse, a primeira fez que entrei como jogador num grande estádio, foi um dos melhores dias da minha vida.

Qual é o seu clube?
O Arsenal.

O futebol foi abordado de forma concreta em muitos poucos filmes, em contraste com os desportos considerados mais americanos. O futebol é um bom desporto para o grande ecrã?
Não posso falar por Portugal, Itália ou França, mas posso falar por Inglaterra. Os americanos sempre incluíram paixão e competição no cinema. Por isso eles podem fazer de tudo cinemático se sentem alguma coisa em relação a isso. E penso que em Inglaterra resistimos à vontade de fazer de tudo cinemático, e acho que é uma pena. É por isso que na Grã Bretanha somos muito criteriosos sobre o que colocamos nos filmes. Ainda fazemos muito parte do ‘mundo artístico’, teatro, ópera… e na América utiliza-se um pouco de tudo, não se coloca limites para aquilo que se retrata no cinema. E, neste sentido, não me considero britânico, sou do mundo e podemos viajar pelo mundo.

Na Europa, assim como na América do sul e de uma forma crescente em África e na Ásia é normal os jovens sonharem tornarem-se jogadores de futebol de sucesso. Acredita este filme consegue mostrar que esses desejos e ambições se podem tornar realidade?
Sim, espero que sim. Também é sobre nunca desistir. O que é difícil de se fazer, e torna-se cada vez mais difícil. O Santiago, a personagem principal, é alguém que não desiste, embora todos lhe digam isso, e essa é uma boa mensagem neste momento. É um bom ‘lugar’ para se estar agora, penso que nos sentimos um pouco impotentes, no mundo nos dias de hoje, como se não contássemos. Porque embora façamos protestos quando não gostamos como as coisas decorrem elas, mesmo assim, continuam dessa forma. Por isso é muito bom podermos ter uma história verdadeiramente honesta e despretensiosa em que podemos ter poder sobre nós mesmos.

E também ser bem sucedido?
Sim, resulta porque o jovem acredita nele próprio.

Como foi filmar as cenas do jogo em si?
Uma das coisas mais difíceis que alguma vez fiz foi tentar capturar as emoções do futebol a partir dos actores, porque temos de fazer as coisas em fases diferentes. Primeiro filmamos os jogos a série e depois pedir a actores, que não são jogadores profissionais e imitarem o que se passa numa equipa de futebol. Isso é como pedir a uma pessoa ao acaso que entre num ringue de boxe e que pareça ser tão bom como o campeão do mundo de boxe. Por isso é preciso te muito cuidado, com a forma como se filma as cenas de futebol. Mas a pior parte disso é que, embora consigamos ter filmado as cenas bem e ter imitado alguns momentos bons, o jogo é muito rápido e não o queremos abrandar, por isso acabamos por cobrir uma área muito larga de espaço de jogo e de pessoas e tentamos manter esse espaço e essa velocidade. E é muito difícil de manter isso no enquadramento, é como tentar capturar em imagem um relâmpago. É muito complicado copiar a velocidade de um jogo de futebol, toma muita paciência e tempo, mas o pior é que estivemos a filmar com tempo muito mau e estávamos a pedir a pedir a estes jogadores não só que fossem muito talentosos e com técnica, mas também que repetissem inúmeras vezes todo o dia os movimentos. Por isso também foi duro para mim ser o vilão todo o dia. O ‘taskmaster’, o ‘condutor de escravos’, todo o dia, manter a energia em cima e pedir mais velocidade e pedir repetições. Não era o tipo mais popular nesses dias [risos].

Mas acha que conseguiu fazer com que as cenas de futebol parecessem verosímeis e resultassem?
Acho que integrámos os nossos actores com bastante precisão em situações verdadeiras, em jogos verdadeiros e entre os jogadores verdadeiros. Desafio seja quem for a descobrir as junções.


Kuno Becker é um jovem actor mexicano. Gostou do jogador em que ele se tornou?
Ele não era um bom jogador de futebol, apesar de jogar e no filme parecer ser. O que eu vi no Kuno foi alguém que qualquer pessoa pode gostar, despretensioso, acessível e consegui ver-me a chegar a ele, como uma pessoa verdadeira. Ele perdeu-se no papel com tanta dedicação e paixão pela personagem. Eu parti com o pressuposto, relativamente à personagem, que pode-se sempre aprender a jogar melhor futebol mas não se pode aprender a representar melhor e o Kuno é muito talentoso como actor e honesto.

Então, apesar de ser pouco conhecido, foi perfeito para a personagem?
Sim, sem dúvida. Tem a idade certa e a força física. E também é um rapaz simpático com quem se tem uma boa relação facilmente e alguns dos treinos e algumas cenas do filme teriam destruído alguém que não estivesse a ser honesto. Mas ele deixou-se ‘imergir’ na personagem. Ninguém vai ver um filme deste tipo se não gostar do tipo e acho que ele é um grande talento.

Filmar com estrelas do futebol como Zidane, Beckham, Raul e Shearer trouxe complicações?
A agenda deles é muito complicada. Temos de ter alguém destacado só para marcar as gravações com eles, e temos de ser muito precisos com o tempo e não o desperdiçar porque é tempo precioso que se tem com eles. Tenho pena de não ter tido mais tempo, para parar um pouco e falar com eles e conhecê-los. Mas tive de ser tão rápido para ter o trabalho feito.

Existem vários jogadores profissionais a jogar no filme, em conjunto com os actores. Qual as maiores diferenças entre uns e outros nas filmagens?
É engraçado que os jogadores profissionais e os actores não são muito diferentes uns dos outros. Ambos são pessoas muito privilegiadas que tem de actuar para nós num período curto de tempo. E sempre que aparecem em qualquer lado eclipsam todos os outros [risos]. E os actores e os futebolistas dão-se muito bem uns com os outros. Respeito cada vez mais os jogadores profissionais de futebol sempre que os vejo ao perto, porque eles estão a milhas e milhas de distância de nós, no seu talento desportivo.

Recorda-se de alguma ocorrência peculiar durante as filmagens?
Apenas do muito mau tempo e o calendário muito apertado e complicado. Porque as nossas cenas principais estavam dependentes não só do tempo mas também do calendário da FA [Liga inglesa de futebol] e da FIFA [Federação Internacional de Futebol] e foi um filme muito difícil de filmar.

Concorda que este filme não é apenas para os adeptos do futebol?
Claro, isso era fundamental para mim. Se fosse só para os adeptos do futebol então ninguém se ia interessar. É feito para as pessoas do mundo que querem sentir a paixão, neste caso ligada a um desporto. Acho engraçado que as mulheres parecem interessar-se muito pelo filme, mais do que seria de esperar. Outra das coisas que reparei é que, especialmente na América do Norte, as pessoas percebem agora mais o jogo, depois de verem o futebol. Pessoas que nunca ligaram ao futebol nem sentem essa paixão, vêem o filme e percebem o que é que as pessoas que gostam do jogo sentem. Por isso, penso que é um bom filme para levar a mulher, namorada ou a mãe, porque elas podem perceber o sentimento pelo jogo.

Gostava de filmar mais um filme desta trilogia [visto que o segundo filme será realizador pelo espanhol Jaume Collet-Serra]?
Vou considerar fazer o terceiro filme e espero que me convidem para o fazer, mas para o segundo filme não dava, porque o primeiro foi tão difícil e era necessário terminá-lo com cuidado e tempo. Senão não teria havido os outros dois filmes. Precisei de ficar na montagem, com calma, a terminar o filme com precisão, enquanto outra pessoa preparava o segundo filme.


Carreira

Começou a fazer filmes em Londres muito cedo. Como veio parar à 7ª arte?
O meu pai trabalhava nos adereços no negócio há 30 anos e eu cresci rodeado de cenários de cinema. Quando as câmaras de filmar se tornaram disponíveis, a partir do momento em que consegui comprar uma, comecei a fazer filmes. Fui um actor, durante algum tempo, numa companhia de teatro, e tinha um pânico do palco muito grande e, por isso, comecei a filmar os espectáculos em vez de actuar, e foi assim que começou... Nunca mais parou.

Que significado tem o cinema na sua vida?
Mantém-me muito ocupado. O maior prazer que eu tiro dos filmes é a música. Eu adoro música e tiro as minhas ideias e inspirações da música. Por isso, ouvir música é de onde eu tiro mais prazer a fazer um filme, e me faz esquecer o trabalho árduo que é fazer um filme.

Já dirigiu algumas estrelas de Hollywood, com Stallone, entre outras. São profissionais mais difíceis com quem trabalhar, relativamente a outros actores?
Não encontrei grande diferença. Ninguém é difícil se um actor e realizador idealizam o mesmo filme e ambos acham que aquele filme merece um trabalho árduo acho que é sempre fácil comunicar porque querem a mesma coisa. Torna-se difícil quando actores e realizadores não têm os mesmos objectivos. Eu simplesmente adoro actores, assim como gosto de jogadores profissionais, são pessoas especiais.

Tem experiência na indústria cinematográfica inglesa e norte-americana. Quais são as principais diferenças para um realizador? Será que a indústria inglesa aposta mais no conteúdo artístico e a americana o entretenimento?
Penso que é tudo a mesma coisa, tudo depende do tipo do filme. Se bem que na América eles querem sempre o maior público que puderem. Muitas vezes em Inglaterra filma-se mais orientado para o prestígio. Outras vezes também querem uma coisa grande também. Por isso acho que se conseguirmos estar entre os dois tipos de filmes, estamos bem, normalmente é aí que a maior parte dos realizadores gosta de estar. Acredito que a maior das pessoas é mais entretida se consideram que estão a ver uma coisa pensada, competente e cheia de significado. Penso que essas três coisas são artísticas, quando desligam as luzes e sentem que estão em boas mãos e é com isso que o público é mais feliz.

Os actores e realizadores ingleses continuam a ir trabalhar para os Estados Unidos em grande volume. Quais são os principais atractivos para a mudança?
Penso que existe apenas mais oportunidades e mais trabalho e isso é importante, tão simples quanto isso.

E quais os principais problemas de estar nos EUA?
A competição, que é muito forte e feroz.

Quais os seus projectos actuais e futuros?
Neste momento estou a escrever e produzir a série CSI, o que me dá bastante prazer por ser uma série que exige muita investigação. Além disso, estou a preparar um guião para o Jerry Bruckheimer. É uma história de amor com alguma acção, é uma história de amor à Jerry Bruckheimer.




«Welcome home Bryan!»

Reportagem ao concerto de Bryan Adams, no Atlântico. Saiu no Destak de 1 Fevereiro 2005.






Fotos por João Tomé



Bryan Adams voltou a Portugal para mais três concertos. O Frescas e Boas assistiu à festa do rock and roll no primeiro concerto, domingo, onde 15 mil fãs portugueses vibraram para a posteridade, visto que o espectáculo foi filmado e vai ser editado em DVD para comemorar os 25 anos de carreira a solo do rocker canadiano a viver em Londres


Por João Tomé


Cabelo louro curto e rebelde. Uma T-shirt preta, justa e simples. Umas calças de ganga o mais banais possível. Uma guitarra na mão e uma voz rouca sempre sintonizada com o que de melhor o rock and roll tem, a simplicidade. Foi com os melhores ingredientes de Bryan Adams que 15 mil portugueses vibraram no domingo, em pleno Pavilhão Atlântico, em Lisboa.
O canadiano, a residir em Inglaterra, adora Portugal e está sempre disposto a regressar – muito por ter vivido cá durante a infância, entre 1967 e 1971. Não é por acaso que Adams escolheu o nosso país para gravar o DVD de comemoração dos 25 anos de carreira. «Podia escolher Inglaterra, mas não; podia ter escolhido Espanha, mas não; escolhi Portugal, claro!», disse Adams a meio do concerto motivando a público a gritar por Portugal.

Com uma atmosfera mais agradável ao olhar, mas menos intimista do que os concertos em Fevereiro de 2003 – em que Adams terminou a actuação de duas horas e meia num minipalco no centro da plateia –, este foi um espectáculo onde o público também foi protagonista. Luzes vindas da última bancada e do centro do pavilhão iluminaram os fãs portugueses, durante todo o concerto, para a posteridade.
O primeiro momento da noite foi com o clássico Can´t Stop this Thing We Started, onde Adams e o público pareciam não querer parar de cantar – a música durou no mínimo dez minutos. Apesar de estar a promover o álbum Room Service, lançado em Setembro – onde integram músicas escritas no Pavilhão Atlântico e no Coliseu do Porto – o canadiano acabou por tocar poucas músicas novas fazendo deste espectáculo e futuro DVD, uma espécie de Best Of.
Room Service, que reflecte a vida de quem anda sempre em digressão e dá nome ao novo álbum, foi uma das preferidas pela audiência. Mas foi com rock puro e duro de Kids Wanna Rock, It´s Only Love e Run to You que o pavilhão foi ao rubro numa interacção continua entre Adams e o público – ao cantarem alternadamente.
Já Keith Scott, o guitarrista que acompanha há décadas Bryan, mostrou o que de melhor a guitarra eléctrica pode dar a um concerto com momentos electrizantes. A magia e interacção com o público é um dos trunfos do cantor de 45 anos que adora percorrer todo o mundo com centenas de concertos todos os anos.

«Escrevi esta música com 18 anos», disse Adams para dar início a Straight from the Heart. Mas a balada que encantou o pavilhão e colocou muitos olhos a brilhar na plateia foi mesmo Everything i do (i do it for you) que motivou os habituais isqueiros e beijos dos casais mais apaixonados. «Quem quer vir cá acima cantar comigo?» Perguntava Adams aos fãs – algo habitual nos seus concertos –, havendo uma maré de dedos no ar, ansiosos por cantar ao lado do seu ídolo. Adams olhou, até que encontrou uma jovem de Carcavelos chamada Mariana que cantou com ele When Your Gone, nervosa mais desinibida. Ainda houve tempo para Adams tocar sozinho no palco, apenas com a música da sua guitarra, a balada do novo álbum, Flying, entre outras. No fim, os fãs queriam mais do que as duas horas de concerto, mas o resto ficaria para ontem, o segundo concerto em Lisboa.

Fãs de todas as idades
«Adoro o Bryan! Estive na fila desde o meio-dia para ficar mesmo à frente, e as portas só abriram às 7h [19h.]». Ana, que segura um cartaz a dizer «Welcome home Bryan», é uma das sortudas que conseguiu garantir um dos lugares mais requisitados da plateia: mesmo à frente de Adams, junto ao palco. «Haviam umas raparigas que vieram para cá desde as 8h30 da manhã, que doidas!», explica a fervorosa fã de Bryan Adams, de 18 anos.
Mas não eram apenas jovens que estavam junto ao palco, Carlos, de 37 anos, é adepto incondicional de Adams desde os dez anos de idade e não perdeu um concerto desde 1988, quando o canadiano tocou no Estádio da Luz. «Não é só a música fantástica que me inspira, é também a forma de estar na vida, na música e no palco que fazem do Bryan um símbolo que acompanho desde a juventude», explicou.
Num dos principais momentos do concertos tanto Carlos como Ana, e dezenas de outros fãs que conseguiram ficar à frente na plateia puderam abraçar o cantor, quando este desceu do palco para se infiltrar no público ao som da música The Best Of Me. «You´ll always get the best of me», cantava Adams por entre abraços e beijinhos dos fãs portugueses. E foi o melhor de Bryan Adams que se viu domingo em Lisboa – ainda por cima ficará guardado para sempre em DVD.