Entrevista Anthony Daniels

Para o Mundo Universitário. Março 2010.



Entrevista
“Estou muito feliz por ter conhecido o C3PO”
Poucos o reconhecem na rua mas, na verdade, Anthony Daniels ganhou já um lugar na história do cinema, ao interpretar a voz e os movimentos do robot C3PO nos seis filmes da saga Star Wars. Durante a entrevista ao MU, Anthony, 64 anos, fala no robot que mudou a sua vida, nos mimos de George Lucas e do espectáculo musical Star Wars in Concert, do qual é o narrador e que estará no Pavilhão Atlântico a 22 e 23 de Março.

João Tomé



Como surgiu o convite para o Star Wars in Concert, que começou em 2008?
Eu sou a única pessoa que actuou nos seis filmes, desde há 33 anos atrás. Por isso sei a história de toda a saga, bem não tudo, mas tenho a história comigo. Além disso o C3PO é uma personagem que é um contador de histórias, nos filmes. Uma pessoa muito correcta, que gosta de apresentar pessoas, que todos estejam bem, segue o protocolo, a etiqueta. E, também, como o C3PO, eu consigo falar muito. Portanto, todas estas coisas se juntaram, aliando ao facto de eu ainda estar em boa forma e com saúde, visto este projecto requerer muita concentração em palco, todas as noites.

É um trabalho de equipa em cima do palco?
Enorme trabalho de equipa, não só as pessoas que vemos no palco, que é a orquestra e o coro, mas atrás de mim está um ecrã de LEDs gigantes, que é digital. Portanto, as sequências do filme são de alta definição. Sou o narrador que é a cola que une todos os pedaços dos filmes. Há vários momentos da história onde parece que a personalidade do C3PO vem ao de cima para surpreender: “Hello, i’m C3PO, human cyborg relations” [diz na voz inconfundível de C3PO]. O Star Wars in Concert, tem todas as emoções da saga, portanto há bocados assustadores, outros entusiasmantes, outros divertidos, outros são comoventes e a música do John Williams tem todos estes elementos. E tudo é contado com os episódios na ordem correcta, pelo que é mais fácil perceber a totalidade da história.

Que diferenças, na sua opinião houve nos três primeiros filmes e nos três últimos?
É curioso como o George Lucas contou a sua história começando pelo 4, 5, 6 e só depois o 1, 2, 3. Parece maluquice, não sei porque foi assim. Os novos filmes são mais para um público mais novo, mas não faz mal, porque há medida que eles crescem vão-se lembrar daquelas histórias como deles. Nós não tivemos essa hipótese. O George recontou em Star Wars histórias épicas que foram apreciadas ao longo dos séculos, do seu próprio modo.

Não era fã de ficção científica antes de participar nos filmes, mudou de perspectiva?
Penso que a ficção científica se tornou mais interessante. Eu não era nada fã do género, de todo, mas Star Wars, mais do ficção científica é um filme de fantasia, muito como os Salteadores da Arca Perdida [Indiana Jones], ou Piratas das Caraíbas, mas é feito com tanto panache e estilo, que somos absorvidos pela boa história. Eu cresci desde o dia em que sai da sala antes de terminar o 2001, Odisseia do Espaço, estou mais velho. Vi esse filme duas vezes o ano passado e hoje gosto bastante dele.

Que lições importantes guarda dos seus tempos de jovem e universitário?
Duas lições, uma de mim e outra do George Lucas. Ele levou o guião a toda a gente e todos iam dizendo que era porcaria, para ver-se livre daquilo. E isso não o desmotivou, continuou a insistir vezes sem conta até que alguém disse, “ok, vamos fazer um pequeno filme com isto”. E olhem o que aconteceu. Para mim, eu recusei a hipótese de me encontrar inicialmente com o George Lucas. Disse que não estava interessado, tinha feito dois filmes e achava que não era para mim fazer de robot num pequeno filme de ficção científica. O meu agente disse-me que isso era estúpido, nunca sabemos onde um encontro deste tipo nos pode levar. Depois lá me encontrei com ele e isso faz com que eu esteja hoje aqui em Lisboa. Portanto imaginem como eu me sentiria se tivesse recusado. A lição para mim e para os jovens é: nunca recusem uma oportunidade, essa oportunidade pode levar a outra, e outra, nunca sabemos onde essa história nos levar, aproveitem as oportunidades que vos ofereçam, mesmo que não seja óbvio.

Como imaginaria a sua vida sem Star Wars?
Pergunta impossível, impossível. Fiz coisas infindáveis em torno da saga sem ser os seis filmes. Para minha surpresa, os trabalhos nunca pararam.

Qual a actividade ligada à saga sem ser os filmes que mais gozo lhe deu?
Este concerto, que mudou a minha perspectiva total dos filmes. Além disso continuo a fazer coisas. No mês passado fiz voz para o Sistema de Navegação de carros Star Wars, a voz de uma máquina de jogo em Las Vegas, a série de televisão Guerra dos Clones, que continuo a fazer e provavelmente a melhor coisa fora do concerto é fazer vozes para uma diversão dos parques da Disney de Star Wars, que após 22 anos estamos a refazê-las desde há 3 anos, abrem para o próximo ano. E cada vez que estes trabalhos surgem eu fica estupefacto, tudo porque me deixaram manter a voz nos filmes a falar como “C3PO, human cyborg relations”. Por isso ele tem sido um amigo tremendo para mim ao longo dos anos. Estou muito feliz por ter conhecido o C3PO.

Quais as principais memórias das gravações dos primeiros três filmes e dos três finais?
Uma das melhores memórias foi a primeira vez que começámos a filmar. Estava com o R2D2 e ninguém estava a fazer nenhum som para ele. Mais valia estar a actuar com uma cadeira. Pedi ao George Lucas para fazer alguns sons e ele não conseguiu, porque era terrível, não tinha jeito, portanto tive de falar comigo próprio. A minha memória mais bonita foi quando estava a ensaiar sozinho num desfiladeiro, no deserto, perto do palácio do Jabba, e de repente surge atrás de mim um esforçado George Lucas a fazer o som, pi pi pi pi. Nos novos filmes foi chegar ao estúdio pela primeira vez vestido de C3PO e o George dizer: agora sim, Star Wars chegou. Porque ele considera o C3PO uma das principais imagens de toda a história clássica. Portanto são sentimentos de carinho.


Rápidas
Onde vive
No meio de Londres e no meio da zona rural francesa
Personagem de Star Wars
Watto, o dono do ferro velho que escraviza o Anakin
Fato preferido
O de Mark Hamill (Luke Skywalker), com vestes muito leves e macias em que se pode sentar, tinha muita inveja dele.
Música
Sinfonias clássicas
Viagem
Egipto, o Nilo
Estrela de cinema
Johnny Depp
Filme que gostava de ter feito
Eduardo Mãos de Tesoura
Pessoa que mais o ajudou na sua carreira
Um professor


Star Wars in Concert
O quê Espectáculo multimédia, com a música das seis bandas sonoras de John Williams para os seis filmes Guerra das Estrelas. Narração de Anthony Daniels e participação da Royal Philharmonic Concert Orchestra e um coro, com direito a ecrã gigante e uma exposição.
Quando 22 e 23 Março
Onde Pavilhão Atlântico, Lisboa
Preço 35 a 68 euros