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crítica ao filme os gatos não têm vertigens

Crítica ao filme português Os Gatos Não Têm Vertigens. Jornal Destak. 24 de setembro de 2014.
Citado na página oficial do filme. 


O gato tem uma amiga
Um dos melhores filmes de António-Pedro Vasconcelos. 


Revelação João Jesus é o ‘gato’ que vem parar ao terraço de Maria do Céu Guerra


Chama-se Os Gatos Não Têm Vertigens, é uma história original do guionista Tiago R. Santos e do realizador António Pedro Vasconcelos e é, provavelmente, um dos melhores e (eventualmente) mais consensuais filmes portugueses dos últimos anos.

Com diálogos cativantes, realização à altura e desempenhos notáveis de um belo elenco, onde brilham bem alto o jovem João Jesus (uma boa surpresa) e a veterana Maria do Céu Guerra, o filme aborda temas como a crise em Portugal, a solidão de uma velhice isolada, a dureza para um adolescente de uma família destruída e uma improvável mas divertida amizade entre um jovem e uma reformada.

Com 18 anos acabados de fazer, seguimos Jó (João Jesus, ele próprio com uma história pessoal difícil) no meio de jovens delinquentes e desencantado com a vida: vive com o pai alcoólico e a mãe tem uma nova vida e abandonou-o. Ao ser expulso de casa, acaba no terraço lisboeta de Rosa (Maria do Céu Guerra, ao seu melhor), uma reformada de 73 anos, frágil após a morte do marido (Nicolau Breyner), com quem continua a conversar e com problemas em lidar com a filha (Fernanda Serrano) e o seu marido snobe (Ricardo Carriço).

O que parecia um drama torna-se afinal numa história de amizade divertida e convincente graças à peculiar química entre os dois protagonistas. Um filme leve e divertido o suficiente para agradar à maioria e sério q.b. para ter algo relevante para dizer."

crítica A Gaiola Dourada

Agosto 2013. Crítica ao filme A Gaiola Dourada. Jornal Destak.



Rita Blanco, Joaquim de Almeida e Maria Vieira fazem parte do elenco

CRÍTICA
A Gaiola Dourada

Uma comédia com a capacidade rara de provocar risos, sorrisos e choros de emoção. O filme de Ruben Alves conta a história de um casal de emigrantes em França com um dilema.
A Gaiola Dourada é um produto de amor. O filme de Ruben Alves foi feito em França, com financiamento francês mas conta uma história profundamente portuguesa. Uma homenagem sentida em cada cena filmada pelo ator/realizador/guionista luso-francês. E se o pequeno filme (para a dimensão francesa, já que custou 6 milhões de euros) se tornou num fenómeno em França, o mesmo aconteceu com o jovem realizador e os atores portugueses – com destaque para a dupla improvável mas curiosamente perfeita, Joaquim de Almeida e Rita Blanco.

Julga-se que há mais de 800 mil portugueses em França. A maior parte partiu nos anos 60, 70 e 80 e ocupou cargos pouco qualificados. O filme pega no estereótipo do casal português em que ela é porteira e ele trabalha na construção civil para mostrar de uma forma muito divertida mas com dilemas e traumas reais quem são estes portugueses em França.

Acompanhamos então Maria (Rita Blanco) e José Ribeiro (um surpreendente Joaquim de Almeida), um casal luso a viver há 30 anos num dos melhores bairros de Paris. Ela é porteira do prédio (a ‘gaiola dourada’), ele trabalha nas obras. Ambos são fulcrais para os patrões, embora esse reconhecimento só surja quando o casal recebe uma avultada herança com a condição de se mudarem para Portugal e fique num dilema, entre cumprir o sonho ou manter a rotina. A coscuvilhice lusa leva a que todos saibam da herança secreta e, às escondidas, os patrões franceses vão tentar convencer o casal a ficar.

As características mais portuguesas são o âmago do filme tanto no lado mais cómico, como no lado mais sério. Destaque ainda para a estridente e divertida Maria Vieira e a surpreendente atriz luso-francesa Bárbara Cabrita, que faz de filha de Maria e José, num papel intenso. Um belíssimo filme.

Os temas que a história aborda são profundos: quem são e o que sentem estes portugueses, a forma como são tratados pelos franceses, o amor incondicional por Portugal, o peso de 30 anos a viver em França entre os estereótipos, o dilema entre voltar à pátria e continuar a viver na rotina francesa, a relação difícil dos filhos com a sua ‘Portugalidade’.

crítica 12 anos escravo

12 Anos Escravo


Ao entrarmos no escuro da sala de cinema, chegarmos à poltrona das experiências e nos sentarmos, olhamos para a tela e começamos a sair da realidade moderna, livre q.b., com direitos humanos básicos e democrática.

12 Anos Escravo tira-nos da zona de conforto onde nem sabíamos estar e coloca as nossas mentes no meio da transição entre uns Estados Unidos com (Sul) e sem (Norte) escravatura.

Steve McQueen deixa-nos, sem aviso, na pele de um negro livre do Norte. Letrado, inteligente, respeitado na zona onde vive e com talentos vários (incluindo a música), Solomon Northup é apanhado e capturado numa viagem de trabalho a Washington como se de um animal selvagem se tratasse. É dessa forma bruta e violente que se vê refém de um um 'Sul' intolerante e onde a escravatura ainda faz parte do prato principal. 
O que é chocante no filme de McQueen é sentir a impotência e frustração de um homem desde sempre habituado ao que todos devem ter, a liberdade, 'castrado' pela força esmagadora da escravatura. Torna-se devastador o efeito que essa subjugação tem num homem livre.

12 Anos Escravo é sociologicamente relevante mas ao mesmo tempo perturbante, quando se vê as diferenças entre este homem agora escravizado e todos aqueles que nasceram no meio da escravatura, já dormentes ou indolores.

Já parecem indiferentes ao espancamento, às chicotadas ou ao assassínio de amigos ou conhecidos ali mesmo ao seu lado. É o hábito que os destrói, é o hábito que os apaga. Parecem gente sem alma. Dorida e em estado vegetativo que simplesmente só cumpre, não raciocina, num contrasto claro com o até à pouco tempo livre, Solomon Northup. Os conhecimentos, inteligência e talento, no entanto, só lhe trazem dissabores.

Tal como um mau chefe nos dias que correm, os seus donos e respectivos capatazes, sentem-se várias vezes ameaçados por alguém que é bom e eficaz no que faz - embora com consequências incrivelmente mais injustas, violentas e avassaladoras do que as de um 'simples' local de trabalho.

É um filme duro, sem subterfúgios ou 'paninhos quentes', que nos coloca no centro de uma das maiores injustiças que o ser humano praticou sobre outros da mesma espécie, considerados inferiores pela cor da pele.

O hábito também forma as mulheres e homens do sul, habituados àquela 'propriedade', com que podiam fazer o que bem entendessem chamada homem/mulher/criança negra. 

O papel da vida de Chiwetel Ejiofor é composto com desempenhos fabulosos e perturbantes de Michael Fassbender (pela 3ª vez a trabalhar com McQueen - é um totalista), Benedict Cumberbatch, Brad Pitt, Paul Giamatti e Paul Dano. 

A maior surpresa é mesmo a ganesa-mexicana Lupita Nyong'o, que faz de escrava subjugada de mil e uma formas pelo temível e instável capataz Michael Fassbender. O britânico McQueen rodeia-se dos melhores actores britânicos da actualidade, com um toque americano à mistura, para trazer esta história norte-americana na origem e globalmente humana na génese.  

O que é que 12 Anos Escravo muda? Faz-nos dar valor à nossa liberdade de escolha, de pensamento, de trabalho e de ser quem somos. 

Um filme baseado em factos verídicos, que emociona, nos tira com estrondo da realidade moderna tecnológica e cibernética e nos coloca no final do século XIX, prontos para ficarmos revoltados e solidários com Solomon Northup:
O talentoso homem livre que se vê escravo e obrigado (vezes sem conta e à força) a assumir uma identidade diferente e a ser escravizado durante 12 longos e duros anos da sua vida. 

Um forte candidato aos Óscares pela história, realização e interpretações notáveis (Fassbender, Ejiofor) e um forte candidato a filme para ficar na memória por muitos e bons anos. 

A ver! 


0/10 - 9 valores!

Crítica The Dark Knight


Escrito em Agosto de 2008 para o Destak.

Batman | O Cavaleiro das trevas
O caos de Joker
Heath Ledger abrilhanta com o seu Joker o novo filme de Batman, que poderá ser matéria de Óscares

João Tomé

O morcego humano Batman está de volta ao cinema, mas é uma outra personagem que enche por completo o grande ecrã e torna a sequela do filme de 2005, Batman – O Início, um dos melhores thrillers do ano. O malogrado Heath Ledger (que morreu de forma acidental em Janeiro) pode já não estar entre nós, mas conseguiu, com a mítica personagem Joker, uma saída “estrondosa” graças a uma interpretação perturbante e esplendorosa.

Os tiques, o riso, as mudanças de humor, os movimentos corporais. Todas estas características e o carisma de Ledger dão força e profundidade digna de Óscares a Joker e ao filme, confundindo tanto os pseudo-heróis da trama como o espectador.

Joker já tinha abrilhantado o Batman de Tim Burton (1989), cuja interpretação do inimitável Jack Nicholson deu que falar. Mas embora o filme de 1989 fosse mais negro na estética, este novo Batman consegue distanciar-se mais do facto de ser um blockbuster e incluir complexidade, enredo e força de desempenhos.

O realizador e argumentista Christopher Nolan superou-se para entregar um thriller explosivo, repleto de acção e de geringonças típicas de Batman, mas com muito mais para contar, sentir e experienciar. Tudo graças a uma personagem tão entusiasmante quanto perturbadora: Joker.

Ordem no meio do caos
A Gotham retratada em O Cavaleiro das Trevas é bem mais semelhante às típicas cidades norte-americanas (foi filmado em Chicago) e bem menos escura e negra do que vimos nos outros filmes da série.

Batman continua a sua luta contra o crime, mas nem tudo o que faz é bem visto pela população. Com a ajuda do tenente Jim Gordon (Gary Oldman) e do novo procurador distrital, Harvey Dent (o intenso Aaron Eckhart), Batman pretende destruir as restantes organizações criminosas que controlam as ruas da cidade, ignorando um pequeno pormenor.

A parceria parece revelar-se eficaz, até se encontrarem inseridos num reinado de terror, desencadeado por uma mente genial, mas psicopata, traiçoeira e criminosa, conhecido pelos assustados cidadãos de Gotham como Joker. Alguém que não é movido pelos desejos de riqueza, mas sim pelo de provocar caos e provar que todos os bons da fita também podem ser maus. Um dos filmes do ano.

O CAVALEIRO DAS TREVAS
De Christopher Nolan
Com Christian Bale, Heath Ledger, Aaron Eckhart, Michael Caine,
Maggie Gyllenhaal, Gary Oldman, Morgan Freeman, Eric Roberts
EUA, 2008; 150 min.

BATMAN/BRUCEWAYNE
Christian Bale
A vida nunca foi tão complicada para Bruce. Vive na cidade depois de a mansão ser destruída e ouve cada vez menos o sereno Alfred (Michael Cane). Não compreende Joker, que é o adversário de uma vida.

JOKER
Heath Ledger
Psicopata e genial. Imprevisível e estratego. Fã do caos e sem nada a perder. Assim
é este Joker negro e cativante como personagem que vira uma cidade do avesso.
O falecido Heath Ledger merece mesmo o Óscar.

RACHEL DAWES
Maggie Gyllenhaal
É a única personagem que mudou de intérprete (em 2005 era Katie Holmes). Uma mudança para melhor. Agora Rachel é a namorada do procurador Harvey Dent, mas continua a preocupar-se com Bruce Wayne.

HARVEY DENT
Aaron Eckhart
O procurador de Gotham junta-se ao tenente Gordon (Gary Oldman) e a Batman para “limpar”. Tem a fé de poucos e Batman vê neleum substituto seu sem a capa. Uma bela interpretação de Aaron Eckhart.

Crítica Gran Torino

http://filminbusan.files.wordpress.com/2009/02/grantorinoposter.jpg


Eastwood, o veterano durão

Duro. Implacável. Bruto. Desagradável. Velho. De voz áspera. Adverso a novos amigos. Desta forma pouco agradável se pode descrever a complexa e incrivelmente cativante personagem Walt Kowalski, interpretada em Gran Torino de forma ímpar por Clint Eastwood.

A lenda viva do cinema volta a realizar e a protagonizar, com resultados espantosos, graças a uma história difícil e actual e a uma personagem feita de propósito para ele.
A trama começa logo após a morte da mulher de Walt.

Este veterano polaco marcado pela guerra na Coreia é rude com os filhos, que já pouco se importam com o pai e com o próprio padre, um «virgem de 27 anos, excessivamente letrado que pensa que sabe o que é a vida e a morte pelo que leu nos livros».

Sozinho na casa e no bairro de sempre, Walt vai cuidando de si e do seu Gran Torino de 1972, um Ford clássico, à medida que também olha com desconfiança e a habitual dureza para os novos vizinhos Hmongs, imigrantes do sudeste asiático.

O bairro mudou de feições, predominando cada vez mais imigrantes e gangues. A sua relação com os vizinhos asiáticos começa a mudar quando este velhote assustadoramente sério impede que o vizinho adolescente, Thao, lhe roube o seu Gran Torino, obrigado pelo gangue do seu primo.

A partir daí a família de Thao impõe ao adolescente que ajude o velho rezingão e pronto para a luta, e cria-se uma amizade improvável, que vai ser gravemente perturbada pela retaliação do gangue do primo de Thao.

Um filme cheio de força humana, dura, crua e emocional, que cativa .




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"Aos 78 anos já não quero ser 'Dirty Harry'"
in Ipsilon



"Yeah, I liked the dilemmas he had to go through. I liked the message of antique America that is maybe obsolete. Walt may be obsolete." He laughs gently. "But he does learn new things. And that's what makes it interesting. You take a guy who's way out opinionated, insulting to equal opportunity" - this sounds like a phrase he's had to adjust to - "an insulter, and you put him with people where he's antagonistic as hell. And then all of a sudden he looks in the mirror and says, 'I have more in common with these people than my own spoilt, rotten family.' He's realising these folks like having him around, even though he's not particularly on the surface likable."
in Guardian

Crítica The Life Aquatic with Steve Zissou



Vida aquática deliciosa
Uma aventura extraordinariamente diferente, que nos leva a um mundo aquático repleto de comédia inteligente, com drama, ironia e boa música

João Tomé - in Destak

> Uma história simples mas muito bem contada por Wes Anderson, com um surrealismo brilhante num mundo tão estranho quanto apaixonante. No seu último filme The Royal Tenenbaums, Anderson e o co-argumentista Owen Wilson (também actor neste filme), oferecem-nos um universo paralelo em Manhattan com personagens igualmente estranhas, curiosas e inteligentes.
Em The Life Aquatic with Steve Zissou (título em inglês) o realizador vai ainda mais longe num mundo imaginário repleto de equipamentos engenhosos e de espécies marinhas estranhas (criadas por computador), desde cavalos-marinhos coloridos a cardumes cor-de-rosa. Esta é a história de um famoso oceanógrafo, Steve Zissou, personagem baseada na comédia de Bill Murray e na vida de Jacques Costeau, e da sua equipa disfuncional e excêntrica.
A bordo de um barco velho mas aconchegado, chamado Belafonte, a equipa Zissou dedica-se a documentários e a expedições subaquáticas. Mas os problemas financeiros e a morte de um parceiro na sua última aventura, comido por um tubarão jaguar extremamente raro, fazem o comandante Steve Zissou iniciar uma expedição amalucada, pelas profundezas marítimas, de forma a vingar o amigo e matar o tubarão.
Com um elenco fantástico, encabeçado por Bill Murray – a personagem de Zissou foi criada a pensar nele – participam nesta aventura surreal Owen Wilson como piloto e admirador, que pode, ou não, ser filho do oceanógrafo; Cate Blanchett, a repórter responsável pela cobertura da expedição; Angelica Houston como a mulher misteriosa de Zissou; Willem Dafoe como irmão ciumento e engenheiro da embarcação e Jeff Goldblum, o arqui-inimigo e o recém-chegado.
O brasileiro Seu Jorge tem aparições muito divertidas ao cantar em português músicas de David Bowie. São personagens diversificadas num mundo que tem parecenças com o filme Yellow Submarine e com a comédia dos Monty Python. A marca de Bill Murray, e o seu humor calmo, junta-se ao humor inteligente de Wes Anderson para nos dar um filme muito agradável.

De: Wes Anderson
Com: Bill Murray, Owen Wilson, Cate Blanchett, Anjelica Huston, Willem Dafoe, Jeff Goldblum
Origem: EUA, 2004
118 minutos
http://lifeaquatic.movies.go.com


1

Crítica There Will Be Blood


Haverá Sangue


Coração Rude e de Ouro Negro

Ao ver Haverá Sangue (nomeado para oito Óscares), cedo se percebe que George Clooney tinha razão: haverá sangue por Hollywood se o britânico Daniel Day-Lewis (já oscarizado em 1989) não conquistar a 24 de Fevereiro o Óscar de Melhor Actor. Quando é um papel e um desempenho que dá alento e força ao filme, estamos na presença de matéria de Óscar.

O criativo Paul Thomas Anderson (autor de Magnólia e Punch Drunk Love) acertou quando escolheu Day-Lewis como mineiro duro e ambicioso, Daniel Plainview.Anderson, que escreve, produz e dirige o drama baseado no livro de 1927, Oil!, sai do estilo habitual para fazer um drama "áspero" sobre a fundação da América contemporânea. Plainview é um mineiro pelo Novo México, em busca de prata e que descobre petróleo depois de sofrer um acidente.

Já abastado, parte em 1911 para uma propriedade na Califórnia, onde um jovem diz que o "ouro negro" transborda da terra. Com o seu filho H.W. e munido de uma determinação implacável monta na cidade miserável a prospecção. Por lá terá de lidar com o jovem fervoroso pregador Eli Sunday (Paul Dano) e com os barões do petróleo que o tentam comprar.

Esta personagem maior que a vida com sentido de família e com vontade de sujar as mãos lida com corrupção e decepção da mesma forma: com brutalidade e sangue. Um filme duro mas intensamente bom.


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De: Paul Thomas Anderson
Com: Daniel Day-Lewis, Martin Stringer, Matthew Braden Stringer
Drama; Thriller
EUA, 2007

mr. adams goes to maxime

Mini-concerto a 7 de Março de 2008. Parte da reportagem saiu no jornal Destak.





Bryan Adams "a pedido" no Maxime
Um homem louro de baixa estatura e aspecto franzino, com mãos de guitarrista (dedos longos e pulsos fortes), entra num mini-palco com uma viola e uma harmónica. Poderia tratar-se de um qualquer espectáculo a solo e ao vivo num pub da capital portuguesa. Mas não. O músico, letrista e fotógrafo Bryan Adams apresentou assim, a cerca de 350 fãs, convidados e jornalistas três músicas do seu novo álbum, misturadas por entre canções antigas e expressamente pedidas pelos fãs fervorosos e de todas as idades que estiveram no Maxime.
Enquanto começava o mini-concerto acústico e original em plena Praça da Alegria, lá fora começava no centro lisboeta a azáfama da hora de ponta, já que o espectáculo foi à tarde, entre as 17h15 e as 18h - mais uma peculiaridade da iniciativa promovida pela discográfica de Adams e apimentada com as sugestões do rocker canadiano que viveu cinco anos da sua infância perto de Cascais.



Brincalhão e disponível
Com o habitual estilo descontraído e jovem, de quem tem 18 ‘till I die (música pedida pelos fãs e tocada por Adams), o cantor entrou bem-disposto e brincalhão com as habituais calças de ganga e uma sweat shirt preta. “Vocês não vão a bares strip, pois não?” Perguntou aos fãs brincando com a história do Maxime, acrescentando ainda “em Portugal não há bares de strip”.
Com o público entusiasta a menos de um metro de distância, sem barreiras e num pequeno palco com 10 centímetros de altura, Adams confiou na boa vontade e bom senso dos fãs e deu-se bem. Falou um pouco em português, entrou em diálogo com vários membros do público, quase todos eles com máquinas fotográficas cujos flashes disparavam avidamente e perguntou várias vezes: “O que é querem ouvir?” Depois de dezenas de respostas que iam de músicas pouco conhecidas de álbuns de 1983 até ao recente Room Service, Adams ia escolhendo aquilo que conseguia tocar sozinho, com a viola acústica e harmónica. “Não ensaiei nada”, admitiu o cantor da voz roca, que mostrou estar em boa forma e continuar perito em cantar ao vivo. Sempre com uma resposta divertida para os fãs, sugeriu que um deles lhe começasse a fazer a setlist dos concertos e precisou da ajuda de folhas para as músicas do novo álbum.





Público cantor
“Hoje nem preciso de cantar”, brincou o cantor que das 11 músicas tocadas, que passaram pelo mexido Can’t Stop this Thing We Started, pelo inevitável Summer of 69 ou por Heaven, apenas houve duas em que o público não conseguiu acompanhar Adams em todas as partes das letras. Foram tocadas três músicas do novo álbum, duas que ninguém conhecia ainda (o álbum ainda não saiu) e uma, o single, que já a sala tinha ouvido no site oficial.
O músico pediu ainda para não o filmarem. Porquê? “Não quero ir parar ao Youtube”, brincou. No final pediu desculpa pela brevidade da “promo” (concerto de promoção) de 45 minutos, que tinha de terminar à 11.ª canção, e prometeu que volta a Portugal para um concerto em Dezembro.
“Foi uma oportunidade incrível e única de conviver com ele, pedir-lhe músicas e ouvi-lo num registo muito íntimo... só mesmo o BA para alinhar numa coisa destas”, disse Carlos, engenheiro de 33 anos e fã desde 1986.
Já Hélder e Patrícia, irmãos gémeos de 13 anos, tiveram pena de não terem conseguido ver o ídolo de perto. Sorte diferente teve Carla, 27 anos e fã desde os 10, que ficou “a escassos centímetros dele e vibrou quando ele veio tocar coladinho a mim”. O casal Jorge e Ana, com quase 40 anos veio ver “mais um concerto” do ídolo número um de Jorge, desde os anos 80. Um público heterogéneo que contou ainda com os músicos portugueses Tiago Bettencourt (Toranja) e João Pedro Pais.
Concerto terminado, houve tempo para fãs antigos e conhecidos muitos deles apenas pela Internet, se encontrarem e porem a conversa em dia num Maxime mais vazio e que oferecia bolos, pastéis e bebidas aos 350 sortudos que “nem sequer tiveram pagaram para ver BA”, como disse João, de 26 anos e fã desde 1990. “Em Dezembro há mais já com o Mickey Curry e o Keith Scott (a banda de Adams).”




Texto e fotos: João Tomé



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Curiosidades
11 álbuns, 11 canções, 11 concertos em 11 países em 11 dias
A "jóia da Europa", como Adams apelidou Lisboa logo no início da apresentação "tinha de ser" o ponto de partida da promoção europeia (e da estreia mundial) do novo álbum que é lançado a 17 de Março por todo o planeta. O álbum com o nome de 11 e que inclui 11 músicas novas e com uma tonalidade mais acústica do que o habitual, tem esse título por ser o 11.º da carreira do canadiano a viver em Londres. Por isso mesmo a digressão de promoção passa por 11 países em 11 dias, sempre em locais pequenos e onde Adams toca sempre 11 músicas, incluindo algumas das novas.

T-shirt Y-3
Adams não costuma vestir roupa de marcas conhecidas nem com mensagens. Mas no concerto do Maxime apareceu com uma sweat shirt preta com a indicação no ombro Y-3. Apenas isso e mais nada. Ora Y-3 é o nome de uma nova colecção da Adidas que ainda não foi lançada no mercado mundial mas se espera inovadora.




Microfone pessoal
Foi ainda utilizado o microfone habitual de Adams, com um formato específico bem ao gosto do cantor que usa o mesmo género de microfone em todos os seus concertos.
















Alinhamento (acho que é esta a ordem)
1. Back To You
2. Can’t Stop This Thing We’ve Started
3. I Thought I’d Seen Everything (nova, single)
4. Cuts Like A Knife
5. 18 Till I Die
6. Oxygen (nova)
7. Straight From The Heart
8. Summer of 69
9. Walk On By (nova)
10. When the Night Comes
11. Run To You

may rufus be with you

Concerto de 24 de Abril 2005 (domingo).


Rufus trouxe magia e fetiche ao Coliseu
Com muita conversa, ritmos contagiantes, uma voz grave e pitadas de ópera o cantautor Rufus Wainwright voltou a Portugal para levar ao delírio o Coliseu de Lisboa que, apesar de não ter enchido teve uma intimidade inesquecível.

João Tomé

Quem é Rufus Wainwright? Quem esteve durante as quase duas horas de concerto do americano residente do Canadá no passado domingo em Lisboa percebeu quem ele realmente é. Depois de uma primeira parte com os sons harmoniosos e calmos de cantora Joan Wasser, que é membro integrante da banda de Rufus, o espectáculo que jovens, adultos e mais velhos esperavam começou ao som exótico de Agnus Dei.
Houve muita pop-ópera vinda do piano de Rufus – que passou a noite entre o piano e a guitarra, sentado e em pé, como é habitual –, e da sua banda composta por violoncelo, violino, guitarras acústicas, guitarra eléctrica, bateria (com tambores), dependendo das músicas. O cantor usa muita bem a sua bonita voz, grave, e que nem sempre foi bem captada pelo microfone. Assumidamente homossexual, tem uma forma de escrever, cantar e dançar descontraída e particular.
O que Rufus pretende? «Ser único e original», disse no passado sábado em entrevista ao Frescas e Boas (a ser brevemente publicada). E isso já ele o conseguiu.
A primeira parte do espectáculo contou com as músicas do último álbum Want Two. «Esta é a primeira música em muitos anos que consegui escrever sem ser sobre mim», explicava o cantor antes de cantar The Art Teacher. Do último álbum também cantou as aplaudidas This Love Affair e The One You Love.

Falador, descontraído e divertido Rufus tem sempre o público atento, gosta de falar antes de cada música, explicar como ela surgiu e também falar sobre a sua vida. Logo no início falou que adora a palavra ‘Lisboa’, dá ares de anos 30 e falou no jogo Estoril-Benfica – que motivou gritos benfiquistas. Mas Rufus dedicou a música seguinte aos derrotados. «Vou para Roma e esperava que não houvesse nenhum Papa», diz antes de começar a cantar a música Gay Messiah, que dedica com ironia a todos os Papas mortos e vivos.
Depois fez ainda uma dupla homenagem ao falecido Jeff Buckley, primeiro com Memphis Skyline, depois com a fabulosa canção Hallelujah – de Leonard Cohen, mas celebrizada pela fantástica interpretação de Buckley. Outra das partes dos concerto foi dedicada à sua família, todos eles também cantores e autores e que curiosamente estão em digressão pela Europa.
Começou por contar, com o seu jeito muito próprio e comunicativo, uma história ‘maluca’ vivida no próprio dia pela mãe – com quem fala todos os dias –, em digressão na Holanda. E de seguida cantou Beauty Mark, a música dedicada à sua mãe, Kate McGarrigle.

Ainda teve a sinceridade para pedir que todos comprassem discos da irmã, Martha Wainwright, a quem dedicou Little Sister – onde ele acreditava ser Mozart 'himself'. Rufus é muito sincero e não se põe com falsas modéstias, bem pelo contrário. Terminou a parte dedicada à família com a música em honra do pai, que confessa amar apesar de ter estado muito ausente na sua vida. «Ele é um letrista fantástico», explica antes de cantar a música muito aplaudida Dinner at Eight sobre o pai, Loudon Wainwright III.
Na etapa seguinte do concerto somos levados para um outro universo, místico e etéreo com Across The Universe. A música mais esperada, Cigarettes and Chocolate Milk, foi bem tocada e fez as delícias da audiência já totalmente rendida. Rufus ainda nos guiou pela sua cidade de sempre, Montreal, no Canada, com Hometown Waltz e falou nos muitos portugueses que existem por lá: «adorava a comida portuguesa».




Para o primeiro encore estava reservada a parte mais inesquecível e que demonstra as várias facetas do cantor. A banda e Rufus começam a despir-se. Quando parece uma pequena brincadeira, todos continuam até ficarem em trajes menores muito divertidos. O público ria-se e aplaudia de pé em êxtase. Rufus ficou de saltos altos vermelhos e cueca fio dental, com uma asas de borboleta e uma varinha mágica. Uma espécie de Sininho. As duas raparigas da banda ficam em roupa interior provocante, e os outros alternavam trajes menores muito divertidos.
Tocaram assim vestidos e ao terceiro encore vestiram roupões turcos e ainda tiveram tempo para a linda canção Califórnia. Rufus ainda perguntou: «ficaram chocados?». A resposta foi não e o público dificilmente vai esquecer um concerto que foi tão diversificado quanto apetecível.


«Welcome home Bryan!»

Reportagem ao concerto de Bryan Adams, no Atlântico. Saiu no Destak de 1 Fevereiro 2005.






Fotos por João Tomé



Bryan Adams voltou a Portugal para mais três concertos. O Frescas e Boas assistiu à festa do rock and roll no primeiro concerto, domingo, onde 15 mil fãs portugueses vibraram para a posteridade, visto que o espectáculo foi filmado e vai ser editado em DVD para comemorar os 25 anos de carreira a solo do rocker canadiano a viver em Londres


Por João Tomé


Cabelo louro curto e rebelde. Uma T-shirt preta, justa e simples. Umas calças de ganga o mais banais possível. Uma guitarra na mão e uma voz rouca sempre sintonizada com o que de melhor o rock and roll tem, a simplicidade. Foi com os melhores ingredientes de Bryan Adams que 15 mil portugueses vibraram no domingo, em pleno Pavilhão Atlântico, em Lisboa.
O canadiano, a residir em Inglaterra, adora Portugal e está sempre disposto a regressar – muito por ter vivido cá durante a infância, entre 1967 e 1971. Não é por acaso que Adams escolheu o nosso país para gravar o DVD de comemoração dos 25 anos de carreira. «Podia escolher Inglaterra, mas não; podia ter escolhido Espanha, mas não; escolhi Portugal, claro!», disse Adams a meio do concerto motivando a público a gritar por Portugal.

Com uma atmosfera mais agradável ao olhar, mas menos intimista do que os concertos em Fevereiro de 2003 – em que Adams terminou a actuação de duas horas e meia num minipalco no centro da plateia –, este foi um espectáculo onde o público também foi protagonista. Luzes vindas da última bancada e do centro do pavilhão iluminaram os fãs portugueses, durante todo o concerto, para a posteridade.
O primeiro momento da noite foi com o clássico Can´t Stop this Thing We Started, onde Adams e o público pareciam não querer parar de cantar – a música durou no mínimo dez minutos. Apesar de estar a promover o álbum Room Service, lançado em Setembro – onde integram músicas escritas no Pavilhão Atlântico e no Coliseu do Porto – o canadiano acabou por tocar poucas músicas novas fazendo deste espectáculo e futuro DVD, uma espécie de Best Of.
Room Service, que reflecte a vida de quem anda sempre em digressão e dá nome ao novo álbum, foi uma das preferidas pela audiência. Mas foi com rock puro e duro de Kids Wanna Rock, It´s Only Love e Run to You que o pavilhão foi ao rubro numa interacção continua entre Adams e o público – ao cantarem alternadamente.
Já Keith Scott, o guitarrista que acompanha há décadas Bryan, mostrou o que de melhor a guitarra eléctrica pode dar a um concerto com momentos electrizantes. A magia e interacção com o público é um dos trunfos do cantor de 45 anos que adora percorrer todo o mundo com centenas de concertos todos os anos.

«Escrevi esta música com 18 anos», disse Adams para dar início a Straight from the Heart. Mas a balada que encantou o pavilhão e colocou muitos olhos a brilhar na plateia foi mesmo Everything i do (i do it for you) que motivou os habituais isqueiros e beijos dos casais mais apaixonados. «Quem quer vir cá acima cantar comigo?» Perguntava Adams aos fãs – algo habitual nos seus concertos –, havendo uma maré de dedos no ar, ansiosos por cantar ao lado do seu ídolo. Adams olhou, até que encontrou uma jovem de Carcavelos chamada Mariana que cantou com ele When Your Gone, nervosa mais desinibida. Ainda houve tempo para Adams tocar sozinho no palco, apenas com a música da sua guitarra, a balada do novo álbum, Flying, entre outras. No fim, os fãs queriam mais do que as duas horas de concerto, mas o resto ficaria para ontem, o segundo concerto em Lisboa.

Fãs de todas as idades
«Adoro o Bryan! Estive na fila desde o meio-dia para ficar mesmo à frente, e as portas só abriram às 7h [19h.]». Ana, que segura um cartaz a dizer «Welcome home Bryan», é uma das sortudas que conseguiu garantir um dos lugares mais requisitados da plateia: mesmo à frente de Adams, junto ao palco. «Haviam umas raparigas que vieram para cá desde as 8h30 da manhã, que doidas!», explica a fervorosa fã de Bryan Adams, de 18 anos.
Mas não eram apenas jovens que estavam junto ao palco, Carlos, de 37 anos, é adepto incondicional de Adams desde os dez anos de idade e não perdeu um concerto desde 1988, quando o canadiano tocou no Estádio da Luz. «Não é só a música fantástica que me inspira, é também a forma de estar na vida, na música e no palco que fazem do Bryan um símbolo que acompanho desde a juventude», explicou.
Num dos principais momentos do concertos tanto Carlos como Ana, e dezenas de outros fãs que conseguiram ficar à frente na plateia puderam abraçar o cantor, quando este desceu do palco para se infiltrar no público ao som da música The Best Of Me. «You´ll always get the best of me», cantava Adams por entre abraços e beijinhos dos fãs portugueses. E foi o melhor de Bryan Adams que se viu domingo em Lisboa – ainda por cima ficará guardado para sempre em DVD.