Entrevista a Andrea Berloff

Saiu em formato bem mais pequeno no Destak, em 2008.





Entrevista
Oliver Stone «é mais exigente com ele próprio do que com os outros»
Entrevista à argumentista Andrea Berloff, que se estreou na profissão com o filme World Trade Center, de Oliver Stone. O DVD da homenagem aos heróis do 11 de Setembro de 2001 foi lançado esta semana em Portugal.


Idade: 33 anos. Profissão: Argumentista (ex-actriz.
Hobbys: «Adoro ler, leio muito. Gosto muito de fazer caminhadas.
Tenho um filho.»



Há quanto tempo é guionista? É a sua grande paixão?
Agora é a minha paixão. Comecei como actriz, durante vários anos. Sou uma argumentista profissional há quatro ou cinco anos. Mas obviamente antes disso já escrevia só que não era paga por isso. É difícil de dizer há quantos anos comecei a escrever, porque houve uma altura em que fazia as duas coisas, actriz e argumentista, mas diria há uns oito anos.

Como adolescente já gostava de escrever?
Não. Só comecei-me a interessar por isso e a escrever quando tinha 25 anos, à volta disso. Nunca escrevi nada até essa altura.

Como actriz fez que tipo de trabalhos?
Teatro. Estive em Nova Iorque durante alguns anos onde fiz teatro.

Essa também é uma paixão?
Sim, adoro teatro, mas é difícil viver disso, infelizmente.

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Como surgiu o convite para este projecto de trabalhar com Oliver Stone?
Tinha estado a trabalhar e a ser paga para escrever, mas nunca tinha tido nada produzido antes mas os produtores do filme, Michael Shamberg, Stacey Sher e Debora Hill, que queriam fazer um filme sobre a tragédia, encontraram-se com alguns argumentistas. Então convidaram-me para apresentar uma proposta e mostrei-lhes como iria pegar na ideia e eles contrataram-me.

Pesquisou antes de a contratarem, depois, ou antes e depois?
Ambas. Antes de ir ter aquela reunião fiz cerca de 40 horas de pesquisa, vendo jornais e pesquisando na Internet, essas coisas. Depois consegui o trabalho e fui a Nova Iorque onde fiz muito mais pesquisa próxima.

As histórias de John e Will Jimeno foram propostas por si?
Não, os produtores tinham já escolhido as duas famílias e sabiam que o filme era sobre essas duas famílias, quando me contrataram.

Entrevistou as famílias durante quanto tempo?
Houve mais do que uma viagem a Nova Iorque. A primeira vez que fui estive uma semana apenas com as duas famílias. Voltei uns meses depois e conheci muitos dos salvadores. Fui cerca de 10 ou 11 vezes a Nova Iorque, por isso passei muitas horas com eles.

Sentiu uma ligação emocional com eles e as suas histórias?
Imediatamente. Eu nunca encontrei um grupo de pessoas tão simpático. Tão generosos com o seu tempo e tão desejosos em nos ajudar a contar a melhor história possível. Verdadeiramente não havia uma maçã podre no grupo. É obviamente muito estranho e difícil quando nos sentamos numa sala cheia de desconhecidos e pedimos-lhe que nos contem sobre o pior dia das suas vidas. Eles têm o coração bem aberto. No primeiro dia sentei-me com John e Will e as suas esposas. E numa hora estávamos todos ali sentados e a chorar. Foi algo como nunca experienciei antes.

A história deles os dois é muito forte e emocional. Como conheceu Oliver Stone neste processo?
O Oliver veio mais tarde. Eu tinha feito toda esta pesquisa, encontrei-me com as famílias e escrevi o argumento. E depois, alguns meses depois, o agente do Oliver acabou por ler o argumento e achar que ele poderia gostar dele. Então enviou-lhe. Uma versão do argumento foi feito mais ou menos antes do OLiver entrar no filme. Depois dele decidir ficar com o projecto voltámos a Nova Iorque, fizemos mais pesquisa e mais alguma escrita. Foi mais ou menos feito na altura que ele entrou.

O argumento teve várias versões?
Não propriamente, tinha uma primeira versão que criei sozinha e uma segunda que o Oliver criou com a minha ajuda – estive envolvida. Quando o Oliver entrou no projecto algumas coisas mudaram. Primeiro o projecto ficou com uma dimensão muito maior, com Oliver Stone, Nicolas Cage, e a Paramount, nada disso existia quando comecei. Muitos mais dos verdadeiros salvadores quiseram que as suas história entrassem. Então tivemos de voltar a Nova Iorque e entrevistar mais resgatadores. E isso foi um trabalho intenso que tive de fazer com o Oliver.

Como é Oliver Stone? É um homem fácil com quem se trabalhar?
Fácil não é a palavra correcta (risos). Ele é muito exigente, como deve ser. Ele sabe o que quer… é um dos homens mais inteligentes com quem já trabalhei. Ele é mais exigente com ele próprio do que com os outros, mas é extremamente colaborante o que achei surpreendente. Não tinha qualquer obrigação de colaborar comigo, poderia facilmente ter feito tudo sozinho mas não o fez. Trabalhámos juntos muito bem. Foi uma experiência de aprendizagem incrível para mim.

Li que ele gostou muito do seu guião para uma novata. Nunca tinha visto uma novata escrever tão bem?
É um grande elogio. Ele disse muitas coisas boas sobre mim publicamente, por todas estou muito agradecida. Por isso é obviamente fascinante trabalhar com alguém do seu estatuto.

Li que escreveu o argumento a pensar em John McLoughlin como Mel Gibson. É verdade?
Isso não é verdade. Não é que não gosto dele… é curioso que se publicam coisas desse tipo. Quando escrevo histórias reais nunca penso em qualquer actor, penso sempre nas pessoas em questão. Conhecia o John tão bem e claro que não estava a pensar que o Mel Gibson ia ficar bem, só pensava no John McLoughlin. Não que eu não gostasse que ele estivesse no filme, mas nunca esteve na minha mente.

Mas ele foi ponderado para o papel?
A primeira e única pessoa que Oliver Stone abordou foi o Nicolas Cage. Aconteceu tudo muito depressa. O Oliver disse sim, duas semanas depois o Nic disse sim. Assim que o Oliver aceitou fazer o filme escreveu uma carta ao Nicolas Cage a convidá-lo e ele disse sim. Aconteceu tudo muito rapidamente.

O filme consegue mostrar uma história muito humana e tocante recorrendo a vários flashbacks entre as cenas em que eles estão presos no entulho e no escuro. Foi complicado manter um ritmo interessante e um lado humano destes homens no meio daquela confusão?
Acho que foi tudo muito difícil. Este foi um projecto muito complicado emocionalmente para escrever. Mas os homens da história eram muito fascinantes. E as histórias que eles contavam uns aos outros eram naturalmente dramáticas e interessantes. Por isso nunca senti que tivesse de inventar material para criar drama, estava tudo ali. Estivemos muito preocupados em ser exactos e rigorosos e eles também. Cerca de 98% do que eles contaram para o filme é rigoroso. A nível da estrutura, isso era algo que criei. Mas a maioria dos acontecimentos aconteceu.

Essa estrutura de flashbacks permite perceber com pormenor o que eles sentiam e experienciaram. Esse efeito foi criado de propósito, para sentirmos o que aqueles homens passaram e como as suas vidas eram importantes?
Quando lhes perguntava em que é que pensavam. Ambos disseram que pensavam sobre as mulheres, os filhos e isso é uma faceta muito humana – algo com que todos os humanos podem sentir proximidade. Quando estamos à beira da morte pensamos naqueles que amamos. Por isso, acho que o flashback que usámos serviu alguns propósitos, para permitir ao público perceber que estes homens têm uma vida inteira para onde voltar, é muito importante que se perceba que há pessoas à espera deles. Isso esconde o sentido de urgência, para que o público queira que aqueles homens viva. E também dá uma imagem mais cheia de quem estes homens são e eram apenas dois homens num buraco o tempo todo, sem ir intercalando com as famílias poderia tornar-se secante. Não há muita acção. São só dois homens, só se consegue ver as suas caras, nem se consegue ver os seus corpos. Por isso há várias razões porque criei essa estrutura.

Qual foi a parte do argumento de que mais se orgulha?
Há duas partes que acho que resultou muito bem tanto no guião como no filme. Gostei muito do momento em que estivemos com os polícias o tempo todo, eles já estão presos nos escombros, o edifício caiu. Não lembro exactamente como escrevi, mas basicamente subimos pelo fumo acima, e sobre a ilha de Manhattan, sobre a Terra e até ao espaço. Onde chegamos a um satélite. E depois vemos as reacções das pessoas um pouco por todo o mundo do 9/11. Gosto desse momento porque globaliza a história para que não seja apenas norte-americana, para que as pessoas, espero, possam recordar como foi esse dia um pouco por todo o mundo. É um momento muito rápido, mas foi essa a minha intenção. Esse momento foi eficaz.

Gostou das críticas e da reacção do público ao filme?
Sim. Foi interessante, porque houve reacções diferentes de país para país. O que é interessante é que, sim, recebemos várias críticas negativas, especialmente no resto dos países, que não os Estados Unidos, mas resultou tão bem, as pessoas foram vê-lo por todo o mundo. Por isso, apesar de algumas críticas más, as pessoas foram vê-lo. Num certo sentido, se tivesse de escolher quem queria fazer feliz, se um crítico ou uma pessoa comum, estaria muito mais preocupada com a pessoa comum e estou muito feliz com o sucesso do filme. Fez mais dinheiro internacionalmente do que fez nos Estados Unidos, e acho isso maravilhoso.

Li que escreveu esta história a pensar não apenas como uma história americana, mas uma história humana, que pode tocar qualquer um no mundo. Quando escreveu o filme tinha esse intuito, de fazer uma história que pudesse ser apreciada não só nos Estados Unidos, como no resto do mundo?
Claro. Óbvio que esta é uma história americana e não tinha qualquer intenção de fazer alguém nos Estados Unidos perturbado. E talvez esteja a ser demasiado grandiosa e com um ego muito grande, mas os meus maiores sonhos para o filme eram fazer ver o que aconteceu a 11 de Setembro a duas famílias, e o filme acaba na manhã de 12 de Setembro porque o veio a seguir ao 11 de Setembro foi um sentimento totalmente diferente, claro.
Para mim, se todos nos lembrarmos o que sentimos com o 11 de Setembro, o que foi sentirmo-nos unificados enquanto um planeta e preocuparmo-nos pelas pessoas, e estou a ser optimista agora, esse é um local que espero que possamos voltar um dia. Por isso, houve algumas coisas que queria transmitir.
Quis lembrar às pessoas o que foi sentir aquele dia, que não foi um dia de ódio a nível geral – e sei que isto soa um pouco lamechas – mas foi um dia com uma quantidade tremenda de amor, entre as pessoas. E na minha vida não senti isso, nesse sentido global. E queria lembrar os americanos e o mundo que os americanos podem ser boas pessoas que tomam as decisões certas. Somos capaz disso, e acho que todos devíamos ser recordados disso.

Creio que está a fazer um remake do filme de 1973 Don't Look Now…
Eu sei que está na Internet, mas não estou a fazer esse argumento. Tive uma conversa sobre esse projecto, mas nunca aconteceu, não foi para a frente. Nunca escrevi nada para eles, a única coisa que fiz foi ter uma conversa com um produtor. Mas acabei de escrever um argumento para o Ridley Scott para um filme sobre a família Gucci. É uma família ligada à moda mas não é um filme sobre moda, é sobre a família de uma forma muito dramática. Por isso acabei de escrever isso e há várias outras coisas em que estou a começar, por isso tenho andado ocupada.

Trabalhar neste projecto abriu-lhe portas para fazer outros filmes?
Sim, sem dúvida, foi uma oportunidade fantástica.

Sobre o filme do Ridley Scott, pode contar-nos um pouco mais sobre ele?
Ainda é muito cedo, ainda estamos a trabalhar no guião. Já o escrevi mas eu e o Ridley ainda vamos pensar bem nele, por isso não está pronto. Não há muito a dizer nesta altura, porque ainda estamos a trabalhar nele para perceber que tipo de filme pode ser, mas basicamente é um grande drama sobre uma família que teve muitas dificuldades. Passa-se nos anos 80 e 90.

De argumentista sem trabalhos produzidos passou a argumentista que trabalhou com Oliver Stone e Ridley Scott em pouco tempo, isto é fantástico para si?
(risos) Sim, é, sem dúvida. Sou muito sortuda. Parece que apenas estou autorizada a trabalhar com grandes homens na casa dos 60. Tenho sido muito abençoada nos últimos anos, muito sortuda.

Com Ridley Scott como é que o projecto veio ter consigo?
Já tinha feito um esboço para um trabalho para a companhia dele, por isso já conhecia as pessoas da companhia dele e depois, eles apenas me ligaram, já depois de sair o World Trade Center. Para o projecto Gucci foi tudo muito rápido. Eles ligaram-me e disseram para eu ir lá e encontrar-me com o Ridley para falar sobre um projecto que ele estava interessado. Isso foi um dos trabalhos mais fáceis que já fiz.

Quando irá estrear nas salas?
Ainda não estamos sem sequer perto disso. Ainda é muito cedo.

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Que géneros e tipos de filme gostava ainda de fazer na sua carreira?
Isso é interessante. Tendo a ser mais uma escritora de drama. Mas gostaria de fazer coisas diferentes. Gostava de fazer uma comédia muito inteligente, que nunca escrevi, mas gostava de ter a oportunidade de o fazer e talvez uma história de amor, mas uma inteligente.

Tem argumentos prontos para que possam ser comprados?
Tenho apenas um que esteja pronto e que esteja mesmo a tentar vender. É uma história verídica sobre alguns autores, escritores, que viviam em Paris nos anos 20.

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É difícil ser uma argumentista nos Estados Unidos, mais do que ser actriz?
Pode estar a perguntar à pessoa errada (risos) porque, para mim, foi mais fácil ser uma argumentista do que actriz, tive muito mais sucesso como argumentista do que como actriz. Ser uma argumentista não é um trabalho fácil, tive muita sorte e tenho bem consciência disso. A maioria dos meus amigos argumentistas não estão empregados, por isso não é fácil. É uma questão de oportunidades. Eu era uma miúda da classe média, em Bóston, que teve sorte. Não conhecia ninguém em Hollywood, quando lá cheguei e apenas tive sorte. Há muitas mais pessoas que não têm sorte.

Foi para Hollywood para seguir a carreira de actriz? Com que idade?
Sim, de actriz, tinha uns 25. Vim de Nova Iorque, onde fiz teatro durante alguns anos, e mudei-me para Los Angeles por haver mais trabalho.


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PERGUNTAS posteriores, por e-mail
Chegou a conhecer Nicolas Cage? O que achou dele como profissional e no trato pessoal?

Sim, conheci o Nicolas Cage. Ele é um gentleman de lés a lés. Encarou o papel de forma muito séria e trabalhou com afinco para retratar de forma correcta John McLoughlin.

Esteve no local de rodagem? Com que frequência? Foi estranho?
Sim, estive bastantes vezes no set, tanto em Nova Iorque (onde filmámos durante um mês) e em Los Algeles (onde filmámos quase 3 meses). Claro, tinha um bebé no meio da produção, por isso tive de tirar duas semanas! ;)

Entrevista conjunta | Goodnight Irene

Para o jornal Mundo Universitário, em 2008.








fotos da talentosa Mónica Moitas

Entrevista para o jornal Mundo Universitário a Nuno Lopes e Paolo-Marinou Blanco, protagonista e realizador do filme português Goodnight Irene. Mais sobre o filme aqui.


«Houve uma química especial no filme e na vida real»

Chama-se Goodnight Irene é um dos filmes portugueses mais prometedores dos últimos anos. Conta a história de um velho inglês e de um jovem português cujo fascínio pela intensa Irene irá torná-los improváveis amigos. O filme estreia já na quinta-feira. Protagonista, Nuno Lopes e realizador, Paolo Marinou-Blanco estiveram à conversa com o MU sobre a experiência «inesquecível». Tudo isto teve como pano de fundo o templo do cinema que é a Cinemateca.


Depois de já terem rodado e produzido o filme e agora que estão a dias da estreia, o que é Goodnight Irene significou para vocês?
NUNO Para mim foi muito mau (risos).
PAOLO …Querem que me vá embora? (risos)
NUNO Para já, desde o Alice nunca mais tinha feito cinema e quando rodei este filme já tinham passado três anos desde a última vez. Foi um regresso ao cinema, que eu tinha muita vontade que acontecesse. Já tinha recebido convites, uns que declinei por falta de tempo, outros porque os projectos não me interessavam. E com o Goodnight Irene apareceu o filme que me apetecia fazer até porque havia uma expectativa grande da minha parte. Houve ainda o lado de voltar a trabalhar com uma pessoa que está a fazer uma primeira obra, que eu acho interessante, porque estás a descobrir as coisas ao mesmo tempo que o realizador e sentes que estás a fazer parte de algo muito importante para ele.
PAOLO O Nuno tem razão quando diz a primeira obra é de uma importância muito grande para um realizador. Uma pessoa encara como se fosse o único filme que fosse fazer. Tudo tem uma importância de vida ou de morte. Agora, olhando para trás, o que achei mais fantástico foi sentir que todos trabalharam na mesma direcção. Isso tinha-me preocupado no início, mas desde os actores à equipa técnica, senti que éramos realmente uma equipa a trabalhar para o mesmo objectivo, que parecia ser maior do que nós. Apesar de ter sido eu a engendrar tudo aquilo, sentia-me apenas mais uma peça. Essa sensação de família intelectual e criativa foi muito especial e inesquecível.


Como é que surgiu a ideia para o Goodnight Irene?
PAOLO A maioria das ideias que tenho surgem de imagens muito simples. A partir daí faço quase um trabalho de detective a perceber porque a imagem é importante para mim. Neste caso tinha presente a imagem de duas personagens, Alex e Bruno, que estavam numa casa que não era deles. O Alex, mais velho, estava numa cadeira de rodas e o Bruno a empurrá-lo ao som de música, quase a fazê-lo dançar. No fundo soube quem eram as personagens, havia uma interdependência emocional entre dois homens sozinhos e individuais que estavam à vontade numa casa que não era deles.
NUNO Aliás, essa cena está no filme.


Nuno, como definirias a personagem do Bruno e o que deste de ti a ele?
NUNO O Bruno é muito solitário. Foi abandonado e isso tem uma marca muito importante na vida dele. E no cerne do personagem parece existir uma vontade de voltar a ter uma família, uma casa. Conscientemente o Bruno recusa isso e faz o contrário: esconde-se do mundo e isola-se. Esses dois lados confrontam-se e explodem nos assaltos dele às casas dos outros, que é como se fosse uma droga para poder sentir-se parte de uma família. A partir do momento em que a Irene entra na vida do Bruno e do Alex, eles percebem que a vida deles já não pode ser a mesma, porque passam a falar com outra pessoa e precisam disso. Quando ela desaparece, isso passa a focar-se um no outro e começam-se a aproximar.


Existe uma relação forte no filme entre o Alex, interpretado pelo experiente Robert Pugh, e o Bruno. Foi fácil criar isso com alguém tão experiente?
NUNO
Havia um certo receio da minha parte em trabalhar com o Robert. Nunca tinha trabalhado em cinema com um actor estrangeiro e sei que a cultura pode influenciar. Além disso, o Robert tinha uma experiência gigante e trabalhado com pessoas que admiro. E era fundamental para o filme que a nossa relação funcionasse e houvesse cumplicidade. No início parecia haver um certo distanciamento que se foi quebrando com a rodagem e com o juntar dos dois personagens, até que passou a haver uma química muito especial no filme e na vida real. Começámo-nos a dar cada vez melhor e na rodagem em Espanha já nos divertíamos que nem loucos e éramos melhores amigos.
PAOLO Estavam sempre na brincadeira (risos). Uma vez, em Espanha, tivemos um problema de luz e foi necessário conduzir o carro em que iam o Nuno e o Robert durante duas horas, à procura do melhor local. Normalmente os actores sairiam do carro para estarem mais confortáveis. Mas eles ficaram lá na conversa a rir constantemente todo aquele tempo!


Do que é que falaram tanto?
NUNO
Falámos muito pouco de cinema, curiosamente.
PAOLO Foi mais Kant e Nietzsche (risos)
NUNO (risos) Acabou por ser mais situações da vida, histórias daquela rodagem e de rodagens anteriores. O Robert tem imensas histórias incríveis de rodagens, inclusive do Master & Commander… mas não sei se posso contar… (risos).


Porque é que o nome do filme mudou já depois da rodagem de Olho Negro para Goodnight Irene?
PAOLO
Quando entrámos na rodagem o título já não fazia muito sentido porque as cenas que o justificavam tinham sido retiradas do guião. Só comecei a pensar num novo título na fase final da montagem. Como a Irene é a catalisadora da história, achei que era bom inclui-la no título. E depois a música folk americana Goodnight Irene surgiu na rodagem de forma espontânea, não existia no guião.
NUNO A canção era o Robert que conhecia, eu só o acompanhei. Começámos a cantá-la no chão do Terreiro do Paço.
PAOLO Durante muito tempo, na montagem, não pensava incluir essa cena em que eles cantam juntos. Mas acabei por usar porque me agrada essa parte da espontaneidade e parecia um bom título. Houve bastante contributo dos actores.


Paolo, acha que era fácil encontrar duas personagens assim na baixa de Lisboa?
PAOLO
Acho que sim. O Alex faz locução para guias turísticos e isso existe. Fui actor da companhia Lisbon Players. E havia uma série de ex-patriados, que tinham sido actores e ganhavam a vida a fazer narrações. Foi a base para a mecânica da personagem do Alex. O Nuno faz chaves e é um português típico com traumas muito particulares.


Como é que o experiente Robert Pugh entrou para este filme?
PAOLO
Tivémos de suborná-lo (risos)… Fizemos um casting em Londres e havia muito a atitude de alguns agentes de actores do tipo “quem és tu?” Houve dificuldade e estranheza por ser um filme português a tentar arranjar um actor com alguma experiência e por ser um realizador estreante. A escolha acabou por ser fácil. No fundo o Robert era o melhor. A relação com ele foi óptima. No início foi algo mais profissional, mas imediatamente percebi não estava a lidar com uma vedeta no mau sentido do termo. E acho que ele ganhou confiança na minha realização e o sentido de humor dele aproximou-nos. Hoje somos amigos.


O filme passa-se quase todo no centro de Lisboa e num apartamento. Porque houve a necessidade de torná-lo, depois, num road movie até Espanha?
PAOLO
Era enfatizar a procura das duas personagens em busca da Irene. A Irene é o catalizador de uma busca em todos os sentidos. Da própria Irene, que desapareceu, e de uma proximidade com outras pessoas e a busca de algum sentido. Eles tinham de tomar esse último passo e sair desse quase casulo que era a casa da Irene.
Quais as expectativas que têm?
NUNO
Nunca espero muito. Gostava muito que as pessoas gostassem, mas nunca sei bem o que vão achar. Sei o que eu acho, mas também estou tão dentro do projecto... Estou muito curioso.
PAOLO Já tive feedback positivo. Satisfaz-me ver que as pessoas reagem bem ao humor que está no filme. Para mim isso é óptimo. O filme esteve em Itália e vai para outro festival no Reino Unido. Acho que a reacção em Portugal vai ser positiva. São personagens com que é fácil identificarem-se.


Têm outros projectos no cinema?
PAOLO
Sobreviver (risos). Agora estou a trabalhar num novo argumento de outra longa-metragem que se passa em Portugal e na Índia.
NUNO Acabei de gravar outra longa-metragem, Efeitos Secundários, de Paulo Rebelo e no cinema, para já, não tenho projectos confirmados.

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Perfis
Nuno Lopes – o multifacetado. Com 30 anos acabados de fazer, Nuno Lopes tem alternado como poucos em Portugal (talvez apenas como Nicolau Breyner), entre a comédia e o drama. Formado na Escola Superior de Teatro e Cinema e com diversas formações no estrangeiro, Nuno tem já uma vasta experiência em teatro, televisão (onde trabalhou no Brasil e em Portugal) e cinema. Apesar de termos visto o seu talento para a comédia na televisão (Herman SIC, Diário de Maria e Paraíso Filmes) foram os papéis dramáticos que lhe trouxeram distinções: o Globo de Ouro de Melhor Actor em 2006, pelo filme Alice, o prémio de Melhor Actor no Festival de Cinema Luso-Brasileiro e o de Shooting Star no Festival de Cinema de Berlim.
Nuno está satisfeito até porque «trabalho não falta» e «não tenho parado». «Neste momento estou numa peça na Cornucópia chamada D. Carlos», explicou enquanto rabiscava o seu caderno de apontamentos (sempre presente), antes de iniciarmos esta entrevista, advertindo ainda que termina já no dia 18 de Maio. Mas o maior desafio recente é a série televisiva de sketches humorísticos para a RTP1, Os Contemporâneos, «onde me tenho divertido imenso mas que me tira muito tempo». Até porque Nuno ainda faz locuções publicitárias e, quando pode, é DJ.
No cinema, depois do muito elogiado Alice, de Marco Martins, de ter entrado em Quaresma e Peixe Lua e António, Um Rapaz de Lisboa, fez este Goodnight Irene e acabou de rodar Efeitos Secundários, de Paulo Rebelo. Para já é tudo, «enquanto não se confirmam alguns projectos que lhe foram sugeridos».


Paolo Marinou-Blanco – o poliglota. Tem um nome de origem italiana, pai português, mãe grega e nasceu em Nova Iorque. Mas o carácter internacional de Paolo não se fica por aqui. Saiu de Nova Iorque aos dois anos, onde «nasceu por acaso» e viveu depois na Bélgica, Madeira, Grécia, África do Sul e Macau. Tudo isto porque o pai era delegado da TAP. Aos 18 anos saiu de casa e passou a maior do tempo entre Londres, Nova Iorque e Portugal.
«Inicialmente não ligava ao cinema, interessava-me era o teatro e comecei como actor e depois encenador», explicou Paolo, admitindo que não tinha talento para actor. Depois quis «enriquecer o intelecto» e estudou Filosofia e História em Londres, tendo ainda feito um mestrado em Literatura Francesa. Com 24 anos e graças a ter descoberto o filme Pierrot le fou, de Jean-Luc Godard, «percebi que queria fazer cinema». Seguiu-se novo périplo de estudos agora em Nova Iorque (de 2000 a 2003), onde teve a ideia e escreveu o Goodnight Irene, que foi rodado em 2005 e estreia esta semana.


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Curiosidade
Nuno Lopes é um estudioso das personagens que interpreta, especialmente no cinema. Para fazer do tímido Bruno, em Goodnight Irene, viu dezenas de filmes e alguns livros. Stalker, de Andrei Tarkovsky, The Conversation, do Francis Ford Coppola, Pickpocket, de Robert Bresson são alguns exemplos, bem como livros do Kafka, até porque o Bruno é «vive muito no seu mundo à parte», e filmes com Philip Seymour Hoffman. Também esteve uma semana a trabalhar na oficina de chaves onde a personagem trabalhava para «perceber o ofício e o universo daquelas pessoas».


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Sinopse Goodnight Irene. Lisboa. Portugal. Hoje em dia. Para Alex e Bruno poderia ser qualquer outra época ou lugar. Alex é um actor inglês falhado, velho e solitário, que grava narrações para vídeos turísticos, e embebeda-se até adormecer. Bruno é um jovem e recatado serralheiro que se dedica à sua obsessão: lutar contra a passagem do tempo, invadindo casas de estranhos para fazer “registos” das suas vidas. Partilham uma obsessão por Irene, uma atraente pintora, que tem toda a paixão pela vida que a eles lhes falta. Mas um dia Irene desaparece, sem deixar rasto... Embora inicialmente contrariados, Alex e Bruno unem forças para descobrir o que lhe aconteceu. À medida que procuram pistas no apartamento de Irene, vão se instalando aos poucos, e uma verdadeira amizade nasce entre estes dois homens solitários. Quando descobrem que Irene poderá estar em perigo em Espanha, este dois heróis improváveis decidem salvá-la.

Entrevista | Robert Pugh

Para o jornal Mundo Universitário. Maio de 2008.



«Seria fantástico fazer um filme em Portugal como realizador»
É um actor britânico experiente e que já trabalhou grandes actores como Anthony Hopkins, Russell Crowe, Paul Bettany e realizadores como Peter Weir e George Cukor. Chama-se Robert Pugh e é um dos protagonistas do curioso filme português Goodnight Irene, do luso-grego Paolo Marinou Blanco, onde contracena com Nuno Lopes e Rita Loureiro. O senhor Pugh, que não dispensa uma bela cerveja gelada, falou por e-mail sobre a experiência que teve em Portugal.
João Tomé


Porque é que um actor de nível mundial como o Robert aceitou participar neste filme?
Não tenho a certeza sobre se sou de nível mundial, mas quis fazer o filme porque estava bem escrito e achei que o Paolo [Marinou Blanco] era um realizador muito perspicaz – o que não é assim tão comum com muitos realizadores com quem já trabalhei. Acho que o Paolo tem um grande futuro, especialmente se continuar a apostar em mim!

Neste filme desempenha o papel de um inglês (Alex) num país estrangeiro que é “a voz” de guias turísticos para sítios onde nunca esteve. Acha que esse homem existe mesmo e de que forma se assemelha com o Robert?
Já fiz várias locuções para comida de gato e roupa interior feminina mas nunca experimentei o produto! Por isso, nesse aspecto, assemelha-se a mim. É a voz de um actor e as pessoas acreditam em tudo o que ele descreve desde que o actor esteja bem no papel.

O que gostou mais na personagem do Alex?
A melhor coisa nele é que é muito humano, tem muitas camadas e é de uma idade em que pode ser rezingão e insultuoso e escapar sem problemas.

Foi bom trabalhar em Portugal? Aconteceu alguma peripécia curiosa?
Adoro Portugal e os portugueses. Lembro-me que numa noite no Bairro Alto, o homem do som, Pedro Melo, ensinou-me uma canção portuguesa atrevida enquanto o resto do elenco tentava impedi-lo. Mas agora a canção está gravada no meu coração e já me pagaram muitas cervejas por causa dela!

Trabalhou em várias peças de teatro, séries televisivas e filmes no Reino Unido. O que mais gosta?
Gosto de todas as áreas porque tornamo-nos parte de uma família e fazemos novos amigos quando trabalhamos em todos esses meios.

Esteve em grandes filmes de Hollywood como Master and Commander e A Última Legião. Em que sentido essas experiências foram diferentes da que teve em Goodnight Irene? É o Russell Crowe um tipo tão porreiro quanto Nuno Lopes?É a mesma coisa, menos no que diz respeito aos bastidores. O Nuno Lopes é um dos homens mais simpáticos que conheço. Só há uma coisa que eu não gosto no Nuno: é que ele não bebe álcool!

Fala bastante português neste filme. Aprendeu alguma coisa da língua?
Tentei aprender antes da rodagem, mas a Rita Loureiro, o Nuno e o Pedro Melo foram os meus melhores professores.

Na sua carreira que já dura desde 1976 quais foram os actores e realizadores mais entusiasmantes com quem trabalhou?Nos actores e sem contar com a Rita e o Nuno: Anthony Hopkins, Russell Crose, Paul Bettany, Charles Gray e muitos mais. Nos realizadores: Lynsey Anderson,
George Cukor, Peter Wier, David Blair e muitos outros.

Do que é que tem mais orgulho em todos estes anos?
Sinto orgulho de tudo o que fiz.

Quais são os seus projectos para o futuro? Tem planos de voltar em Portugal em trabalhou ou em férias?Adoraria voltar a trabalhar em Portugal. Eu também escrevo e realizo e seria fantástico fazer um filme em Portugal como realizador.


Ficha do actor no IMDb
Site do filme
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Entrevista ao director de fotografia Miguel Sales Lopes«Em todos os filmes existe uma cena que parece impossível de fazer»

Como definiria a importância do director de fotografia num filme, para aqueles que são leigos na matéria?É o responsável final pela imagem do filme em todos os aspectos possíveis, desde a qualidade técnica até às capacidades narrativas e leituras dramáticas do filme transmitidas através da fotografia. Mas, no entanto, só se filma o que está à frente da câmara: actores com diálogos, guarda-roupa, décores. Tudo isto faz parte da imagem. Mesmo coisas incontroláveis, como se chove ou faz sol, definem todo o resultado final.
Durante a preparação trabalha com o realizador na criação de um conceito que possa servir o filme, com a produção e demais sectores para que as condições necessárias existam e durante a rodagem manter a visão do realizador, mas de modo a que todo o processo técnico seja o mais transparente para o realizador e actores.
site de Miguel Sales Lopes

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Entrevista com Rita Loureiro«O Cinema é ainda um mistério para mim»


O que é que a Irene tem de especial para ter dois homens encantados por ela?
Ser uma mulher com uma energia muito forte, que se consegue impor na rotina e, na vida daqueles dois homens, de uma forma intensa. Ao mesmo tempo, tem um lado muito misterioso que os cativa. É uma presença ausente.

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Sinopse do filme Goodnight IreneLisboa. Portugal. Hoje em dia. Para Alex e Bruno poderia ser qualquer outra época ou lugar. Alex é um actor inglês falhado, velho e solitário, que grava narrações para vídeos turísticos, e embebeda-se até adormecer.Bruno é um jovem e recatado serralheiro que se dedica à sua obsessão: lutar contra a passagem do tempo, invadindo casas de estranhos para fazer “registos” das suas vidas, que depois guarda num arquivo nas traseiras da sua loja. Partilham uma obsessão por Irene, uma atraente pintora, que tem toda a paixão pela vida que a eles lhes falta. Mas um dia Irene desaparece, sem deixar rasto... Embora inicialmente contrariados, Alex e Bruno unem forças para descobrir o que lhe aconteceu. À medida que procuram pistas no apartamento de Irene, vão se instalando aos poucos, e uma verdadeira amizade nasce entre estes dois homens solitários. Quando descobrem que Irene poderá estar em perigo em Espanha, este dois heróis improváveis decidem salvá-la. A viagem poderá ser em vão. Mas irão fazê-la juntos. Como amigos.

Trailer do filme: www.goodnight-irene-film.com/

De: PAOLO MARINOU BLANCO
Com: NUNO LOPES, ROBERT PUGH, RITA LOUREIRO

Entrevista a Diogo Infante

Entrevista de setembro de 2005. Jornal Destak. 


Um "Animal" à última da hora
Entrevista. O actor português participou no seu filme com maior orçamento, 11 milhões de euros, e revela que substituiu o actor norte-americano, Michael Wincott (participou em filmes como Alien: A Ressurreição, The Doors, Robin Hood: O Príncipe dos Ladrões) como co-protagonista do filme Animal. Diogo Infante, que tem um papel intenso como psicopata, fala ainda nas razões do convite a Catarina Furtado para fazer um cameo.

por João Tomé


Como surgiu o convite para este projecto?
Fui a um casting promovido pela Patricia Vasconcelos, que estava à procura de actores fluentes em inglês para participar neste produção, para personagens mais pequenos. Fui escolhido para fazer a personagem do Dr. Sebastian, que é o concorrente do Andreas, o cientista protagonista da história. Comecei a filmar e depois recebi um telefonema da produção a dizer que a realizadora gostava de jantar comigo porque tinha acontecido um problema grave com o actor americano, o Michael Wincott. Ela disse-me que ou parava o filme ou era eu a fazer o papel de Iparrak, o psicopata e serial killer. No dia seguinte eu estava a filmar já como um dos protagonistas, isto em 2004.

Este homem violento, agressivo e fechado numa jaula futurista, Iparrak, foi um desafio único?
Não tive qualquer tempo para pensar, ver muitos filmes, ler… desesperar… e acho que acabou por ser bom. Eu disse-lhe, “se tu estás disposta a correr esse risco, eu também estou, só nos resta confiarmos um no outro”. Nós achamos sempre que um psicopata, um monstro, alguém que mata 50 mulheres, tem de ter essa carga fisicamente, e eu dizia-lhe que eu não era propriamente muito forte fisicamente… ao que ela me tranquilizava ao explicar que os verdadeiros psicopatas não se enquadram naquilo que consideramos ser alguém forte. São seres muito inteligentes, sociáveis.

Nota-se em Iparrak uma certa proximidade com personagens como Hannibal Lecter. Inspirou-se nela?
Sabia que era preciso encontrar a medida certa da personagem. E o nosso imaginário tem personagens boas de psicopatas. O Anthony Hopkins [Hannibal Lecter, em Silêncio dos Inocentes], o Kevin Spacey [em Seven] já fizeram isso e era difícil não ter essa referência muito próxima, por outro lado encontrar o meu próprio psicopata, muito manipulador e inteligente como essas personagens. Fomos atacando as cenas com o apoio fantástico do Andreas [o protagonista sueco que tenta “domesticar” Iparrak com um tratamento genético] e do próprio elenco, que tinha noção da dificuldade implícita de agarrar um papel destes. Acabou por me dar um enorme prazer. Não tinha nada a perder.

Como era o ambiente da cela?
A cela era fantástica, de facto ficávamos completamente fechados, em 360 graus, e isso também ajudou a criar aquele ambiente pesado, frio, aquela luz era absolutamente horrível… Mas eu e o Andreas demo-nos muito bem, e acho que isso se sente.

Já participou em cerca de 18 filmes ao longo de vários anos. O que significa o cinema para si a na sua carreira?
É uma das coisas que gosto de fazer e não faço mais porque não há mais. Claro que considero-me um privilegiado, tenho em média mais de um filme por ano, o que não é muito comum no nosso meio, com uma produção cinematográfica muito limitada. Adoro fazer cinema porque nos permite investir take a take, cena a cena, um grau de minúcia, de rigor que na televisão não é possível e é necessariamente diferente da linguagem teatral. No cinema podemos trabalhar o detalhe, o pormenor, como os músculos da cara… porque a câmara capta. Estes dois universos complementam-se muito. São ambos igualmente muito importantes, apesar da minha actividade ter-se desenvolvido no teatro, onde consigo controlar os meios de produção, que no cinema é impensável. Estou à mercê das ofertas e dos convites. Tenho tido a oportunidade de fazer algumas produções internacionais, apesar de tudo, que me deram muito gozo… Tenho noção que a dimensão do nosso cinema é proporcional à nossa dimensão, portanto é difícil ter mais convites. E com honrosas excepções os nossos filmes não têm grande visibilidade, ou seja, lá fora quase que não sabem que nós existimos.

Esta participação pode ser um ponto de partida?
É uma oportunidade para que mais pessoas – de outros países – possam ver o meu trabalho. Vai ficar muito bem no meu showreal [currículo]. Ainda por cima é falado em inglês, que é uma coisa que me deu muito gozo. Há frases que, de facto, soam melhor em inglês do que em português.

Foi no filme Pesadelo Cor de Rosa que também teve de falar inglês como língua mãe…
É a única semelhança. Não são coisas comparáveis, até porque o orçamento do Pesadelo não tinha nada a ver com o deste filme [11 milhões de euros]. O Pesadelo teve algum impacto no nosso meio mas não teve qualquer tipo de expressão fora de fronteiras. Este filme [Animal] tem feito um enorme circuito em festivais, já estreou em França, falta estrear em Inglaterra.

Falar em inglês não foi uma dificuldade como se vê no filme. De onde vem a facilidade?
Falo inglês desde miúdo e vivi no Algarve muitos anos, tinha muitos amigos ingleses. Provavelmente é uma coisa genética também, o meu pai é inglês…



Já viu o filme, gostou do que viu?
Esta é uma primeira obra de uma jovem realizadora [a francesa Roselyne Bosch]. Desse ponto de vista acho que é extremamente promissor. Ela tem um domínio da câmara e da linguagem narrativa significativo. O filme tem obviamente algumas fragilidades, mas é importante ver pelo lado positivo. Ela está já a desenvolver um novo projecto e acho fantástico que tenha essa capacidade. Claro que tem vantagem de ser francesa, e estar num meio onde à partida é mais fácil reunir mais apoios. Este foi de longe o filme com maior orçamento em que participei.

Que diferenças encontra entre uma produção apenas portuguesa e outra com um orçamento maior [11 milhões de euros] como esta?
A nível de produção é diferente, a partir do momento que se fala de dinheiro. Por exemplo, deram-me uma roulote gigante, eu nunca tinha tido uma roulote só para mim. Senti-me mesmo uma estrela de Hollywood (risos). Ou seja, há um determinado tipo de cuidados que as produções estrangeiras às vezes têm, por exigências das suas estrelas e que pressupõe dinheiro, que em Portugal não há nestas dimensões. Mas no trato com as pessoas os portugueses são fantásticos.

Apesar da maior parte dos actores serem estrangeiros, existe um beijo a Catarina Furtado (que aparece como figurante). Como surgiu ela no filme, convidou-a?
Claro que sim. Essa cena foi inventada, no filme a realizadora queria que eu conseguisse escapar da perseguição que a polícia me fazia, e havia um artifício com que ela não estava contente e decidiu criar aquele beijo a uma figurante para despistar a polícia. Ela pensou isto na véspera de filmarmos a cena… (na Feira Popular). Eu disse-lhe que achava que não deveria de ser uma figurante, mas uma actriz, porque a cena embora não tenha texto tem uma densidade dramática muito grande e uma figurante pouco preparada podia ficar mal. Ela pediu-me para arranjar uma actriz muito bonita. Eu disse, “bonita só pode ser a Catarina”. Telefonei-lhe e ela disse logo que sim.

Faz locução, coordena um teatro, é actor de teatro. Onde se enquadra o actor de cinema nos seus planos futuros quando faz tanta coisa ao mesmo tempo?
Normalmente os convites de cinema são com bastante antecedência. Só há problemas de calendário se for para filmar daqui a duas semanas ou um mês. Na minha cabeça há sempre espaço para fazer cinema, desde que ele seja bom. O cinema permite-me um tempo, um investimento e uma relação com o texto e as cenas que a televisão não me dá. Se tiver de optar prefiro fazer cinema, mas não há muito. Está dependente dos convites. Nem sempre faço os filmes que quero, faço os filmes que posso.

O que está a fazer neste momento?
Dia 21 de Setembro estreio aqui no São Luiz um musical [Assobio da Cobra] e tenho andado a ensaiar, como é o caso de hoje [dia 5 de Setembro]. Tem sido muito divertido, tenho andado a cantar e dançar. Adoro musicais e temos um elenco fantástico: Lia Gama, João Reis, Isabel Abreu, Pedro Laginha…, com uma banda ao vivo. É uma belíssima forma de descontrair depois de passar o dia no escritório no Maria de Matos, para descompressão. Tenho ainda um filme já feito, A Ilha dos Escravos, uma produção cabo-verdiana que deve estrear para o ano.

Os piratas

Long John Silver, de Björn Larsson
citado pela editora Cavalo de Ferro


Eram independentes e livres. Marginais e criminosos. Saqueavam e atingiram o seu auge histórico e mais estereotipado entre os séculos XVI e XVIII, no Mar das Caraíbas. Os piratas (termo que surgiu na Odisseia, de Homero), desde há muito que fascinam diferentes gerações, em especial os mais novos, facto para que contribuiu, em muito, o clássico infanto-juvenil A Ilha do Tesouro (1883), de Robert Louis Stevenson. Agora, os piratas voltam a estar na moda e,por isso, o Destak sugere dois livros e o DVD do momento. O sucesso do filme Com a saga Os Piratas das Caraíbas e o traiçoeiro e divertido capitão Jack Sparrow (Johnny Depp), os piratas regressaram ao imaginário actual. (...)
A editora Cavalo de Ferro lançou dois livros que ajudam a conhecer os piratas e cuja leitura se revela uma experiência empolgante e enriquecedora. O romance best-seller do sueco Björn Larsson, Long John Silver, fala do famoso pirata, John Silver. Contado na primeira pessoa,
Larsson consegue colocar-se na pele de Silver e mostrar a sua forma de ser livre e autónoma, simultaneamente, traiçoeira e violenta. Este romance apaixonante do pirata de uma só perna inclui o relato de batalhas míticas, traições (explica como perdeu a perna), rum (que John Silver não suportava, tal como as mulheres) e, acima de tudo, liberdade total. História verídica Já a outra aposta, História Geral dos Piratas, falados roubos e assassínios dos mais notáveis piratas, incluindo o lendário Barba Negra e Capitão Kidd – e é dividido por biografias. Tem um enorme valor histórico até porque tudo aponta para que tenha sido escrito por um verdadeiro pirata, sob o pseudónimo de Capitão Charles Johnson. Ahoy... os piratas estão vivos, nos livros e nos filmes.

João Tomé, Destak

mr. adams goes to maxime

Mini-concerto a 7 de Março de 2008. Parte da reportagem saiu no jornal Destak.





Bryan Adams "a pedido" no Maxime
Um homem louro de baixa estatura e aspecto franzino, com mãos de guitarrista (dedos longos e pulsos fortes), entra num mini-palco com uma viola e uma harmónica. Poderia tratar-se de um qualquer espectáculo a solo e ao vivo num pub da capital portuguesa. Mas não. O músico, letrista e fotógrafo Bryan Adams apresentou assim, a cerca de 350 fãs, convidados e jornalistas três músicas do seu novo álbum, misturadas por entre canções antigas e expressamente pedidas pelos fãs fervorosos e de todas as idades que estiveram no Maxime.
Enquanto começava o mini-concerto acústico e original em plena Praça da Alegria, lá fora começava no centro lisboeta a azáfama da hora de ponta, já que o espectáculo foi à tarde, entre as 17h15 e as 18h - mais uma peculiaridade da iniciativa promovida pela discográfica de Adams e apimentada com as sugestões do rocker canadiano que viveu cinco anos da sua infância perto de Cascais.



Brincalhão e disponível
Com o habitual estilo descontraído e jovem, de quem tem 18 ‘till I die (música pedida pelos fãs e tocada por Adams), o cantor entrou bem-disposto e brincalhão com as habituais calças de ganga e uma sweat shirt preta. “Vocês não vão a bares strip, pois não?” Perguntou aos fãs brincando com a história do Maxime, acrescentando ainda “em Portugal não há bares de strip”.
Com o público entusiasta a menos de um metro de distância, sem barreiras e num pequeno palco com 10 centímetros de altura, Adams confiou na boa vontade e bom senso dos fãs e deu-se bem. Falou um pouco em português, entrou em diálogo com vários membros do público, quase todos eles com máquinas fotográficas cujos flashes disparavam avidamente e perguntou várias vezes: “O que é querem ouvir?” Depois de dezenas de respostas que iam de músicas pouco conhecidas de álbuns de 1983 até ao recente Room Service, Adams ia escolhendo aquilo que conseguia tocar sozinho, com a viola acústica e harmónica. “Não ensaiei nada”, admitiu o cantor da voz roca, que mostrou estar em boa forma e continuar perito em cantar ao vivo. Sempre com uma resposta divertida para os fãs, sugeriu que um deles lhe começasse a fazer a setlist dos concertos e precisou da ajuda de folhas para as músicas do novo álbum.





Público cantor
“Hoje nem preciso de cantar”, brincou o cantor que das 11 músicas tocadas, que passaram pelo mexido Can’t Stop this Thing We Started, pelo inevitável Summer of 69 ou por Heaven, apenas houve duas em que o público não conseguiu acompanhar Adams em todas as partes das letras. Foram tocadas três músicas do novo álbum, duas que ninguém conhecia ainda (o álbum ainda não saiu) e uma, o single, que já a sala tinha ouvido no site oficial.
O músico pediu ainda para não o filmarem. Porquê? “Não quero ir parar ao Youtube”, brincou. No final pediu desculpa pela brevidade da “promo” (concerto de promoção) de 45 minutos, que tinha de terminar à 11.ª canção, e prometeu que volta a Portugal para um concerto em Dezembro.
“Foi uma oportunidade incrível e única de conviver com ele, pedir-lhe músicas e ouvi-lo num registo muito íntimo... só mesmo o BA para alinhar numa coisa destas”, disse Carlos, engenheiro de 33 anos e fã desde 1986.
Já Hélder e Patrícia, irmãos gémeos de 13 anos, tiveram pena de não terem conseguido ver o ídolo de perto. Sorte diferente teve Carla, 27 anos e fã desde os 10, que ficou “a escassos centímetros dele e vibrou quando ele veio tocar coladinho a mim”. O casal Jorge e Ana, com quase 40 anos veio ver “mais um concerto” do ídolo número um de Jorge, desde os anos 80. Um público heterogéneo que contou ainda com os músicos portugueses Tiago Bettencourt (Toranja) e João Pedro Pais.
Concerto terminado, houve tempo para fãs antigos e conhecidos muitos deles apenas pela Internet, se encontrarem e porem a conversa em dia num Maxime mais vazio e que oferecia bolos, pastéis e bebidas aos 350 sortudos que “nem sequer tiveram pagaram para ver BA”, como disse João, de 26 anos e fã desde 1990. “Em Dezembro há mais já com o Mickey Curry e o Keith Scott (a banda de Adams).”




Texto e fotos: João Tomé



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Curiosidades
11 álbuns, 11 canções, 11 concertos em 11 países em 11 dias
A "jóia da Europa", como Adams apelidou Lisboa logo no início da apresentação "tinha de ser" o ponto de partida da promoção europeia (e da estreia mundial) do novo álbum que é lançado a 17 de Março por todo o planeta. O álbum com o nome de 11 e que inclui 11 músicas novas e com uma tonalidade mais acústica do que o habitual, tem esse título por ser o 11.º da carreira do canadiano a viver em Londres. Por isso mesmo a digressão de promoção passa por 11 países em 11 dias, sempre em locais pequenos e onde Adams toca sempre 11 músicas, incluindo algumas das novas.

T-shirt Y-3
Adams não costuma vestir roupa de marcas conhecidas nem com mensagens. Mas no concerto do Maxime apareceu com uma sweat shirt preta com a indicação no ombro Y-3. Apenas isso e mais nada. Ora Y-3 é o nome de uma nova colecção da Adidas que ainda não foi lançada no mercado mundial mas se espera inovadora.




Microfone pessoal
Foi ainda utilizado o microfone habitual de Adams, com um formato específico bem ao gosto do cantor que usa o mesmo género de microfone em todos os seus concertos.
















Alinhamento (acho que é esta a ordem)
1. Back To You
2. Can’t Stop This Thing We’ve Started
3. I Thought I’d Seen Everything (nova, single)
4. Cuts Like A Knife
5. 18 Till I Die
6. Oxygen (nova)
7. Straight From The Heart
8. Summer of 69
9. Walk On By (nova)
10. When the Night Comes
11. Run To You

Podcast :: Magacine 0

Aqui fica uma tentativa de podcast sobre cinema e as estreias da semana, com direito a umas algumas notícias breves.
É uma experiência apenas.


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Emissão zero


(7m16s)