reportagem

Reportagem em Itália
'Milano' invadida por tiffosi para o grande embate
O dia 3 da nossa viagem por Milão é o dia do grande embate. A cidade esqueceu o Carnaval (cá só é comemorado no sábado) e vestiu-se hoje de manhã de preto e azul para apoiar o Inter no jogo frente ao Man. United desta noite (19h45). Contamos o que vimos e o que ouvimos.

João Tomé, em Milão

O típico adepto do Internazionale di Milano tem cachecol (de preferência um exemplar feito de propósito para o jogo que vai assistir), gorro com riscas pretas e azuis (até porque o frio aperta – hoje de manhã a temperatura era de 1 grau) e uma bandeira a “forrar” as costas. Na verdade, nos últimos dias parecia pouco provável o que alguns milaneses nos diziam, que o Inter tem tantos adeptos quanto o Milan.

Hoje, no nosso passeio por Milão de bicicleta (meio de transporte por excelência para os italianos), constatámos que parece ser verdade. Muitos vêm de fora da cidade, mas outros são verdadeiros milaneses. Certo é que pelas 11h da manhã a praça central da cidade, Il Duomo, estava ocupada por centenas de adeptos do Inter, todos vestidos a rigor e em preparação para o grande jogo desta noite, que opõe o Inter ao Man. United. Não faltam ainda por toda a cidade vendedores ambulantes com bandeiras e cachecóis feitos propositadamente para “il grande gioco”, como dizem os italianos, ou “the epic clash [o embate épica]”, como dizem os ingleses que encontramos.

Confusão pode trazer violência
O grosso dos 6500 adeptos ingleses (apenas 4 mil têm bilhete para o jogo) esperados em Milão ainda não chegou. Stuart, nascido e criado em Manchester, disse-nos em plena praça Il Duomo que “a maior parte dos nossos 'holligans' só chega mais em cima do jogo”. É de esperar confrontos? “É bem possível, a euforia pode descambar, mas espero que não”, vaticinou.

Já Carlo, um jovem italiano que é taxista na cidade da moda, não tem dúvidas: “vamos ganhar 5-0, 5-0”, diz com sorriso brincalhão. Sobre José Mourinho “é um técnico ‘bravíssimo’, de que todos os adeptos do Inter gostam”, já relativamente a outro português do plantel, Luís Figo, “já está velho demais e não corre tanto como o Zanetti, que parece um jovem”. O tiffosi desde o berço do Inter tem ainda opinião sobre Quaresma: “Um falhanço! Como é possível ter feito todos os jogos em que participou tão miseráveis? O Mourinho fez bem em emprestá-lo”.

Se há característica comum nestes italianos tiffosi é que têm opinião sobre tudo. Basta dizer a palavra Calcio para ouvir as várias opiniões que têm sobre o futebol, particularmente o seu clube.

Ingleses em ebulição com "o grande embate"
Na cidade milanesa, a enorme falange de jornalistas ingleses entra em autêntica contagem decrescente para o jogo. A Sky News e a BBC não se cansam de falar no reencontro entre Mourinho e “Fergie” (Alex Ferguson), cuja história é claramente desfavorável para “Sir Alex”, considerando a eliminatória um “embate para recordar”. Outra referência pomposa foi a presença de David Beckham, que foi apoiar o seu antigo clube ao treino a San Siro, reencontrando-se com Ferguson e cumprimentando mesmo Cristiano Ronaldo.
Em breve partimos para San Siro.

Reportagem em Itália, outros textos:

Artigo 1 - Milão, entre a moda e o Calcio

Artigo 2 - Falámos com Mourinho, mas pouco

Entrevista a James Cooper, um dos repórteres mais famosos da cadeia inglesa Sky Sports, após a conferência de imprensa de José Mourinho

Entrevista exclusiva a Nani em Milão - 1 comentário

Crónica Inter-Manchester via Milão

conversa

Escrito a 25 de Fevereiro de 2009.


Conversa com Nani em Milão

João Tomé, em Milão

Em pleno San Siro, depois de um jogo intenso da Champions que terminou empatado a zero entre Inter e Manchester United, o Destak conseguiu ser o único meio de comunicação a falar com o português com Nani, na preenchida (de jornalistas ingleses, italianos, chineses, e até portugueses) zona mista do estádio milanês.

O extremo português do United não jogou no embate de terça-feira, mas não deixou de enfatizar que ficou espantado com «o ambiente infernal e incrível de San Siro», disse.

Ainda assim, acredita que poderá ajudar a equipa na segunda-mão, em Old Trafford, onde já só poderá haver um vencedor e «serão necessários mais para atacar ou contra-atacar».

Com 22 anos e muito vontade de mostrar o que tem para dar, Nani explicou-nos que tem «trabalhado para ser titular com maior regularidade», e que até está em boa forma. Sempre que tem sido chamado por Alex Ferguson, o jovem garante que tem «jogado bem» e que o treinador «sabe bem o meu valor.»

O internacional português falou ainda na Selecção: «Gostava de poder ajudar frente à Suécia. Vai ser um jogo difícil, o Ibrahimovic vai estar do outro lado e temos mesmo de vencer. Seria bom poder ser eu a dar uma vitória a Portugal, mas o importante é mesmo ganhar e ir ao Mundial.»

Com os jornalistas ingleses, da BBC, The Guardian, Daily Express, como meros espectadores, sem perceber as palavras do jogador em português, a conversa teve de terminar, por imposição da assessora do United.

apontamento de reportagem

Escrito em 25 de Fevereiro de 2009, com o objectivo mais no ambiente no que no jogo.

Emoções do Inter-Manchester via Milão
O Destak foi ver a «final antecipada» da Liga dos Campeões a Milão e relata-lhe aqui, in loco, o ambiente vivido no estádio.

João Tomé, em Milão

San Siro é como o antigo Estádio da Luz, só que maior e mais imponente. Os italianos chamam-lhe La Scala (mítica sala de ópera) do calcio, e com razão. Não faltam cânticos tão inspiradores como a ópera, a acústica é impressionante e ideal para um estádio lotado para uma grande festa do futebol.

Os saltos das claques fazem os vários anéis tremerem, proporcionando um "terramoto" de emoções. Palavras não chegam para descrever o coro épico e estrondoso de 80 mil gargantas que não param desde o início do hino da Champions até ao apito final. Nervosismo. Adrelina. Ritmo cardíaco elevado não faltam nas reacções explosivas dos tiffosi a cada jogada. O frio de um grau é esquecido e o corpo aquece com o calor humano.

No terreno de jogo, Mourinho colocou os dois centrais mais altos disponíveis (Chivu e Rivas), continuando no habitual 4x4x2. Ferguson mudou e também apresentou um 4x4x2. O United foi o grande protagonista da primeira parte - Ronaldo esteve perto de marcar. O Inter demorou a ganhar tranquilidade na defesa e respondeu com seis remates pouco perigosos. O primeiro tempo terminou com o estádio em exaltação completa, quando o árbitro deu amarelo ao suplente Toldo por protestos.

A segunda parte começou com uma correcção de Mourinho, ao substituir o trapalhão Rivas, pelo rápido e mais baixo Córdoba. E o Inter renasceu. Adriano esteve perto do golo por duas vezes e os nerazzurri reclamaram penálti. O perigo também rondou a baliza do Inter em jogadas de Ronaldo e Giggs. Impacientes com as demoras do United, os tiffosi milaneses foram para casa com a mesma esperança que os 4 mil ingleses, tal como Mourinho previu.

o pupilo de mourinho

Escrito a 12 de Novembro de 2009.


Villas Boas já terá acordo com Sporting mas falta 'sim' da Académica
José Eduardo Bettencourt e Ricardo Sá Pinto (nomeado hoje o novo director do futebol leonino, sem comando nas contratações) já terão chegado aacordo com André Villas Boas para técnico dos leões. Segundo o site do Público falta apenas o 'sim' da Académica. O Destak traça o perfil de Villas Boas com conhecimento de causa.

João Tomé

Aos 32 anos e com um percurso com algumas parecenças com o seu 'mestre', José Mourinho, André Villas Boas está prestes a ingressar num dos 'grandes' do futebol português, poucas semanas depois de se ter estreado como treinador principal.

De acordo com o Publico.pt, o treinador da Académica de Coimbra já chegou a acordo com José Eduardo Bettencourt e Ricardo Sá Pinto, faltando agora acabar as negociações com a direcção dos 'estudantes'.

O anúncio oficial estará, caso se confirme esta informação, por horas. Villas Boas, conhecido pelo seu talento na análise de equipas (foi sempre observador) e depois de vários anos na equipa técnica de José Mourinho (desde os tempos do FC Porto), assume protagonismo num dos 'grandes' antes de ter tomado o gosto à Académica.

Desde que tomou conta da equipa - última da Liga -, dias antes do embate com o FC Porto, que acabou por perder, Villas Boas conseguiu a primeira vitória da Académica frente ao V. Guimarães e um empate em Leiria.

Quando o Zé conheceu o miúdo André
De acordo com informações recolhidas pelo Destak junto de fonte próxima a José Mourinho, o técnico português do Inter de Milão conheceu André Villas Boas por intermédio de Bobby Robson.

Quando Mourinho era adjunto de Robson no FC Porto, em 1997, ambos conheceram no Clube Inglês, junto à Foz, no Porto, o jovem André, que adorava discutir táctica e posições de jogadores.

Robson achava-lhe 'piada', pelo conhecimento futebolístico e pela paixão pelo futebol. Mourinho e André Villas Boas só se voltaram a encontrar quando o Special One foi contratado pelo FC Porto, vindo da U. Leiria. Foi a partir daí que começaram uma colaboração de sete anos que só terminou no início desta época.

"Agora sou eu que construo o meu futuro", disse André à chegada à Briosa, depois de ter ouvido José Mourinho desejar-lhe toda a sorte na nova aventura a solo e elogiar-lhe as qualidades na análise do futebol.

Com Mourinho, Villas Boas passou pelo FC Porto campeão europeu, pelo Chelsea campeão de Inglaterra e pelo Inter campeão de Itália. Ainda assim, o seu trabalho era mais de gabinete sem presenças no relvado, já que preparava vídeos e observava as equipas adversárias - passava grande parte do tempo fora, a ver as equipas que passariam pela frente do FC Porto, Chelsea e Inter.

O André 'do' Clube Inglês deverá ter agora a sua grande oportunidade, poucas semanas depois de se ter estreado como treinador principal na Académica. Mourinho estreou-se como técnico principal no Benfica, mas poucas semanas depois estava no U. Leiria, para passar para o FC Porto alguns meses depois.

Tal como aconteceu com Paulo Bento, os leões apostam num jovem treinador com pouca experiência, mas agora com um perfil bem diferente. Com menos experiência dentro do relvado - Paulo Bento foi um jogador internacional de topo -, mas com mais conhecimentos técnicos e tácticos do jogo e com a experiência de sete anos ao lado do Special One, ou agora Il Speciale, José Mourinho.

Caso assuma o comando técnico do Sporting, André Villas Boas começará frente aos modestos Pescadores da Caparica para a Taça de Portugal, dia 22 de Novembro, e logo no fim-de-semana seguinte recebe o Benfica, em Alvalade, na jornada 11 da Liga.

Será André Villas Boas também Especial, neste caso para o Sporting? Só o tempo o dirá.

Crítica The Dark Knight


Escrito em Agosto de 2008 para o Destak.

Batman | O Cavaleiro das trevas
O caos de Joker
Heath Ledger abrilhanta com o seu Joker o novo filme de Batman, que poderá ser matéria de Óscares

João Tomé

O morcego humano Batman está de volta ao cinema, mas é uma outra personagem que enche por completo o grande ecrã e torna a sequela do filme de 2005, Batman – O Início, um dos melhores thrillers do ano. O malogrado Heath Ledger (que morreu de forma acidental em Janeiro) pode já não estar entre nós, mas conseguiu, com a mítica personagem Joker, uma saída “estrondosa” graças a uma interpretação perturbante e esplendorosa.

Os tiques, o riso, as mudanças de humor, os movimentos corporais. Todas estas características e o carisma de Ledger dão força e profundidade digna de Óscares a Joker e ao filme, confundindo tanto os pseudo-heróis da trama como o espectador.

Joker já tinha abrilhantado o Batman de Tim Burton (1989), cuja interpretação do inimitável Jack Nicholson deu que falar. Mas embora o filme de 1989 fosse mais negro na estética, este novo Batman consegue distanciar-se mais do facto de ser um blockbuster e incluir complexidade, enredo e força de desempenhos.

O realizador e argumentista Christopher Nolan superou-se para entregar um thriller explosivo, repleto de acção e de geringonças típicas de Batman, mas com muito mais para contar, sentir e experienciar. Tudo graças a uma personagem tão entusiasmante quanto perturbadora: Joker.

Ordem no meio do caos
A Gotham retratada em O Cavaleiro das Trevas é bem mais semelhante às típicas cidades norte-americanas (foi filmado em Chicago) e bem menos escura e negra do que vimos nos outros filmes da série.

Batman continua a sua luta contra o crime, mas nem tudo o que faz é bem visto pela população. Com a ajuda do tenente Jim Gordon (Gary Oldman) e do novo procurador distrital, Harvey Dent (o intenso Aaron Eckhart), Batman pretende destruir as restantes organizações criminosas que controlam as ruas da cidade, ignorando um pequeno pormenor.

A parceria parece revelar-se eficaz, até se encontrarem inseridos num reinado de terror, desencadeado por uma mente genial, mas psicopata, traiçoeira e criminosa, conhecido pelos assustados cidadãos de Gotham como Joker. Alguém que não é movido pelos desejos de riqueza, mas sim pelo de provocar caos e provar que todos os bons da fita também podem ser maus. Um dos filmes do ano.

O CAVALEIRO DAS TREVAS
De Christopher Nolan
Com Christian Bale, Heath Ledger, Aaron Eckhart, Michael Caine,
Maggie Gyllenhaal, Gary Oldman, Morgan Freeman, Eric Roberts
EUA, 2008; 150 min.

BATMAN/BRUCEWAYNE
Christian Bale
A vida nunca foi tão complicada para Bruce. Vive na cidade depois de a mansão ser destruída e ouve cada vez menos o sereno Alfred (Michael Cane). Não compreende Joker, que é o adversário de uma vida.

JOKER
Heath Ledger
Psicopata e genial. Imprevisível e estratego. Fã do caos e sem nada a perder. Assim
é este Joker negro e cativante como personagem que vira uma cidade do avesso.
O falecido Heath Ledger merece mesmo o Óscar.

RACHEL DAWES
Maggie Gyllenhaal
É a única personagem que mudou de intérprete (em 2005 era Katie Holmes). Uma mudança para melhor. Agora Rachel é a namorada do procurador Harvey Dent, mas continua a preocupar-se com Bruce Wayne.

HARVEY DENT
Aaron Eckhart
O procurador de Gotham junta-se ao tenente Gordon (Gary Oldman) e a Batman para “limpar”. Tem a fé de poucos e Batman vê neleum substituto seu sem a capa. Uma bela interpretação de Aaron Eckhart.

artigo e entrevista

Escrito para o jornal Destak em Novembro de 2008.


Estoril inundado de cinema de primeira

O Estoril Film Festival está aí e recomenda-se


Começa hoje, ali para os lados do Estoril (Casino, Centro de Congressos) e tem um leque de artistas e de filmes que merece uma visita prolongada.


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Um festival português estrelado
Os aliciantes mais vistosos da primeira edição do Estoril Film Festival, que começa hoje no Estoril, têm a forma de nomes, ou melhor, pessoas: os realizadores Stephen Frears, Agnès Varda e possivelmente Bernardo Bertolucci, os escritores Paul Auster, JM Coetzee (prémio Nobel da Literatura), os actores Michael Pitt, Catherine Deneuve, Louis Garrel, Mathieu Amalric (o vilão do novo 007) e Valeria Bruni-Tedeschi.
«É uma teia de conhecimentos que tenho de 30 anos de experiência e de admirações mútuas, que existe entre os artistas. Uns nomes chamam os outros e é isso que nos permite reunir um bom elenco», explicou ao Destak Paulo Branco, o director do Estoril Film Festival. Na véspera do evento que começa hoje, a azáfama era muita no Centro de Congressos do Estoril, «para que tudo corra como planeado e existam poucos improvisos». O mais maleável é a presença das estrelas. O francês Vincent Cassel cancelou a vinda «por imposição da sua distribuidora», mas «é possível que amanhã [hoje] o Bernardo [Bertolucci] apareça», revela Paulo Branco.
O experiente produtor espera ainda «poder mostrar artistas-surpresa durante o festival, como aconteceu o ano passado [com Lynch]». Para além dos encontros com o público, sessões de leitura, workshops com os protagonistas e exposições (este ano há as «fotos incríveis de Luis Buñuel e os retratos entusiasmantes de Marie-François Banier», diz o responsável do evento), há os filmes.
A homenagem a Bernardo Bertolucci abre o festival esta noite, devendo contar com a presença do próprio e do seu elenco mais famoso, Michael Pitt e Louis Garrel. Há depois as homenagens ao imaginativo Tim Burton (Branco não esclarece se irá aparecer) e ao falecido Paul Newman (na sua vertente como realizador).
Fora de competição serão exibidos em antestreia nacional os mais recentes filmes Woody Allen, Vicky Cristina Barcelona, Werner Schroeter, Nuit de Chien, David Mamet, Redbelt, Agnés Varda, Les Plages d’Agnés, entre outros.
O realizador francês Jean-François Richet, irá estrear mundialmente o segundo episódio da saga Mesrine,este sábado às 22h. Há depois em competição 14 filmes, onde se destaca o único português, 4 Copas, de Manuel Mozos. Não irá faltar a magia da luz do projector na tela branca nem um convívio único com mestres do cinema mundial e das artes.


FICHA
Estoril Film Festival
Onde Centro de Congressos; Casino Estoril; Teatro Mirita Casimiro
Quando Entre esta sexta-feira e 22 de Novembro
O quê Filmes europeus (em competição), de todo o mundo, fora de competição; workshops; encontros com actores; exposições.
Programa www.estorilfilmfestival08.com

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Entrevista a Paulo Branco



O stress aumenta muito na véspera do filmes?
Não é bem stress, é mais preocupação para que tudo corra como planeado, que exista o mínimo possível de improviso, que acaba por existir sempre quando se organiza um festival destes com os meios pequenos. Dependemos imenso da boa vontade de muitas pessoas, por isso é coordenar tudo. Há pessoas que deixam de poder vir e outras que finalmente se disponibilizaram. Saber se os filmes que cá estavam estão correctos, se não há enganos. A parte burocrática, das acreditações, venda de bilhetes. Receber os convidados para que se sintam confortáveis, que não lhes falta nada. É nestes dias mesmo antes do festival que nós nos preparamos para as eventualidades que possam existir. É evidente que há sempre o imponderável e as complicações.

O ano passado foi o ano zero?
Este para nós é que é a primeira edição, porque já tivemos mais tempo, o outro foi preparado num espaço de tempo muito curto. É um programa muito mais ambicioso e que reflecte muito mais aquilo que pretendemos que este festival seja. Temos grandes nomes da cultura e do cinema, períodos de reflexão e grandes filmes.
Uma das coisas que estou mais orgulhoso é a exposição que temos este ano, que tem uma dimensão considerável, com as fotografias de Marie-François Banier e as fotografias inéditas do Luis Buñuel. Temos um júri que me orgulho de cá estarem todos e temos filmes em competição que não sendo conhecidos, são surpreendentes e acredito que vai agradar ao público.

Foi difícil de reunir este elenco de júri e de estrelas?
É difícil no sentido que têm de estar disponíveis. São pessoas que têm compromissos que os impedem de dispor assim de 10 dias. Por exemplo o arquitecto Miguel Barceló esteve cá o ano passado e para a semana vai inaugurar a célebre cúpula da ONU em Genebra e quando cá passou ia num instante a Genebra dar uns retoques.

Como surge o tipo de convites, como por exemplo ao prémio Nobel da literatura e, 2003 JM Coetzee?
O Coetzee não o conhecia, como acontece com outros. Enviei um convite através do agente e ele respondeu logo muito amavelmente, porque tinha ouvido falar do festival através do autor seu amigo Don DeLill e depois é uma espécie de cumplicidade já que falam uns com os outros. Depois quando lhe disse que se poderia encontrar com a Catherine Deneuve ficou muito contente. O Paul Auster também o aconselhou a vir. Uns nomes chamam os outros e é isso que nos permite reunir um bom elenco. É uma teia de conhecimentos e admirações mútuas, que existe entre eles. Há sempre surpresas, porque há última da hora muitos podem não conseguir vir mas outros ainda é incerto. O Bertolucci é muito possível que venha para se juntar ao Michael Pitt e ao Louis Garrell. A Eva Green [outro elemento do filme Sonhadores] está neste momento no Japão, por razões profissionais. O Gerard Depardieu também era para vir mas devido ao grande drama que lhe aconteceu [morte do filho] foi descansar para a Austrália.

Acha que pode haver surpresas durante o festival?
Eu espero que sim, o ano passado houve uma grande surpresa guardada para o final, nos descontos do jogo [Lynch], e este ano também é possível. Custa-me avançar nomes porque depois podem não vir. Foi o que aconteceu ao Vincent Cassell, que tinha tudo marcado para vir mas a distribuidora do novo filme dele em França não o deixou à última da hora por compromissos contratuais. Com imensa pena dele, que gosta imenso de Portugal. São coisas de acontecem.
Mas ter cá o Stephen Frears, o Coetzee, o Bernardo [Bertolucci], Agnés Varda, Valeria Bruni-Tedeschi, este júri, Michael Pitt, Mathieu Amalric – que é uma personagem muito peculiar como realizador e actor, que começou como estagiário do João César Monteiro em França (risos) –, é de satisfação.

Em Portugal não é normal um festival ter tantas estrelas juntas… normalmente há no máximo uma estrela estrangeira…
E conseguem uma estrela com cachets que aqui não acontecem. Se pagássemos grandes cachets tornava o festival impossível. As pessoas têm que vir porque lhes apetece vir e se sentem bem. Penso que o ano passado foi possível a essa cumplicidade e confiança que se estabeleceram nestes 30 anos de trabalho e de cinema. Estou ainda há espera que o John [Malkovich] venha numa próxima oportunidade porque tem uma peça a estrear no final do mês no México, calhou mesmo mal.
O Stephen Frears o ano passado não podia, este ano vem. Se o festival tiver continuidade pouco a pouco consolidamos o projecto. Que seja um encontro em que o público disfrute com estas pessoas que são grandes artistas mas ao mesmo tempo pessoas muito simples e iguais a todos nós. É isso que é interessante.

Fala-se que este é uma espécie de Cannes português, pela visibilidade que começa a ter…
Eu não queria categorizá-lo. Cannes demorou 30 anos a afirmar-se como grande festival mundial, a seguir há três ou quatro grandes festivais onde os filmes importantes querem estar presentes. Como Veneza, Berlim e San Sebastian também tem crescido bastante. Toronto é mais um mercado, onde é mais um festival industrial. Depois há imensos pequenos festivais, há 600 ou 1000… Tentamos encontrar o nosso espaço particular. Não queremos ser o Estoril e que o Estoril seja um nome que ao longo dos anos vá construindo uma reputação para quem quer ver bom cinema e reflectir onde se encontra o cinema, problemas e o seu fascínio… é isso que queremos acompanhar. É isso que eu gostaria que o Estoril fosse. A minha concepção de um festival é que tenha uma categoria própria.

A nível de programação, quais os critérios?
Por um lado queremos mostrar o que de melhor há na produção europeia, com os filmes que o comité vê durante o ano. Alguns filmes já passaram noutros festivais mas não em competição. Não queremos repetir na nossa competição filmes que tenham estado em grandes festivais para dar uma chance a outros filmes que são igualmente bons ou melhores. E passar fora de competição o que de melhor se produziu no mundo. E aí é possível ver em antestreia grandes filmes. Temos a sorte uma antestreia mundial, que é o segundo capítulo de Mesrine: L’enemie public nº 1, de Jean-François Richet. Uma das maiores produções europeias e é um realizador extremamente curioso que já trabalhou nos Estados Unidos e tem uma visão muito particular.

O próximo ano já está garantido?
Para já vamos garantir este ano. E vamos ver se conseguimos estar cá para o ano, isso também depende da confiança do Dr. António Capucho e da Câmara de Cascais e será ele que pode tirar as ilações e ver se a aposta é para solidificar.




Crítica Gran Torino

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Eastwood, o veterano durão

Duro. Implacável. Bruto. Desagradável. Velho. De voz áspera. Adverso a novos amigos. Desta forma pouco agradável se pode descrever a complexa e incrivelmente cativante personagem Walt Kowalski, interpretada em Gran Torino de forma ímpar por Clint Eastwood.

A lenda viva do cinema volta a realizar e a protagonizar, com resultados espantosos, graças a uma história difícil e actual e a uma personagem feita de propósito para ele.
A trama começa logo após a morte da mulher de Walt.

Este veterano polaco marcado pela guerra na Coreia é rude com os filhos, que já pouco se importam com o pai e com o próprio padre, um «virgem de 27 anos, excessivamente letrado que pensa que sabe o que é a vida e a morte pelo que leu nos livros».

Sozinho na casa e no bairro de sempre, Walt vai cuidando de si e do seu Gran Torino de 1972, um Ford clássico, à medida que também olha com desconfiança e a habitual dureza para os novos vizinhos Hmongs, imigrantes do sudeste asiático.

O bairro mudou de feições, predominando cada vez mais imigrantes e gangues. A sua relação com os vizinhos asiáticos começa a mudar quando este velhote assustadoramente sério impede que o vizinho adolescente, Thao, lhe roube o seu Gran Torino, obrigado pelo gangue do seu primo.

A partir daí a família de Thao impõe ao adolescente que ajude o velho rezingão e pronto para a luta, e cria-se uma amizade improvável, que vai ser gravemente perturbada pela retaliação do gangue do primo de Thao.

Um filme cheio de força humana, dura, crua e emocional, que cativa .




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"Aos 78 anos já não quero ser 'Dirty Harry'"
in Ipsilon



"Yeah, I liked the dilemmas he had to go through. I liked the message of antique America that is maybe obsolete. Walt may be obsolete." He laughs gently. "But he does learn new things. And that's what makes it interesting. You take a guy who's way out opinionated, insulting to equal opportunity" - this sounds like a phrase he's had to adjust to - "an insulter, and you put him with people where he's antagonistic as hell. And then all of a sudden he looks in the mirror and says, 'I have more in common with these people than my own spoilt, rotten family.' He's realising these folks like having him around, even though he's not particularly on the surface likable."
in Guardian

Crítica The Life Aquatic with Steve Zissou



Vida aquática deliciosa
Uma aventura extraordinariamente diferente, que nos leva a um mundo aquático repleto de comédia inteligente, com drama, ironia e boa música

João Tomé - in Destak

> Uma história simples mas muito bem contada por Wes Anderson, com um surrealismo brilhante num mundo tão estranho quanto apaixonante. No seu último filme The Royal Tenenbaums, Anderson e o co-argumentista Owen Wilson (também actor neste filme), oferecem-nos um universo paralelo em Manhattan com personagens igualmente estranhas, curiosas e inteligentes.
Em The Life Aquatic with Steve Zissou (título em inglês) o realizador vai ainda mais longe num mundo imaginário repleto de equipamentos engenhosos e de espécies marinhas estranhas (criadas por computador), desde cavalos-marinhos coloridos a cardumes cor-de-rosa. Esta é a história de um famoso oceanógrafo, Steve Zissou, personagem baseada na comédia de Bill Murray e na vida de Jacques Costeau, e da sua equipa disfuncional e excêntrica.
A bordo de um barco velho mas aconchegado, chamado Belafonte, a equipa Zissou dedica-se a documentários e a expedições subaquáticas. Mas os problemas financeiros e a morte de um parceiro na sua última aventura, comido por um tubarão jaguar extremamente raro, fazem o comandante Steve Zissou iniciar uma expedição amalucada, pelas profundezas marítimas, de forma a vingar o amigo e matar o tubarão.
Com um elenco fantástico, encabeçado por Bill Murray – a personagem de Zissou foi criada a pensar nele – participam nesta aventura surreal Owen Wilson como piloto e admirador, que pode, ou não, ser filho do oceanógrafo; Cate Blanchett, a repórter responsável pela cobertura da expedição; Angelica Houston como a mulher misteriosa de Zissou; Willem Dafoe como irmão ciumento e engenheiro da embarcação e Jeff Goldblum, o arqui-inimigo e o recém-chegado.
O brasileiro Seu Jorge tem aparições muito divertidas ao cantar em português músicas de David Bowie. São personagens diversificadas num mundo que tem parecenças com o filme Yellow Submarine e com a comédia dos Monty Python. A marca de Bill Murray, e o seu humor calmo, junta-se ao humor inteligente de Wes Anderson para nos dar um filme muito agradável.

De: Wes Anderson
Com: Bill Murray, Owen Wilson, Cate Blanchett, Anjelica Huston, Willem Dafoe, Jeff Goldblum
Origem: EUA, 2004
118 minutos
http://lifeaquatic.movies.go.com


1

Peça sobre Bedtime Stories

http://www.latimes.com/media/photo/2008-12/44228262.jpg


Deixo de seguida uma amostra das entrevistas/conferência de imprensa que fiz para o Destak.


Sandler vira-se para a Disney
Estive em Londres a entrevistar o elenco e realizador de Histórias para Adormecer, comédia da Disney que estreou quinta-feira em Portugal.



Adam Sandler faz comédias como protagonista há 14 anos mas, neste período e após muitos filmes, esteve sempre afastado da Disney e da comédia lá feita. Os filmes que protagonizou e escreveu até agora têm tendência para serem provocadores e arriscados, o oposto do que a Disney faz. Tudo isso mudou este ano com a estreia de Histórias para Adormecer, a comédia cheia de sonhos e esperança que Sandler fez «a pensar no meu miúdo e nos filmes que ele poderia ver».

O actor e argumentista, sinónimo de recordes de bilheteiras nos Estados Unidos, é tudo aquilo que se pensa à partida dele. Alguém sem vedetismo, com roupas simples, botas de campo, aspecto descontraído, um riso estranho e sempre pronto para a galhofa. Foi isso que vimos e ouvimos em Londres, numa conversa com os jornalistas repleta de bons momentos e pouca conversa séria, afinal o filme era para animar e não deprimir. «Vamos parar com estas perguntas e vamos olhar nos olhos uns dos outros e conhecermo-nos todos», foi a forma de Sandler “quebrar o gelo”.

O filme conta a história de um empregado de hotel cuja vida muda quando inventa histórias de adormecer com os sobrinhos e elas começam a acontecer na vida real. Quando tenta aproveitar-se do fenómeno, as contribuições dos sobrinhos complicam-lhe os planos.

Adam Sandler, que adorava as histórias de Willy Wonka quando era miúdo, explicou que improvisa histórias à sua filha de 2 anos, que está agora obcecada por comida e foi a grande razão para ele fazer este filme da Disney. «Ela obriga-me a inventar histórias sobre comida. Desde rios de geleia a lutas entre waffles e panquecas, à montanha de manteiga», disse. Sobre a rodagem foi em família: «Levávamos todos as nossas crianças para a rodagem e por isso viveu-se um ambiente muito familiar.»

Sandler: «Já fui a Portugal»
O actor juntou um elenco de amigos e pessoas que admira, incluindo o comediante britânico Russell Brandt, e o argumentista de sempre, Tim Herlihy. «Ter uma versão adulta de um filme da Disney era capaz de ser chato… mas é uma ideia», disse o energético comediante Russell Brandt (cada vez mais presente em comédias americanas), que mais parece um recordista em dizer piadas por minuto.

Rob Schneider, actor presente na maioria dos filmes de Sandler e que também esteve neste Histórias para Adormecer, fez recentemente uma campanha sobre as rolhas de cortiça em Portugal, chamada Save Miguel, para promover o seu uso na Austrália.

O Destak perguntou a Adam Sandler, quando é era a vez dele vir a Portugal? «Já estive em Portugal, adorei lá estar e espero levar o Schneider. Ele passou lá uma boa temporada e da próxima vai-me ensinar algumas coisas.»

Brandt num drama?
Já ao comediante Russell Brandt fizemos a seguinte provocação: Quando é que faz um drama nos Estados Unidos? «Provavelmente na próxima vez que fizer um telefonema por lá», explicou sem evitar rir-se. A resposta está relacionada com uma polémica recente que colocou Brandt nas manchetes dos ingleses.

O comediante aproveitou o seu programa de rádio mais arrojado e fez em directo uma chamada para o atendedor automático de uma personalidade inglesa, iniciando depois comentários jocosos sobre a neta do mesmo. Brandt arrependeu-se e pediu desculpa pouco tempo depois. Mas nem isso o salvou de muitas críticas e do fim do programa de rádio da BBC.

Brandt continuou a resposta: «Estou a fazer agora o filme Tempist, que é inspirado numa peça do Shakespeare… o que é vocês querem de mim em Portugal? Não consigo fazer as fitas do Cristiano Ronaldo, vocês chamam a isso uma comédia, não? (risos) Estou a brincar. Assim que alguém me der oportunidade posso tentar drama… eu faria um drama, sem dúvida».



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Adam Shankman
O realizador de Hairspray, que vem do mundo da coreografia e tem-se especializado em comédias, explicou que as únicas limitações pelo filme ser da Disney eram «não bater em ninguém nem ter asneiras». «E isso foi muito fácil para os actores, porque criaram-se novas oportunidades... e ainda assim continua a ser um filme de Adam Sandler», explicou.

Já o Russell Brandt foi uma grande aquisição, porque ele «é incrivelmente divertido e simpático». «Como andavam sempre na rodagem os miúdos da Keri e do Adam, não havia asneiras», disse, revelando que sente sempre pressão e receio quando está a rodar um filme, porque sente «uma responsabilidade grande quando [lhe] confiam um grande orçamento.» «Tenho tido tanto sucesso que sinto que agora elevam-me sempre a barreira. Filmes como este são feitos de forma comercial para tentarem abranger o máximo de público possível. As reacções que tenho tido é que os miúdos estão a adorar e os adultos estão a rir-se muito no filme. E era só isso que eu queria.»



Keri Russell
A actriz que faz de alvo amoroso inicialmente improvável de Sandler no filme, contou-nos que foi a série Felicity (que chegou a passar na RTP1) que lhe permitiu chegar ao cinema e dar um salto na sua carreira. Depois de ter feito uma série de filmes onde se inclui Missão Impossível III, a actriz parou para ser mãe pela primeira vez.

Foi um telefonema de Sandler que a voltou a colocar no activo antes do previsto. «O Adam ligou-me quando estava muito grávida, não o conhecia, e ele disse “tenho um miúdo agora e ouvi dizer que vais ter um miúdo. Quero fazer um filme que o meu miúdo possa ver e quero que o faças comigo”». Foi desta forma simples e directa que Keri foi integrado no projecto de História de Adormecer da Disney. «Foi divertido e diferente trabalhar com o Adam, porque ele reescreve tudo o que faz e improvisa muito, por isso tive de me deixar ir e segui-lo».

Crítica There Will Be Blood


Haverá Sangue


Coração Rude e de Ouro Negro

Ao ver Haverá Sangue (nomeado para oito Óscares), cedo se percebe que George Clooney tinha razão: haverá sangue por Hollywood se o britânico Daniel Day-Lewis (já oscarizado em 1989) não conquistar a 24 de Fevereiro o Óscar de Melhor Actor. Quando é um papel e um desempenho que dá alento e força ao filme, estamos na presença de matéria de Óscar.

O criativo Paul Thomas Anderson (autor de Magnólia e Punch Drunk Love) acertou quando escolheu Day-Lewis como mineiro duro e ambicioso, Daniel Plainview.Anderson, que escreve, produz e dirige o drama baseado no livro de 1927, Oil!, sai do estilo habitual para fazer um drama "áspero" sobre a fundação da América contemporânea. Plainview é um mineiro pelo Novo México, em busca de prata e que descobre petróleo depois de sofrer um acidente.

Já abastado, parte em 1911 para uma propriedade na Califórnia, onde um jovem diz que o "ouro negro" transborda da terra. Com o seu filho H.W. e munido de uma determinação implacável monta na cidade miserável a prospecção. Por lá terá de lidar com o jovem fervoroso pregador Eli Sunday (Paul Dano) e com os barões do petróleo que o tentam comprar.

Esta personagem maior que a vida com sentido de família e com vontade de sujar as mãos lida com corrupção e decepção da mesma forma: com brutalidade e sangue. Um filme duro mas intensamente bom.


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De: Paul Thomas Anderson
Com: Daniel Day-Lewis, Martin Stringer, Matthew Braden Stringer
Drama; Thriller
EUA, 2007

emot no tvt :: monster trucks



Peça Monster Trucks para o TV Turbo, em Guimarães, 20 Dezembro.
Emitida pela primeira vez na SIC Notícias dia 26 de Dezembro.
Repórter de Imagem: Marco Fernandes
Editor: Tito
Jornalista: João Tomé
(nos Vídeos Sapo)

antevisão

Escrito a 10 de Março de 2009.



Pirata Mourinho vs. Veterano Ferguson
Na véspera da segunda-mão uma das eliminatórias mais aguardadas dos últimos tempos, entre Inter de Milão e Manchester United, o Destak traça um cenário naval para o embate entre José Mourinho e Alex Ferguson, capitão pirata e capitão veterano.

João Tomé

O ambiente em torno de uma eliminatória como a que opõe os italianos do Inter de Milão aos ingleses do Manchester United é simplesmente contagiante e inspirador, como poucas coisas o são na sociedade actual. Na história da vida humana vários foram os momentos inspiradores para nações, povos, ou meros grupos de homens que ficaram na memória das massas, ou por serem histórias tocantes, batalhas magnânimes, ou acordos históricos.

Hoje em dia é comum falar-se numa realidade com menos motivos de verdadeira inspiração, em que os cidadãos estão mais alheados do seu papel enquanto tal. É nesse contexto que existe e continua a crescer o desporto-rei, o futebol. Um simples jogo de entretenimento mas que aglomera todas essas paixões e inspirações que já não são tão manifestadas na política ou nas batalhas de outrora.

Português vs. escocês
Não é de estranhar, assim, que uma partida de futebol no Velho Continente, na chamada Liga dos Campeões tenha tantos motivos de interesse e de exaltação como aqueles que verificámos em Milão, há duas semanas atrás, e que tem a sua batalha (etapa) final agendada para amanhã à noite, em Manchester.

No topo deste confronto, cuja paixão vai bem para além de Itália e Inglaterra, estão dois líderes natos, o escocês Alex Ferguson e o português José Mourinho. Tal como nos momentos inspiradores da história humana (sejam eles sanguinários ou não) têm sempre de existir heróis e, no fim, só poderá haver um vencedor.

Só amanhã se saberá quem se conseguiu manter à tona da água e quem naufragou. Certo é que o veterano escocês e o ambicioso português são capitães de dois navios com estilos diferentes, mas repletos de artilharia pesada que estará pronta para disparar no encontro decisivo, depois do empate sem “mossas” (golos) da primeira parte da batalha.

O português é o capitão pirata, ambicioso e sedento de ouro (títulos), jovem e rebelde. O escocês é o capitão da experiência, que procura impor os seus pergaminhos depois de ter sido surpreendido há cinco anos atrás, neste mesmo lugar, Old Trafford, e nesta mesma prova pelo jovem pirata.

Na altura o jovem capitão tinha um navio (FC Porto) com menos artilharia, mas mais organização mecânica. A vitória foi saboreada nos últimos instantes da batalha, num golpe fatal de um dos bucaneiros menos prováveis, chamado Costinha.

Os bucaneiros Ibra e Cris
Zlatan Ibrahimovic e Cristiano Ronaldo são os nomes dos homens de quem mais se espera resultados no Teatro dos Sonhos de Old Trafford. Como talentosos, ambiciosos e determinados bucaneiros que são, é no sueco e no português que estarão todos os olhos no início da partida que estará dependente de detalhes ou até de heróis improváveis, e pode durar mais do que 120 minutos.

A “embarcação” United já poderá contar com o imponente defensor sérvio Vidic, que estará ao lado do destemido inglês Rio Ferdinand – ambos bucaneiros bem altos e importantes nos arremessos de longo alcance (lances de bola parada).

Do lado da “embarcação” Inter, de Milão, existem problemas com lesões nos flancos defensivos. O capitão Mourinho deve apostar no argentino recuperado à última da hora, Samuel, e no colombiano de baixa estatura Ivan Córdoba.

Garrafa de vinho sela a batalha
Será uma batalha de titãs, entre capitães que se conhecem muito bem. Apesar do capitão pirata José Mourinho ter um historial francamente positivo nos confrontos directos (nos tempos que comandava os portuenses do FC Porto e os ingleses do Chelsea) frente ao escocês Ferguson, tudo pode acontecer num jogo em que «quem gerir melhor a pressão, ganha», segundo vaticinou hoje o capitão pirata.

A culminar um saboroso embate europeu, estará uma garrafa de vinho que o capitão português e o capitão escocês irão partilhar no final da batalha.


Artigos da reportagem por Milão para o Inter-Manchester United:

Artigo 1: Milão, entre a moda e o Calcio

Artigo 2: Falámos com Mourinho... mas pouco

Artigo 3: 'Milano' invadida por tiffosi para o grande embate

Artigo 4: Entrevista na zona mista a Nani

Artigo 5: Mourinho é sempre o último a fechar a porta

Crónica ao ambiente do jogo Inter-Man. United

Entrevista a James Cooper, jornalista da Sky Sports

Entrevista Joaquim de Almeida



(Entrevista realizada em Lisboa, Av. 5 de Outubro, em Setembro)

«Na cena mais intensa às tantas estávamos os três a chorar»
Entrevista a Joaquim de Almeida
Aos 52 anos o actor português mais internacional de todos os tempos continua a fazer o que mais gosta «fazer filmes que me cativem». Falámos com o homem que «detesta ter pouco para fazer» e que diz que «tu és tão bom quanto a última coisa que fizeste» a propósito de Longe da Terra Queimada, onde é amante de Kim Basinger.

Como integrou na sua agenda esta sessão para promover este filme?
Tinham-me dito em Cannes que o filme iria sair mais tarde, temos estado em contacto. Eu acabei o filme Chistopher Roth na Roménia no domingo, por isso disse que poderia estar cá para a semana de estreia do filme. Aliás, uma pessoa diz que pode estar esta semana, mas depois há outras pessoas que querem outras coisas. Estou envolvido nisto de Portimão, acabo por ir ao Algarve, por isso acaba por ser uma semana completa. Depois tenho os meus filhos.
Eu também sou uma pessoa bastante activa e que se chateia é de não fazer nada, para mim, o estar ocupado dá-me sempre prazer. Ainda por cima acabei de fazer um filme em que estávamos a trabalhar 12 horas por dia. Mais hora e meia para cada lado, deram 15 horas. Isto ajuda-me a não quebrar o ritmo, porque nós geralmente quando fazemos ao fim de muito tempo sempre muitas pessoas a trabalhar, a trabalhar, de repente sentimos um vácuo. E assim ajuda a mantermos o ritmo continuarmos ocupados a seguir.

Como surgiu o convite do Guillermo Arriaga para fazer este filme?
Disseram-me que o Guillerme gostava de falar comigo para um filme. Eu disse que sim, mas tinha de ser no dia seguinte porque ia para a Europa logo a seguir. Quando me encontrei com ele no Novo México, tinha chegado de Los Angeles, e ele disse-me que tinha andado a falar de mim há não sei quanto tempo. Primeiro disseram-me que estavas a filmar e não te encontrava. Segundo ele explica não conseguia encontrar ninguém como eu. Porque dentro do filme ele fala dos elementos, da Terra, do Fogo, do Ar… e ele queria um homem Terra, e para ele Joaquim de Almeida era um homem Terra. E finalmente ele tentou novamente ver se eu não estaria livre. E por acaso coincidiu que havia uma semana que faltava para a Kim Basinger acabar o trabalho, em que eu poderia fazer porque acabava mesmo antes de filmar La conjura de El Escorial.
E fui-me embora numa sexta-feira, apareci lá sábado. Domingo à noite encontrei-me com a Kim [Basinger] à noite. Ela disse-me “não vamos falar nisto, tu és profissional, fizeste muitos filmes, eu fiz muitos filmes… segunda-feira fazemos aquilo que temos que fazer”. E assim foi.
Tinha falado muito com o Guillermo sobre a personagem e demo-nos muito bem na rodagem. O convite foi para mim uma alegria porque finalmente alguém nos Estados Unidos pede para fazer um filme em que não sou o mau da fita, se bem que não foi um norte-americano, foi um mexicano. Mas estamos a falar de um filme norte-americano, que dá-me oportunidade que as pessoas me vejam agora para outros papéis. Aliás, tenho feito agora ultimamente sem ser maus da fita.
Isto surgiu assim. Encontramo-nos, fomos almoçar. Ele disse-me que o filme era meu. E eu pensei “espera aí, os produtores ainda precisam de aprovar, é melhor não ficar demasiado contente”. Ele ainda ia para o México nesse dia e eu para Los Angeles. Ainda nos metemos no cinema e fomos ver um filme dos Beatles, que ele já tinha visto. Assim foi. Fomos para o aeroporto, bebi uma cerveja ele uma Pepsi Cola, porque ele é viciado nisso, ele foi para um lado e eu fui para o outro.

Rodagem curta para entrar dentro do tempo disponível?
Eu só tenho cenas com a Kim Basinger. Ele [Arriaga] depois disse-me que foi melhor assim porque acabou por filmar as minhas cenas todas numa semana com ela e filmámos cronologicamente em relação ao próprio affair. Portanto isso facilitou porque fomos progredindo como se fosse na vida real.

É a primeira longa-metragem de Arriaga. Sentiu carinho especial por ser a estreia dele?
Senti um carinho especial, primeiro por adorar o guião, segundo por ele me querer. Mas sobretudo o bom foi que…
O Guillermo acabou por fazer o filme com dois directores de fotografia. Um, Robert, fez a parte do Novo México e o outro fez a parte do Oregon. Não foi voluntário. Foi pelas circunstâncias do filme. Ambos se enquadraram bem com o filme. Mas o que eu gostei foi, tendo ele dois directores de fotografia com tanta experiência. Deixou liberdade ao Guillermo de se ocupar com os actores. Que é o que ele gosta. Sobretudo na história que se passa comigo e com a Kim, é transportada da vida real dele e pô-la no filme.
Eu lembro-me de estar a fazer a cena do seio, com a Kim. E às tantas estávamos os três a chorar. Eu olho para o lado e pergunto-lhe “então, estás a chorar?”. E ele responde “Cabron, então e tu?” [risos] E foi comovente porque às tantas estávamos a chorar compulsivamente. É uma história que não é fácil. É uma história sobre a dor, sobre o esquecer, amores proibidos. Sobretudo sobre a rejeição também. As histórias do Guillermo nunca são fáceis. Agora é uma história que eu adorei porque senti a ler aquilo que depois vi no filme. Aquilo obriga a ter atenção ao filme para percebê-lo. Se nos deixamos adormecer 10 minutos talvez não percebamos o que se trata. As histórias são paralelas e para mim houve uma certa alegria quando vi com amigos meus o filme e eles percebem o que se estava a passar – eu já sabia o guião, portanto ia em vantagem.
O filme tem tido reacções totalmente diferentes. Inclusive agora nos Estados Unidos, o LA Times adorou o NY Times detestou, em Itália, França, Espanha, sempre da mesma maneira. Um jornal adora, outro detesta. E dentro do mesmo jornal, um adora outro detesta. Acho que em Portugal vai ser da mesma maneira. Mas pronto, a vida é assim. Mas é um filme que não passa indiferente.

A cena do seio é muito intensa emocionalmente. Houve preparação para uma cena daquelas?
É engraçado, porque para quebrar a tensão, devido às cenas serem tão pesadas, quando se mudava de posição de câmara o Guillermo contava anedotas e ajudava-me muito. A Kim pediu que essa cena fosse feita pela manhã, porque para ela era a mais difícil do filme. Estava muito nervosa, porque sabendo que era biográfica para o Guillermo ela tinha medo de não estar à altura. E só me lembro do Guillermo dizer “ela está a tremer, vamos usar isto, eu preciso disto, não quero que ela relaxe”. E então filmámos com grande rapidez e depois foi engraçado quando acabámos de filmar a cena ela olhou para nós, fez um grande sorriso e disse: “quero contar-vos uma anedota”. E contou uma muito infantil, porque ela tem uma filha de sete anos e é assim que ela é. Ela é uma pessoa muito divertida e de uma fragilidade enorme. Não tem nada a ver com a Charlize Theron, que é toda Maria Rapaz. Ela é muito frágil, até o sol faz-lhe mal. Demo-nos muito bem e acho que ela está muito bem no filme, tem uma performance extraordinária. Quiseram-lhe dar o prémio em Veneza mas não lhe deram porque ela disse que não vinha. Ela não vai a festivais, nem sequer foi à estreia do filme nos Estados Unidos, ela detesta multidões.

Uma semana para gravar tantas cenas é obra…
Foi e é assim. Temos mais de 50 anos, somos actores experientes. Ela própria diz, já fizemos muitos filmes, muitas cenas de câmara e assim foi.

Caminha para a marca dos 100 filmes. O cinema norte-americano é o de eleição, ou diversificar continua a ser palavra de ordem?
Já fiz setenta e tal filmes. Gosto de diversificar, dos EUA à Europa. Gosto de fazer filmes diferentes. Mas o importante é o guião e quando um guião é bom vale a pena. Nós que andamos há muito tempo nisto conhecemos bem os realizadores, fiz mais do que um filme com o mesmo realizador e é sempre para mim um prazer trabalhar com alguém que conheço. Também passamos por épocas em que trabalhamos menos e mais e ajudamo-nos uns aos outros. Não acho o cinema americano o melhor hoje em dia. O cinema independente americano talvez seja dos melhores cinemas. Há realizadores como o Clint Eastwood, que é um cinema com dinheiro mas com um feeling independente. O cinema americano está muito ligado ao cinema de Verão, aos blockbusters. Não me cativam particularmente, a não ser por estrearem no mundo inteiro e darem muito dinheiro. Temos todos de sobreviver e ganhar dinheiro. Mas adoro fazer cinema por fazer cinema. Com um bom guião, um bom realizador e uma boa audiência. É difícil conseguir estas três. Nem sempre um bom guião corresponde a um bom realizador e vice versa. Ce la vie. Nem sempre se vai a um restaurante e como aquilo que se pensava que se ia comer, pronto.
Costuma fazer retrospectiva da sua carreira e pensar nos trabalhos que mais gozo fazer?
Não, não faço, nem penso no passado. Há uma coisa que se diz no cinema, “Tu és tão bom quanto a última coisa que fizeste”. Eu penso naquilo que acabei de fazer, tento sentir-me contente com o que acabei de fazer. Aliás não vi os filmes todos que fiz. Tenho lá vários em casa que continuam selados e alguns vão sendo abertos pelo meu filho. Não vejo as coisas que faço. Tenho prazer em fazê-las. Alguns vejo outros não. Há muitos que até tiveram muito sucesso e não os vi. Ou porque passou o tempo de ir à estreia… e as mini-séries de quatro ou cinco horas não tenho paciência para as ver, ainda por cima apareço muitos anos mais novo.

Ainda há realizadores com quem desejaria trabalhar?
Há tantos. Hoje em dia há tantos realizadores de cinema. Eu adoro realizar com realizadores novos do que com realizadores já famosos. Acho que quando trabalhamos com realizadores novos há… eu quando fiz o filme Desperado, o Robert Rodriguez era uma realizador novo, hoje é um consagrado. Fiz o Che, tive pena de fazer uma parte pequena, num filme onde todos éramos pequenos menos a parte do Che, com o Soderbergh. Adoraria de filmar outra vez com o Soderbergh, gostei dele pessoalmente, da maneira dele trabalhar. Sei lá, há muitos. Eu acho que mais do que tudo, mais do que o realizador interessa o guião, e quando o guião é interessante, é-me indiferente se conheço o realizador ou não. É evidente se é um realizador consagrado melhor, porque já sabemos o que esperar dele. Mas às vezes… o Soderbergh quando fez Sex, Lies and Videotape, foi o primeiro filme dele e ganhou Cannes e seguramente nenhum dos actores estava à espera que o sucesso fosse dessa maneira. O futuro ninguém o pode prever. Ainda agora vi o último filme do Tarantino e vi um amigo meu, Christopher Waltz, que eu não via há anos… a última vez que tinha visto foi quando deixou a minha casa, porque esteve a viver comigo durante um ano, porque tinhamos estudado juntos. E agora vejo num filme de Tarantino e ganhou o Melhor Actor de Cannes e agora já tem outros filmes para fazer. Desde que o deixei até agora nunca ouvi falar dele, porque ele tem feito uma carreira, sei lá, na Alemanha porque não conseguiu ter uma carreira internacional. Está a ver, nunca é tarde para ser ter uma carreira internacional e ganhar prémios. Basta um filme.

Esta semana estreia ao mesmo tempo que o Longe da Terra Queimada dois grandes blockbusters, a animação da Disney Força G e o remake Fama. Que conselhos daria ao púbico português para ir espreitar este drama?
Para já não sei como está classificado este filme, mas deve ser para maiores de 18 anos. Portanto, estamos já a tirar grande parte do público possível. Não é um filme que as pessoas vão ver duas, três vezes, não é um filme como o Fama, que entretém. Isto é um filme para quem gosta de Cinema, para quem gosta de pensar e para quem gosta de ver bom Cinema. É um filme também muito mais dedicado para uma faixa etária, eu diria dos 25 aos 75. Não tanto para os jovens… acho que não há competição entre estes filmes. São filmes com propósitos diferentes, diametralmente opostos.

Voz do Cidadão

Jornalista no programa Voz do Cidadão, do Provedor do Telespectador da RTP (entrevistas, estruturação e apoio na montagem; exemplos: programas sobre Cinema, Comentários no Futebol e Museu RTP)

emot no tvt



Curso da Escola de Pilotagem Honda, em Palmela. Peça do TV Turbo que foi para o ar pela primeira vez dia 14 de Novembro na SIC Notícias.

Edição: Tito
Repórter de imagem: Marco Fernandes
Texto e apresentação: João Tomé
(nos Vídeos SAPO)

concerto

Crítica de concerto para o Destak. Julho 2009.

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Concerto
Leonard Cohen «és o nosso homem»
Chama-se Leonard Cohen, inspirou músicos, letristas, poetas e meros apreciadores de música ao longo de várias gerações e esta noite a sua voz única inundou de sorrisos um Pavilhão Atlântico quase lotado. Despediu-se desejando o «mais difícil»: «sejam bondosos».

João Tomé

A voz inimitável, grave como poucas e muito melodiosa. Os poemas inspirados e que tocam as profundezas humanas. A boa música tocada e cantada por uma banda de excepção – que incluiu uma colaboradora em algumas letras, de timbre notável. O senhor Coen, anfitrião da casa que é a sua voz, tornou a noite de 30 de Julho de 2009 especial para os 12 mil espectadores que estiveram no Atlântico.

Dono de um charme que parece em vias de extinção e um à vontade e entrega a cada canção como se fosse a última, Leonard Cohen cantou, tocou, dançou, ajoelhou-se e fez ainda uma oração muito especial. O senhor Cohen, quando canta, fá-lo para cada um de nós. Mesmo num local com tantas pessoas. Em palco, o senhor que criou álbuns como Songs of Love and Hate, Death of a Ladies' Man e I'm Your Man ainda sorriu, agradeceu ao público «demasiado amáveis», alterou a letra de uma canção para colocar a palavra «Lisboa» e ainda fez questão de apresentar a sua banda de amigos (com CV’s incluídos) duas vezes.

Por entre espanhóis, canadianos, holandeses e, claro, muitos portugueses, os seguidores desta espécie de religião Leonard Cohen vibraram mais com três belos momentos em três belas canções. Tower of Song foi o primeiro auge da noite. A mais energética e famosa (até pela cover de Jeff Buckley) canção/hino, Hallelujah, tornou-se no momento mais especial deste concerto de três horas (com um intervalo simpático pelo meio). Memorável e perfeita foi ainda a interpretação de I’m Your Man, durante a qual um convidado da casa Cohen gritou acertadamente: «és o nosso homem».

Para o final difícil era estar-se sentado… tal era a energia e a inspiração que fluía pelo “lar” onde Leonard Cohen nos acolheu – ele no palco, nós, público, nas bancadas. A partir de Hallelujah não faltaram as ovações de pé, interacções alegres com a banda e até flores para o senhor Cohen.
Em alguns seres humanos o talento é como um bom vinho, fica apurado com a idade. Leonard Cohen, canadiano que cumpre em Setembro 75 anos, é o exemplo claro de que a velhice não tem de ser o caminho para a perda de capacidades, mas pode ser o continuar do auge. Esta noite, em Lisboa, viu-se e acima de tudo sentiu-se o auge.

Actores e a fama

Artigo para a secção de Fama e TV do jornal Destak. Julho de 2009.


Ryan Reynolds e Scarlett têm receita anti-paparazzo

O actor canadiano Ryan Reynolds falou ao Destak em Londres há duas semanas, a propósito da comédia com Sandra Bullock A Proposta, que estreou a semana passada e explicou como tem conseguido «nunca viver uma vida propícia para os tablóides» com a mulher, a muito desejada e requisitada Scarlett Johansson.

João Tomé, em Londres


O canadiano Ryan Reynolds admite que evita falar da vida pessoal até porque «não há conferência de imprensa quando saímos de nossa casa».
«Na maior parte dos casos, se há sete ou oito fotógrafos a remexer no lixo à porta de tua casa é porque fizemos algo que lhes permitiu estar ali. Demos-lhe acesso ou permissão. E a partir do momento em que fazemos isso não podemos voltar atrás. Nunca vivi essa vida. Temos de nos proteger até certo ponto», disse.

O actor que se tem dividido em comédias, filmes de acção e até thrillers (participou no recente Wolverine) continua a explicar os cuidados que têm na vida com Scarlett Johansson: «Se quero uma salada não vou ao sítio mais mediático, vou a outro sítio».

Reynolds quase explica proposta de casamento a Scarlett Johansson
Na curiosa comédia romântica A Proposta, onde Reynolds reencontra a amiga Sandra Bullock, a sua personagem recebe uma proposta de casamento obrigatória da sua chefe autoritária.
Questionado por uma jornalista sobre a sua proposta de casamento a Scarlett Johansson durante a conferência de imprensa do filme, a que o Destak também teve acesso após a entrevista ao actor, a amiga Sandra Bullock interveio de forma irónica: «Sim, fala-nos sobre o teu momento mais íntimo com a tua mulher».

Ryan Reynolds não se fez rogado e colocou em prática a sua estratégia de pouco falar da vida privada, ironizou. Primeiro simulou mostrar uma série de slides com o momento da proposta de casamento a uma das mulheres consideradas mais sexys do mundo do cinema. Depois explicou em tom de brincadeira: «posso dizer que envolveu um ninja, um carro dos bombeiros e muita coerção».

Editor de um tablóide por dois minutos
De regresso à entrevista com o actor que soube sexta-feira passada que irá ser novamente um super-herói no cinema: nada mais nada menos do que o Lanterna Verde, Reynolds colocou-se, a nosso pedido, na pele de um editor de uma tablóide daqueles que inventa notícias. Se fosse editor de um desses jornais por um dia que notícia inventaria sobre si próprio?

«Boa pergunta… mas difícil. Talvez: "Reynolds visto mais uma vez a alimentar os sem abrigo". Mas isso não venderia. É quase cómico ver a forma como se inventam notícias. É pior se formos forçados a responder às notícias. Mas está totalmente fora do nosso controlo. Não se pode fazer nada em relação a isso.» Explicou o actor que começa a rodar dentro de uma semana o estranho thriller ao estilo de Hitchcock, Buried, quase todo passado dentro de um caixão.

Ryan Reynolds, um canadiano que integra o lote de actores mais em voga em Hollywood neste momento, admitiu a uma revista norte-americana há poucos dias e já depois de ter falado com o Destak, que admite a hipótese de adoptar uma criança com Scarlett Johansson no futuro, até porque um dos seus irmãos foi adoptado. Um pormenor pessoal que parece não comprometer a estratégia delineada.

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Entrevista mais sobre o filme A Proposta
«A química não tem a ver com amizade»

Ryan Reynolds, o actor canadiano mais em voga do momento, fala de Sandra Bullock e do Porto.

Já ser amigo da Sandra Bullock ajudou na rodagem?
Nunca tive de contracenar com o Wesley Snipes nu… felizmente. Para momentos de nudez ajuda sermos amigos, sem dúvida. Mas digo sempre que a química no ecrã não tem nada a ver com amizade. Podemos ter química com qualquer pessoa, é a última coisa em Hollywood que não é completamente computadorizado. Se não temos química com uma pessoa, nunca vamos conseguir tê-la. Nos primeiros 45 segundos ambos sabíamos. Por norma, trabalhar com um grande amigo é a melhor forma de estragar a amizade, o que não aconteceu.

Sandra Bullock faz de canadiana, deu-lhe alguma dica?
Sei bem o que é passar para um sistema de saúde muito caro, por exemplo. Não havia muito que lhe pudesse ensinar, só fiquei feliz por ela não fazer o habitual estereótipo. Não estava a interpretar uma santa patinadora no gelo, mas sim uma capitã da indústria dura. Nos filmes são conhecidos por ser pacíficos e passivos, mas eu conheço muitos canadianos zangados por natureza.

Já teve trabalhos em que namorasse com a chefe?
Não. Mas já tive trabalhos estranhos. Trabalhei num cemitério, num armazém, num restaurante horrível. Quando tinha 16 anos, trabalhei num clube de iates em que os meus chefes eram os terríveis filhos e filhas de 8 anos de pessoas ricas. Chamavam-me rapaz, nem me tratavam pelo nome, eram horríveis. Desejava-lhes mortes lentas.

O thriller Buried será um filme totalmente diferente?
É um filme revolucionário. Nunca ouvi falar de nada assim, com uma pessoa (eu) dentro de um caixão durante 80 minutos. O que me interessa mais é o desafio técnico, tem uma premissa ao estilo de Hitchcock.

Viajar é o seu maior hobby?
Adoro viajar. O meu problema é que gosto de transformar as minhas férias numa corrida. O ano passado fui a África durante três semanas, foi incrível. Há uns tempos estive na Europa. Passei pelo Porto durante o Euro 2004, foi um caos, com adeptos de todo o mundo. A cidade estava linda mas a confusão era demasiada.

Entrevista | Gonçalo Brandão




Gonçalo Brandão revelou-se esta semana um surpreendente entrevistado. Não é habitual conhecer/entrevistar um jovem jogador com tanta experiência e jeito para a partilhar em palavras.
Aos 22 anos, o defesa do Siena contou-me como foi a sua estreia pela Selecção e revelou que a aprendizagem de dois anos com Jorge Jesus foi fulcral para se adaptar a Itália. Jesus é, aliás, motivo de rasgados elogios, como um técnico perfeccionista na táctica defensiva que não admite falhas e "uma excelente contratação para o Benfica" (até eu fiquei convencido).

Gonçalo Brandão admite ainda que as suas estreias a titular pelo Belenenses, pelo Charlton e pelo Siena foram sempre frente às equipas de José Mourinho. O próprio Mourinho lembrou-o disso mesmo no intervalo do último Inter-Siena.

O central que também joga nas laterais revela ainda qual o jogador mais difícil de marcar na Serie A (não foi Ibrahimovic nem Kaká!), no sonho de jogar num grande europeu e de experimentar o futebol espanhol.
A entrevista está aqui.



PS: Sabiam que os jogadores de futebol estão proibidos, por contrato, de andar de mota seja a conduzir ou a ser conduzidos? Eu fiquei a saber esta semana.

Entrevista David Fonseca


Da parede para o concertoConcerto. Calmo e sorridente, animado e cheio de vontade de contar a sua arte, David Fonseca esteve à conversa comigo, numa entrevista para o jornal Destak para falar sobre o novo álbum "positivo", Our Hearts Will Beat As One e o concerto de dia 11 de Novembro, no Centro Olga do Cadaval (Sintra).

[BACKGROUND: Conversa dia 25 de Outubro de 2005 (terça-feira), um dia depois do novo álbum ter sido lançado. Pelas 15h. A entrevista durou cerca de 30 minutos e não pôde prolongar-se porque existiam mais jornalistas à espera para o entrevistarem. Decorreu numa sala de reuniões da sede da Universal, em Lisboa, perto do Colombo. Achei curioso na sala existirem alguns discos em ouro e platina editados pela Universal, onde estava um álbum dos Silence 4 e outro de Bryan Adams, Waking Up the Neighbours.]

Por João Tomé

Esta semana já deste dezenas de entrevistas, a jornais, rádios, televisões, revistas… Como é que lidas com as entrevistas, ficas cansado ou aborrecido com elas?As entrevistas é a parte que todos os músicos estão menos habituados a lidar. Confesso que nos primeiros tempos do Silence 4, sentia-me um pouco reticente em relação a tudo isto as entrevistas, hoje considero ser absolutamente necessário. Porque se eu quero fazer a minha música chegar às pessoas acho que devo agarrar todas as oportunidades que tenho, para falar sobre o disco enquanto as pessoas não tem oportunidade de o ouvir.

Não é estranho uma pessoa normal de um momento para o outro passar a dar muitas entrevistas?
É estranho porque se passa de ser uma pessoa perfeitamente desconhecida da sociedade, para passar a ser uma pessoa extremamente conhecida. Para já o choque é esse, a razão de haver tanto súbito interesse. No inicio foi o que me fez mais confusão. Porque agora tanto interesse. Já tocávamos há três anos, tentámos gravar discos e nunca conseguimos, mas depois havia um grande interesse. A primeira vez em que isso começa a acontecer é estranho. Entrevistas em catadupa e se pergunta muitas coisas sobre a nossa vida pessoal. Há sempre uma ideia de que já não somos as pessoas que éramos, já estamos a dizer coisas que nunca nos perguntaram, que nunca pensei na minha vida que viessem a fazer parte nem sequer do meu grupo de amigos, quanto mais num espectro mais generalizado. E daí vêm as defesas. Toda a gente põe as armas em punho… não vamos de maneira nenhuma dizer isto, ou aquilo. Mas com o tempo uma pessoa começa a lidar melhor com as coisas que diz e que quer dizer, por isso agora é um processo mais natural.

Sendo este um novo capítulo na tua carreira, o que mudou mais do primeiro álbum a solo, para Our Hearts Will Beat As One?Mudou o facto de algures eu ter decidido fazer o álbum. Eu tenho andado ao sabor do vento há alguns anos, nesta área, na música. Porque os Silence 4 foram um acidente de percurso, de uma banda como hobby, de repente explodiu para uma coisa inimaginável. Aquilo que eu fazia nos Silence 4, não era uma profissão, não era o caminho que eu queria seguir para sempre. Eu lembro-me de estarmos nos Silence 4 antes de ter o disco gravado, e já haver aquela ideia de não sabermos se íamos ter aquela banda para sempre. Tínhamos a banda, mas podíamos não ter… havia um descomprometimento que a mim me agradava, assim como a todos os elementos da banda. A mim não me choca absolutamente nada que os Silence 4 tenham terminado, porque já na altura era um projecto espontâneo. Se deixasse de ser espontâneo – que era o que aconteceria se nos tivéssemos reunido outra vez, as pessoas estavam sempre a perguntar coisas e nós não sabíamos o que havíamos de dizer – porque não havia essa espontaneidade de nos querermos voltar a juntar na mesma sala a fazer as mesmas, como tal resolvemos acabar com o projecto. Em relação ao projecto a solo não mudou muito a forma, no primeiro disco. Fiz umas canções em casa, só que em vez de ter uma banda, fui para o estúdio, mas os processos eram os mesmos. Neste disco inverti quase tudo o que fiz até hoje, porque parar uma digressão, e dizer à agência dos concertos, para não marcar mais nada para eu começar a fazer um novo disco de raiz, e apontar uma data para estar pronto com a editora. Tudo isto foi a primeira vez que aconteceu comigo – no album a solo cheguei à editora com o disco feito. E este não, tinha uma ideia específica de como ia ser o álbum, mas não tinha as canções e fui para casa trabalhar nesses termos. Acho que foi o disco mais difícil de todos por causa disso, porque esse tal descomprometimento deixa de existir e passa a haver uma obsessão mais clara sobre aquilo que se está a fazer e deita-se muitas coisas fora. Está-se sistematicamente a deitar coisas fora. Gosto disto, no dia seguinte já não gosto e vai fora, porque não dura, não tem validade suficiente para estar dentro de um disco – para que se ouça mais tempo. O que mudou mais foi a atitude. Aquela descomprometida que eu tinha pela música, agora é mais uma profissão, um desejo, a ideia de querer ver algo a crescer.


Como é que decidiste começar o disco de uma forma concreta?Aquilo que me preocupava, quando comecei a fazer as canções e é muito complicado ter uma ideia de um disco de como é que ele poderá soar, mas não ter canções nenhumas – tinha uma ideia muito abstracta, era que tinha de ser um disco positivo. Era a única coisa que eu me impunha sistematicamente: Eu não posso, de maneira nenhuma, construir canções que apontem para um negativismo porque ele não existia na minha vontade de fazer o disco. Existia algo muito mais positivo. Não é por acaso que título do disco é feito no futuro, não é por acaso que a foto da capa tem a minha figura a olhar para cima. Há uma série de elementos que eu queria que fossem positivos e tivessem uma luz qualquer. Em vez do tal principio, meio e fim, eu preocupava-me muito mais que houvesse uma constância de atitude em todo o disco. E que conseguisse entrar nas canções mais lentas – que é o mais complexo – que apesar de terem uma toada por vezes muito triste, têm um certo positivismo, que era o mais complicado para mim. A segunda prioridade para mim era a simplicidade da canção. No primeiro disco acho que baralhei um pouco, porque fiz algumas músicas muito complexas, e agora o objectivo principal era tornar todas as músicas no mais simples e directo possível – que é provavelmente o mais difícil. Eu costumo dizer muitas vezes que é mais fácil fazer uma canção com 55 instrumentos do que com três…

Ser eficaz com letras e músicas mais simples…
Tudo mais simples, com canções mais simples porque a linguagem da música pop nunca foi complexa. Existem coisas complexas na música pop, mas a meu ver tem tudo a ganhar quando são mais claras e especificas, quando não complicam demasiado e conseguem dizer exactamente a mesma coisa. Muitas destas canções eram muito mais complexas quando foram criadas e era mais complicado de perceber o que eu queria dizer, e o trabalho que eu tive durante todos esses meses foi a simplicidade.

Porquê Our Hearts Will Beat As One, como título?
Para já porque foi a última música que escrevi no disco. Eu geralmente não sou muito original para títulos e costumo escolher uma canção do álbum para o título e como foi a última e achei que era o título mais positivo de todos e que apontava para uma coisa mais específica de futuro. Não foi fácil, porque a editora achou que era um título muito comprido e difícil de dizer, e é, mas sintetiza bem a ideia do disco.

E porque não Hold Still, ou Cold Heart, ou Longest Road…Porque são canções de passagem do disco. Por exemplo, é engraçado eu reparar, quando acabo o disco, que seis canções têm a palavra Heart, no título. E uma das coisas que decidi era que o título do álbum tinha de ter essa palavra.

Não se notam tantos instrumentos diferentes e estranhos como no outro álbum, em que havia crianças a cantar, e instrumentos caseiros...
Por incrível que possa parecer este disco tem mais pormenores desses do que o outro. Mas enquanto no outro nós decidimos torná-lo visível, expressivo, aqui e ideia era ouvir a canção e por mais coisas estranhas que ela inclua, teria de parecer extremamente simples. A minha conversa com o Mário [Barreiros] era: Isto tem de parecer simples. Alguns pormenores de produção, por exemplo uso caixas electrónicas dos anos 80 e 70 em quase um terço destas músicas, foram complexos. Não se percebe isso, mas elas estão lá incluídas. Instrumentos um pouco mais estranhos, as harmónios indianos continuam lá, os pianos muito antigos também continuam lá… mas estão postos de maneira a não causar estranheza.

Mais em harmonia com os outros…

Exactamente. Enquanto no outro queria que eles se destacassem de alguma forma, porque queria experimentar uma sonoridade mais agressiva. Tudo era mais agressivo. E neste queria que as coisas parecessem simples. O Hold Still, por exemplo, que é das músicas que parece mais simples no disco, tem dois arranjos de cordas completamente diferentes postos ao mesmo tempo, bastante dissonantes um do outro, mas que dentro da música tem um efeito dramático, que parecendo simples é totalmente fora do que se costuma fazer na música pop. Tentou-se que soasse simples, se soasse estranho eu nunca o aceitaria.

Quais as maiores inspirações para este álbum. Recorreste a memórias antigas (da adolescência) ou apostaste em ideias mais actuais ou futuras…Eu acho que este é o primeiro disco que escrevo a olhar sistematicamente para o presente e para o futuro. Eu não vejo nenhum problema em se recorrer em memórias da adolescência para escrever, porque normalmente são coisas que nos marcam muito e é um universo muito rico em muitas coisas. Mas não era aquilo sobre o que eu queria escrever. Inclusive, lembro-me mesmo no início de começar a escrever o disco. De recortar uma série de fotos e fazer fotocópias e escrever uma série de textos, que não eram letras, eram ideias e direcções e fotos de bandas que eu gosto que tocam ao vivo, posições de bailado, que eu achava que queriam dizer coisas que eu via como imagens e ainda não via como canção. Era uma parede que tenho em casa que estava cheia de colagens e post-its e que me ajudaram muito a seguir esse caminho. Elas sim inspiraram-me a fazer esta procura. Mais do que canções, muitas imagens, frases, desenhos…

No teu dia-a-dia tens um caderno a que recorres para recolher coisas, ideias…
Sim, mas nunca coisas muito concretas. Eu não gosto de ideias muito concretas. As canções aparecem sempre de um ponto de vista muito abstracto, inicialmente. O primeiro embate que eu tenho com a canção é geralmente muito abstracto, tem a ver com três ou quatro palavras e uma sequência muito arcaica de sons. E a partir daí tento construir a canção sempre à volta de si própria, tanto que eu não escrevo letras e depois canções, nem o contrário, escrevo tudo ao mesmo tempo, tudo tem de direccionar para o mesmo lado. Tanto que eu não acho que sou um poeta, um letrista excepcional ou muito bom. Acho que as minhas letras são muito frágeis sem as canções, elas foram escritas em conjunto.



Na música Hold Still, existe um dueto que não é muito habitual nem no último álbum nem mesmo nos Silence 4, apesar de haver outra cantora. Como é que surgiu esta ideia, também foi espontânea?Foi espontânea e é engraçado que de facto, nos Silence 4 havia espécies de duetos, mas nunca como este, curiosamente. Uma das coisas que me lembro de ter escrito na minha parede era algo do género: «Tentar escrever algo mais clássico». Queria buscar a ideia clássica da canção, como se constrói de novo uma canção quando já há milhões e milhões de canções dessas. Foi um desafio que tomei mesmo como muito pessoal. Eu queria fazer uma canção que fosse muito clássica, na sua estrutura. E uma das coisas que sempre quis fazer foi um dueto, porque acho que há uma ideia romântica e ao mesmo tempo um bocado pateta na ideia do dueto. Aquela coisa do Kenny Rogers e Sheena Easton, que eu achava um bocado tola, mas que ao mesmo tempo exercia sobre mim um encanto estranho. E então quando decidi fazer um dueto construí esta canção, criei uma situação muito específica, que é muito pessoal. É de facto das letras que mais gosto do disco, quando comecei a construir o dueto, parecia que ela já existia. Eu adoro quando existe essa sensação, quando estou a escrever uma canção e tenho sempre a sensação que ela veio de outro sítio qualquer, ela quase se construiu a si própria.

E como surgiu a Rita (ex-Atomic Bees) no meio disto tudo?
Convidei a Rita para o dueto, que toca comigo há dois anos [piano] e já conheço há bastante tempo. Acho que ela tem uma voz incrível, muito bonita, muito clássica. Mesmo a forma como ela canta é muito clássica. Ela aceitou logo o convite e adorou. Quando ela começou a cantar eu percebi imediatamente que era a voz certíssima para fazer isso e posso dizer que foi uma das grandes surpresas para nós, como banda, tê-la a cantar.

Como chegaram, dentro da música, ao aparecimento da voz da Rita. Quando é que tinha de aparecer?A ideia de colocar a voz dela é que arranjássemos uma canção que não caísse na atenção, que não fosse lenta a desenvolver… a ideia era que quando surgisse a voz dela surgisse assim um brilho que eu não conseguia de maneira nenhuma por, e que ela conseguia suportar a canção na sua parte mais pesada. E depois juntávamo-nos os dois no final, como a ideia clássica da canção diz… lembro-me muitas vezes de ter esta conversa com o Mário Barreiros, eu perguntava-lhe se ele achava que era demasiado colada à ideia clássica da canção e ele dizia-me que isso era um conceito que não existe, isto é uma canção bem feita, por isso vamos fazê-la assim. E foi uma maravilha! Por acaso lembro-me da primeira reacção que nós tivemos quando ouvimos a canção toda junta, porque nós gravamos depois de muitas partes, e foi incrível ouvirmos aquilo assim… conseguimos dar aquele ar muito perfeito, muito disney que é muito difícil de fazer, e quando ouvimos aquilo pela primeira vez, ficámos muito felizes, foi um momento muito bom.

Nota-se alguma dicotomia entre as canções melancólicas, mais calmas, quase sussurradas e depois com as canções mais afirmativas e rock. Porquê esta alternância?
Quando este disco começou a ser composto todas as canções que compunha estavam todas ligadas ao lado mais introspectivo. E isso começou-me claramente a irritar. Porque eu acho que o meu universo musical é um pouco mais largo que isso, e se no primeiro disco isso já acontecia, neste eu a certa altura que teria de ir mais longe do que anteriormente. Foi aí que surgiu o Cold Heart, é quando percebo que há uma série de coisas que ainda me faltam explorar para que este disco esteja terminado. A partir dessa música, todas as canções que surgem têm quase todas a palavra Heart incluído. Todas essas são agradáveis e são quase uma música só. É como o lado A e lado B de um vinil. O lado B é bem mais estranho.

Porquê o II nas músicas, na lista que aparece na parte de trás do album?O II que coloco em algumas músicas. Escrevo na parte de trás do álbum que não significa nada, é uma questão técnica, eu não posso por aqueles títulos porque eles já existem na Sociedade Portuguesa de Autores. E eu tive uma grande discussão na SPA, por causa deste problema, porque isto não tem lógica isto ser assim, mas não há solução, eles não me deixam registar aqueles títulos. E eu disse-lhes que não iria abrir mão destes títulos, como me pediram, e que ia colocar o número II, mas colocaria no disco que não significavam nada. Foi a maneira mais inteligente que consegui de combater o sistema, mas pelo menos ficaram os títulos que eu idealizei. Eles diziam… ponha mais palavras nos títulos – mas isso desvirtuava as músicas. Depois punha Cold Heart, mais qualquer coisa…
Por falar nisto, lembraste-me agora que, como vamos lançar o Hold Still como segundo single, eles [da editora] têm de colocar lá o dois… vou ter de os avisar quando acabarmos.

Mas na língua inglesa existem várias músicas com o mesmo título, e não se verificam esses problemas noutros países…
É verdade… em Portugal há um problema na lei, estas situações não estão regularizadas o que cria estas situações que não compreendo.


O fim do álbum termina com uma música em português Adeus Não Afastes os Teus Olhos dos Meus, que se destaca por completo. Como surgiu essa música no conceito do álbum?
Tinha essa canção escrita há algum tempo… O Adeus é uma daquelas canções que eu sabia que poderia ser enorme. Há canções que não se adequam a um estilo e ficam paradas, à espera de solução. E esta canção era uma dessas, que tinha já tudo, mas a canção não sobrevivia ao tempo que eu queria que ela durasse. Depois de fazer este disco, queria que ele fosse pequeno. Tinha 10 canções e comecei a ouvir canções antigas e cruzei-me de novo com esta e percebi que teria algum interesse acabar com uma canção que faz uma curva tão repentina no disco, por ser em português e muito diferente de tudo o resto. E quis pô-la porque queria fazer algo que fosse fora daquele espaço criado até ali. Tudo o que fiz no disco completo acabei por juntar nesta canção, desde o bater do relógio, que é muito mais lento do bater normal, havia várias ideias que foram todas colocados ao mesmo tempo nesta música, e isso agradava-me. De fazer 10 em 1. Uma música que fazia a soma de todas essas 10. é um música apoteótica.

Cinema e fotografia são áreas que também te fascinam, para além da música. Esperas entrar mais a sério nestas artes no futuro?
Se um dia tiver tempo. Os artistas que eu admiro em qualquer área, dedicam as suas vidas inteiras a essa área. E eu acho que é a única maneiro de o ser, se alguém quer fazer bem a sua arte, tem de dedicar-lhe o seu tempo e energia e dispersar-me, provavelmente iria fragilizar aquilo que eu fazia, e como sou muito perfeccionista nunca iria perdoar isso. Um dia, se tiver tempo, irei explorar essas áreas, por agora mantenho-me amador, e muito feliz, o amador é sempre o mais feliz de todos.

Bryan Adams não tem nada a ver com a tua música, mas tem a mesma paixão pela fotografia, conseguindo expor e fotografar já a nível profissional. Achas que um dia poderá conseguir conciliar?
Vou-te contar uma curiosidade sobre Bryan Adams. Ele tocou em Leiria em 2000. E ele tocou o dia anterior a nós, e fui ver o concerto e estive com ele. Não sou muito de conhecer artistas, mas estive lá na mesma sala em que ele estava, que eu fazia também parte da organização… achei que é uma pessoa muito simpática. Foram lá as miúdas todas conhecer o BA, estava tudo maluco com ele… e os Silence 4 tocaram no dia seguinte. Três dias depois fui a Londres, passar férias, onde tive 10 dias, e ao segundo dia que estive lá, passei pelo Palácio de Buckingham a tirar fotografias publicitárias ao palácio e lá com uma boneca… e eu lembro-me de comentar, o quão o mundo é pequeno. Há quatro/cinco dias atrás, estive com este rapaz na minha terra natal, e agora ele está aqui outra vez. Quais são as possibilidades disto acontecer… mas aconteceram. E ele admiro que ele se dedique a concertos e fotografias. Aliás, acho que nesta altura ele poderia fazer o que lhe apetecesse. A sensação que me dá é que é uma pessoa muito serena e que faz o que gosta. Faz a música que gosta, a fotografia que gosta, e sinto nele essa serenidade. Espero eu um dia ter a serenidade que ele tem daqui a uns anos… porque deve ser uma maravilha e ter tempo para os fazer.
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PERGUNTAS ALGUNS DIAS DEPOIS (feitas por e-mail) NA VÉSPERA DO CONCERTO NO CENTRO OLGA DO CADAVALQuais as expectativas para o primeiro concerto do novo disco, no Centro Olga do Cadaval?R: São muitas, há sempre muito stress e muita azáfama no primeiro concerto da digressão, mas existe também muita vontade de ver como é que estes temas resultam ao vivo. Depois de tantas semanas de ensaio, chega finalmente o dia em que se mostra todo o trabalho desenvolvido, o que acaba por ser um momento de muita alegria e de muito nervosismo.

O que irá ser diferente relativamente às digressões do primeiro álbum a solo? Irão haver surpresas?
R: Sempre que começo uma digressão, tento apresentar um espectáculo que tenha a ver com o meu presente estado de espírito e com o meu disco mais recente. Neste caso, este espectáculo marcará uma grande diferença em relação aos anteriores, por ter um nível cénico mais cuidado e por apresentar elementos nunca antes explorados por mim. Penso que é o espectáculo mais dinâmico que já fiz, mas as surpresas ficam para quem nos fôr visitar...

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músicos no album e concertos: Nuno Simões (baixo), Paulo Pereira (teclado e sintetizadores), Sérgio Nascimento (bateria), Ricardo Fiel (guitarra) e Rita (piano e voz).