Entrevista
«Fizemos Dúvida com um espírito de equipa impressionante»
Simpática e bem disposta, a actriz Amy Adams conseguiu a sua 2.ª nomeação para os Óscares com o brilhante filme Dúvida (estreou ontem em Portugal). Adams esteve à conversa com o Destak, em Londres, e revelou a forma como o filme de John Patrick Shanley a inspirou e contou a experiência de rodar com a lendária Meryl Streep, que até a ensinou a tricotar durante as rodagens.
João Tomé, em Londres
É sorridente e diz ter um espiríto aberto e positivo – bem contrário à personagem que interpreta neste filme. Amy Adams, já nomeada para os Óscares pelo filme Junebug (2005), é uma freira nos anos 60 que despoleta sem querer uma suspeita horrível, alimentada pela freira-chefe (Meryl Streep) neste Dúvida (ler crítica ao filme aqui). Amy está outra vez nomeada para Melhor Actriz Secundária.
Poderia ser freira?
Não (risos). Por causa da obediência. O voto de obediência. Eu questiono em demasia a autoridade e gosto de um bom debate.
Entramos em filmes já conhecendo o realizador. Não gosto de tirania. Mas sou uma boa trabalhadora e nos filmes procura-se uma
Quando uma actriz recebe uma primeira nomeação fica muito feliz, mas pela segunda vez costuma ser menos entusiasmante?
Não, continua a ser muito excitante até porque esta vez é bem diferente (a primeira foi por Junebug). Fizémos este filme com um espírito de equipa impressionante e ter esse reconhecimento, como equipa (Melhor Argumento e todos os actores estão nomeados), é fantástico.
Há um momento em que a irmã Aloysius fala da inocência da irmã James, como se prepara para uma inocência tão espectacular?
É uma função do argumento e uma necessidade da personagem e a forma como ela entra nesta história em particular. Requer que ela comece num estado de pureza para que possa tomar a sua viagem nesta história. Foi uma colaboração com o John (o realizador) e as outras personagens. Além disso falei com freiras, não pude falar com nenhuma assim tão nova e tão pouco “tocada” pelo mundo, mas ao falar com elas sobre como era o seu mundo em 1964 tornou a experiência da personagem muito diferente. Porque era uma geração muito diferente de mulheres americanas, antes da emancipação e eram criadas de forma muito diferente nessa altura. Ter analisado aquela época foi muito importante para mim.
Disse noutra entrevista que o hábito singular que as freiras usavam deu-lhe uma sensação completamente diferente de si própria, é assim?
Sem dúvida. Usar o mínimo de maquilhagem e usar aquele hábito… eu sou conhecida por ter este cabelo (ruivo), e colocá-lo tapado e não sentir o meu cabelo e a minha maquilhagem, não estar em roupa normal, foi muito revelador sobre mim própria. E aquelas boinas criam esta realidade fantástica de nós próprios. Só se colocarmos as mãos a tapar o cabelo já temos uma sensação diferente de nós. (risos).
Não se consegue ver nada de lado ou por cima e tem-se uma visão muito focalizada do mundo e isso ajudou a formar a minha personagem.
Quando esteve a falar com as freiras tentava perceber como elas falavam e como se comportavam?
Eu perguntava-lhes como seria um dia típico. O que fazia quando acordava… seguia-as no dia todo. Quantas vezes podiam ir a casa, se se envolviam com a comunidade e se a comunidade se envolvia com elas. E naquele tempo elas estavam muito isoladas. Os votos delas mantinham-nas como um grupo fechado. Para ela, desde que se inicia a suspeita que a afecta, não há por onde ela fugir. Não pode ir para casa. Não pode ligar a ninguém. É só ela e os seus próprios pensamentos. Poderia recorrer a Jesus, mas quando sentimos que fizemos algo de errado e deus não nos pode ajudar, e temos de viver com isso toda a nossa vida… isso é profundo.
Acredita em deus?
Sim.
Foi criada na religião mórmon, é verdade?
Até aos 11 anos sim. Mas já não pratico. A religião mórman deu-me valores morais muito sólidos. Partes da minha família ainda são muito fiéis há religião e têm sido muito importantes para a restante família em alturas de necessidade por isso estou muito grata.
A diferença entre a altura do filme e a actual é que uma é mais secular e talvez hoje as pessoas sintam falta de fé ou vivam sem deus… o que pensa?
Não sei se vivem sem deus, talvez a confiança na religião organizada tenha mudado. A maior parte das pessoas que conheço são muito espirituais, mesmo que tenham dúvidas ou suspeitem de igrejas organizadas, acho que as pessoas são espirituais e ainda acreditam em algo maior do que elas próprias.
O filme também fala de uma época em que há desconfianças de outras organizações que antes não eram postas em causa (é pós-Kennedy e Watergate)…
Acho que há sempre motivos para estar a questionar. Tivemos uma altura na América que tentámos reconstruir o país após a II Guerra Mundial, tentar repor o establishement e dar uma sensação de paz durante a crise de mísseis. Havia tanto a passar-se e a América estava a atravessar estes problemas e a ultrapassar uma época de maior ingenuidade para começar a ver as coisas mais de uma perspectiva global e mundial (acho que ainda estamos a aprender isso).
Qual a mensagem que retira deste filme, o que aprendeu com ele?
Há muitas coisas que aprendi. Acho que cada membro do público deste filme terá uma reacção diferente baseada na sua própria experiência de vida, pelo que viram. Acho que é esse o génio da realização do John, porque ele deixa muito para as pessoas pensarem. Ele acredita que este é o significado deste filme, deixar que as pessoas decidam por si próprias, deixá-la a ter as suas próprias dúvidas, deixá-las a terem conversas e a terem desentendimentos sobre grandes princípios de valores e ética, certo errado, dúvidas e certezas.
E para mim, há uma frase que me tocou e não tem nada a ver com o assunto do filme, mas é o que mais significado meu trouxe. É quando o Phillip diz à irmã James: “há pessoas que te dirão que a luz no teu coração é uma fraqueza, não acredites neles, é uma táctica de pessoas cruéis”. Lembra-me em manter a cabeça erguida em alturas difíceis. Há pessoas que me criticam por ser bem disposta, mas isso não é problema meu.
Foi para um filme em que existiam dois dos actores mais consagrados do nosso tempo. O que ia na sua cabeça nas gravações?
(risos) Felizmente tivemos três semanas de ensaios, por isso deixei a grandeza do Phillip e da Meryl adormecer durante esse tempo. Acho que a minha admiração por eles acabou por ser usada para a minha personagem, para que nunca me sentisse uma igual. Ele como pessoas tentaram fazer-me sentir bem e igual. Mas nunca tentei ter muita familiaridade com eles como personagem.
Sentiu pressão?
Claro. Coloco sempre bastante pressão em mim mesmo. Não interessa se é a Meryl Streep ou o Esquilo Invisível, eu exijo muito de mim mesma. Sem ofensa para a Meryl Streep, nem estou a comparar-me com ela. Eu queria ser uma boa colega de cena para ela, foi mais essa a minha preocupação, em oposição para o que as pessoas pensariam de mim ao lado da Meryl. A preocupação era mais sobre a cena, estarei a dar-lhe tudo o que ela precisa.
Ela dava indicações durante as cenas?
Não. Quando estamos numa cena ela trata-nos como um igual. Não nos diz o que fazer ou tentar dominar. É muito viva em todos os momentos e isso é uma das coisas maravilhosas nela. É muito viva e trata os adereços com a máxima realidade possível. O copo é um copo e não um adereço. Ela aceita tudo e reconhece tudo, nada é esquecido quando está no cenário.
Sentiu que estava elevar o seu “jogo” por estar a contracenar com ela e com o Phillip e a vê-los actuar?
Sim, porque são companheiros de cena tão importantes. Mas porque eles desempenham personagens tão fortes e com tanto carácter, tive de lembrar a mim mesma que esse não era o meu trabalho neste filme, ser como eles. Não houve um momento de libertação para a irmã James. Tudo o que ela atravessa é internamente e vai sendo exteriorizado, mas não há espaço para ela “explodir”. Por isso tive de me lembrar disso. Mesmo na cena em que ela responde à irmã Aloysius, quando fiz a primeira vez a cena eu gritei-lhe. Acho que tinha de tirar a frustração da cena, mas sentir que a minha personagem teria de manter tudo dentro, não podia explodir, não está na sua natureza. Há assim uma tensão e frustração enorme em que, mesmo que ela queira expandir-se, não lhe é permitido. É alguém que não tem uma voz, tanto como ser humano como freira.
Às vezes há esta crítica de que o cinema americano hoje falta este tipo de dimensão humana nos filmes, acha que um filme como este pode ser uma resposta?
Não sei bem, terá de perguntar ao John. Ele escreveu a peça numa altura da América em que tinhamos grandes certezas. Acho que ele achou isso assustador – ele conta bem melhor do que eu, vá se lá saber porquê é melhor com palavras do que eu – não sei se a escreveu como uma peça religiosa, utilizou-a apenas como a plataforma para uma ideia mais lata.
Diz-se que é a maior estrela em ascensão em Hollywood… A sério?
Como se sente com essa descrição?
É bom (risos). Mas é uma história tão antiga, é o sucesso de um dia para o outro que demorou 11 anos a chegar por isso faz-me sentir que ando a percorrer uma maratona mas só agora me apanharam a corrê-la. Por isso não sinto que esteja a chegar a uma meta, adoro o que posso fazer e estou muito grata, mas não sinto aquela sensação de “wow, o que aconteceu”. Tenho tido a sorte de ter tido sempre trabalho e poder viver como actriz. Tenho a minha cabeça nas nuvens, é certo, mas isso também vem da minha natureza e personalidade.
Sente-se humilde quando está numa sala cheia de miúdos que interpretam personagens precoces?
Sem dúvida. Eles foram muito divertidos com que trabalhar. Viu-os na antestreia e agora todos os rapazes já estão mais altos do que eu. Nada marca mais a passagem do tempo do que o crescimento de uma criança, sem dúvida. São incríveis, as crianças. E lembrou-me a importância que é o ensino e a responsabilidade que temos para com estas jovens vidas quando estão à nossa frente. Estou muito feliz por não ser professora, porque teria medo da responsabilidade do trabalho.
O que nos pode dizer da sequela de Noite no Museu?
O que querem saber? Faço de uma milionária que ganha vida na noite do Smithsonian e é alguém aventurosa que é a força para a personagem do Ben Stiller e está a tentar que ele aceite aventura na sua vida.
Há diferenças para si em acreditar para deus e estar envolvido numa igreja organizada?
Bem, para algumas pessoas não há, para outras guardam tudo para si. Ainda não encontrei o meu lar religioso… seria um grande alívio encontrar um grupo de pessoas com uma ideologia semelhante a nós, mesmo que não acreditemos em deus. (risos) vocês são…
Quando tenho conversas comigo própria, sim acredito. Acho que é importante pormos no mundo boas intenções, se não for para nós para os outros. É importante quando há grande sofrimento é bom que haja algo que nos dê conforto. Sentimos quando há uma energia quando entramos numa sala e penso que o mundo também tem isso. Mas não sei. Ninguém sabe. As pessoas acreditam e têm fé, mas ninguém sabe.
Ficou surpreendida com a sua performance quando viu o filme, visualmente e tecnicamente?
Fiquei surpreendida o quanto os meus olhos pareciam grandes sem maquilhagem, sem dúvida (risos), estou só a brincar. Quando vi o filme apenas vi a minha personagem como parte de uma história maior.
Não se associou tanto à sua interpretação mas mais com o filme?
Sim. Não posso ser objectiva sobre a minha interpretação. É difícil para todos os actores. Todas as experiências nos ensinam algo e por isso há coisas que gosto e outras que não gosto, e trabalho e cresço e estou agradecida de estar numa carreira neste momento que me permite fazer isso.
Houve algum momento em que pensou é impossível se ser tão inocente?
Acho que as pessoas me perguntem essa pergunta porque não aceitam que haja alguém assim tão inocente no mundo. E discordo com isso, especialmente naquele período. Não tínhamos a internet, não tínhamos acesso a informação. E ainda somos um pouco assim. Na América há pessoas que acreditam em coisas totalmente diferentes e se comportam de forma muito diferente mesmo dentro da mesma casa. Nunca pensei que ela nunca poderia ser assim tão inocente. Talvez não tivesse consciência das consequências da sua inocência, acho que é isso que ela aprende.
Acha que um filme fica mais connosco do que um como A Noite Num Museu?
Depende que idade temos. Porque um miúdo vai lembrar-se do Noite num Museu. Para mim, cada personagem, dependendo o que estamos a atravessar, será uma análise diferente de nós próprios… o que faço para cada personagem, sem dizer que é o mesmo processo, mas trato com o mesmo respeito. Mas com o Noite no Museu não posso sentar-me nessa descoberta. Posso fazer decisões sobre a personagem mas depois tenho de correr para ela e ser espampanante. Aqui tenho de me sentar e tentar absorver a personagem de uma forma muito diferente e o tom do filme é oposto…
Se fizesse agora a minha performance do Doubt e da Noite no Museu seria muito confuso.
Isso muda o ambiente do cenário? Os actores estão mais concentrados aqui para entrar naquele ambiente incrivelmente tenso que o filme tem?
Tenho de dizer que o Ben Stiller é o actor mais concentrado com que trabalhei. Ele é completamente concentrado. Cada um tem o seu processo. O Phillip aqui esteve muito isolado de nós. A Meryl e eu tivemos muito tempo juntas a tricotar e ela foi muito bondosa e ensinou-me tricotar. Estivemos muito tempo lado a lado como autênticas irmãs e sinto muito calor para com a Meryl e o Phillip estava muito mais concentrado, ia para o quarto dele e o processo dele era muito diferente do nosso. E respeito isso.
Há uma relação nisso, com o papel dos homens e mulheres no filme, que são mundos totalmente diferentes…
Para mim não procuro incorporar as características do meu papel quando estou a trabalhar nele, mas inevitavelmente acabo por assumi-las. Quando fui a irmã James tinha a necessidade de estar à volta de pessoas e ser amorosa com elas, e compreender como é ser-se ela numa forma singular.
A Meryl ensinou-se a tricotar. Nem comparo as minhas capacidades de tricotar com as dela (risos). Fiz um cachecol, só consigo tricotar em linha recta… mas fiquei orgulhosa disso.
Este filme mudou a sua visão da igreja católica?
Não. A Igreja católica era o cenário e não a história. Aliás, até me fez querer ir a uma missa católica, pareceu-me uma cerimónia ritualista muito bonita. Gostei dessa tradição que ainda tem.
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Viola Davis já ganhou um Tony (prémio de teatro) e os seus 12 minutos no muito intenso filme Dúvida, onde confronta Meryl Streep numa sequência brilhante, valeram-lhe uma nomeação de Actriz Secundária nos Óscares - a última pessoa a ganhar com tão pouco tempo foi Judi Dench, em 1998. Viola contou-nos, em Londres, a preparação de uma personagem muito complexa.