Artigo escrito para o jornal Destak ainda quando era semanal em 2004.
Em Foco
Selva de carros em Lisboa, que futuro?
Todos os dias entram em Lisboa de 500 a 600 mil carros por dia. A autêntica selva de chapa em que o interior da cidade se torna faz com que seja fundamental a existência de locais suficientes onde deixar os veículos ou então uma redução na circulação. Em vésperas da Câmara de Lisboa receber as conclusões de um estudo de mobilidade sobre o estacionamento, circulação automóvel e transportes públicos o Destak falou com o responsável pela pesquisa José Manuel Viegas, que aponta os aumentos no estacionamento como a solução mais acertada.
por João Tomé
Entrar no interior de Lisboa permite constatar não só que o estacionamento é muitas vezes anárquico, mas também que alguns condutores estacionam de formas bem criativas, mas à margem da lei. «O estacionamento em Lisboa é completamente indisciplinado e as regras que existem não são postas em prática», explica o professor universitário especialista em transportes, José Manuel Viegas. Os abusos são um hábito e fazer cumprir as regras a excepção daí este professor universitário autor de um estudo de mobilidade para a Câmara de Lisboa, que será apresentado ainda este mês, indicar que uma das estatísticas que o estudo agora concluído revelou é que: «durante o dia 32% dos carros que estão estacionados na via pública fazem-no ilegalmente».
A EMEL, para José Manuel Viegas, é um exemplo da incapacidade de se fazer cumprir as regras de estacionamento. «Deveria haver um reforço na dimensão das equipas de fiscalização para que as pessoas não se habituem a não pagar», explica o responsável pelo recente estudo de mobilidade. Mas o problema vai para além da EMEL, o professor universitário considera que a confusão que existe entre as competências da EMEL e da polícia fazem com que a fiscalização fique comprometida. Neste caso a solução passaria «ou por haver um corpo único, sem divisões, ou então fazer com que EMEL e polícia tenham as mesmas competências no que diz respeito ao trânsito para fazer cumprir as regras com eficácia».
Taxas? «Não para já»
Para responder às dificuldades no estacionamento e na circulação automóvel nas cidades o governo, no início do mês, aprovou o Programa de Actuação para reduzir a dependência de Portugal face ao Petróleo onde estão incluidas medidas como a introdução de taxas de entrada nas cidades [ver caixa], aumento nas multas, nos bloqueadores e nos reboques.
Perante este anúncio José Manuel Viegas apenas concorda com aquelas relacionadas com o estacionamento e a sua maior fiscalização porque: «antes da taxa de entrada nas cidades à que apostar numa política de estacionamento séria, algo que ainda não foi feito. Em Londres, onde também se aplicou as taxas, só se chegou a essa situação porque a política de estacionamento falhou». Já o presidente da Câmara de Lisboa, contactado pelo Destak, admite considerar as taxas na entrada da cidade: «com a condição fulcral do valor da taxa reverter integralmente para a melhoria dos transportes públicos e acessibilidades lisboetas.»
O professor universitário põe para já de lado a possibilidade da taxa de entrada e considera que é fundamental não só aumentar o preço do estacionamento como diminuir a oferta, aumentando a quantidade e qualidade dos transportes públicos. «Também é importante não atribuir vários dísticos de estacionamento a cada morador, convinha ser um dístico por moradia», explica ainda José Viegas.
Para a câmara de Lisboa e o seu presidente Carmona Rodrigues, a medida das taxas na entrada na cidade só será considerada «com a condição fulcral do valor da taxa reverter integralmente para a melhoria dos transportes públicos e acessibilidades lisboetas.»
A posição oficial da EMEL neste contexto é contida: esperar para ver quais as decisões futuras dos governantes. Resta agora saber quais serão as decisões efectivas de governo e Câmara de Lisboa.
--
SOLUÇÕES PREVISTAS
Pagamento de taxa de entrada
Já no próximo ano é bem possível que quem queira entrar de carro dentro da cidade de Lisboa tenha de pagar uma taxa monetária. A introdução de taxas de entrada nas cidades para os automobilistas que usem viaturas privadas é apenas uma das medidas que o governo aprovou no início de Novembro, em Conselho de Ministros, e que faz parte do Programa de Actuação para reduzir a dependência de Portugal face ao Petróleo.
Para o executivo português esta decisão irá incentivar a utilização dos transportes públicos de passageiros, onde o governo espera um aumento de 15 a 20% nos próximos cinco anos e assim descongestionar os parques de estacionamento no interior das cidades, como Lisboa. Outra das características desta taxa, que requer depois aprovação das autarquias, está relacionada com as receitas que serão aplicadas integralmente na modernização dos transportes públicos. Para além deste reforço o governo aposta no melhoramento no ordenamento do estacionamento nas grandes cidades.
Trata-se de uma medida arrojada mas que também recolhe críticas como é o caso do presidente da Associação Nacional de Munícipios (ANN), Fernando Ruas, que logo após o anúncio do governo apelidou o uso da taxa de entrada como «uma medida extrema».
O plano governativo, em última instância, visa também a redução da dependência do petróleo em 20% até 2010 e que a factura energética desça em 15%.
Estacionamento em Via Verde
Deixar de ter de ir à pequena máquina (parquímetro) e tirar a senha que permite estacionar o carro durante algumas horas já é possível na EMEL desde o início do ano. Ao adquirir-se títulos de estacionamento pré-comprados que estão disponíveis em mais de 100 pontos de venda (tabacarias, parques EMEL) e que também evitam a necessidade de trocos. Apesar disso, a EMEL pretende já no próximo ano disponibilizar um aparelho que se coloca no carro e funciona como a Via Verde nas auto-estradas. Tudo é activado por um botão.
Ao chegar a um lugar de estacionamento pago, o automobilista activa o dispositivo e quando se vai embora desliga. A EMEL anunciou a iniciativa no final do passado mês de Outubro. Esta é uma medida que poderá suprir as dificuldades criadas pela vandalização e assaltos aos mais de 1700 parquímetros (muitas vezes insuficiente) existentes em Lisboa e que gerem cerca de 39 mil lugares de estacionamento.
Entrevista | Mariano Barreto
Para o jornal Destak ainda quando era semana, em Outubro de 2004.
Protagonista | Mariano Barreto
«Os treinadores não devem ficar muito tempo num clube»
O actual treinador do Marítimo é um homem viajado, que nunca foi treinador principal em Portugal, mas que conheceu o sabor do sucesso nos dois anos que esteve ao serviço da selecção do Gana, levando a selecção aos Jogos Olímpicos de Atenas 2004. Chegou ao clube na segunda jornada e desde então teve quatro vitória consecutivas e está em 4.º lugar no campeonato, à frente do Sporting. No passado fim-de-semana a sua equipa, com uma excelente exibição que mereceu elogios até de Giovanni Trappatoni, empatou com o Benfica (1-1) no Estádio dos Barreiros e o Destak falou com o homem que acha que os treinadores devem ficar pouco tempo nos clubes.
O empate frente ao Benfica é apenas um dos bons resultados que conseguiu ao serviço do Marítimo esta época. Quais os ingredientes fundamentais para estes bons resultados?
A capacidade de resposta que o grupo de trabalho está a ter ao que é proposto. Eles têm melhorado significativamente enquanto equipa porque entenderam o treinador e conseguiram pôr em prática as ideias do projecto que tenho para a equipa. Nem sempre isso acontece e felizmente tem havido até à altura uma boa resposta dos jogadores.
O seu regresso a Portugal, onde nunca foi treinador principal de uma equipa, aconteceu pelo desafio que lhe foi colocado?
O meu regresso não teve a ver directamente com o desafio feito pelo Marítimo. O projecto foi apresentado quando já tinha regressado a Portugal depois de ter saído da selecção do Gana. Vim cá para descansar e matar saudades mas já tinha várias propostas de clubes no estrangeiro e estava decidido a partir novamente. Quando surgiu o projecto do Marítimo acabei por aceitar pela dimensão do clube, as boas condições profissionais e o simbolismo de ter associados por todo o mundo devido a haver muitos emigrantes madeirenses. Além disso, ao escolher o Marítimo, que me oferecia muito menos dinheiro do que os clubes estrangeiros, tinha o privilégio de estar no meu país e encurtar um pouco a saudade que tive neste período. Tenho-me sentido um privilegiado nas minhas escolhas, essencialmente porque posso escolher o meu próximo destino e tenho conseguido estar onde me sinto bem, útil e me identifique com o projecto em que estou inserido. Isso é fundamental para qualquer profissão que se desempenhe.
Quais os seus objectivos para o Marítimo, nesta época e nas seguintes, caso se mantenha como treinador?
Espero deixar o clube com uma dimensão maior, seja pela experiência que transmiti ou pelos resultados. Aliás, penso que a classificação tem de reflectir o que nós fazemos nos clubes e por isso espero conseguir deixar o clube numa boa posição.
Mas pensa sair do clube no final da época?
Sim. Devo ficar apenas esta época. Tive 10 anos no Sporting como adjunto e cheguei à conclusão que os treinadores não devem ficar muito tempo num clube. Não devemos ficar muito colados a uma realidade que é muito própria dos adeptos. Gosto de criar condições de melhoria do clube, dar o meu contributo, enriquecer a minha experiência e em um ou dois anos sair. Penso que esse é o período máximo que um treinador deve-se manter num clube.
Tem algum sonho em particular para a sua carreira? Está nos seus objectivos futuros treinar um dos três clubes de maior expressão em Portugal?
Tenho um sonho fundamental e que tenho vindo a concretizar que é no fim de cada trabalho os jogadores com que trabalhei tornarem-se melhores e incentivar os mais jovens para que possam tornar-se realmente bons. E sinto-me muito feliz ao ver que alguns dos jovens que apoiei há alguns anos são hoje jogadores da selecção nacional. Sinto que está ali um pouco de mim. Relativamente aos clubes de maior dimensão não tenho nenhum objectivo em particular, mas espero até terminar a minha carreira ganhar o campeonato nacional, apesar de não definir um espaço temporal para que isso possa acontecer.
Protagonista | Mariano Barreto
«Os treinadores não devem ficar muito tempo num clube»
O actual treinador do Marítimo é um homem viajado, que nunca foi treinador principal em Portugal, mas que conheceu o sabor do sucesso nos dois anos que esteve ao serviço da selecção do Gana, levando a selecção aos Jogos Olímpicos de Atenas 2004. Chegou ao clube na segunda jornada e desde então teve quatro vitória consecutivas e está em 4.º lugar no campeonato, à frente do Sporting. No passado fim-de-semana a sua equipa, com uma excelente exibição que mereceu elogios até de Giovanni Trappatoni, empatou com o Benfica (1-1) no Estádio dos Barreiros e o Destak falou com o homem que acha que os treinadores devem ficar pouco tempo nos clubes.
O empate frente ao Benfica é apenas um dos bons resultados que conseguiu ao serviço do Marítimo esta época. Quais os ingredientes fundamentais para estes bons resultados?
A capacidade de resposta que o grupo de trabalho está a ter ao que é proposto. Eles têm melhorado significativamente enquanto equipa porque entenderam o treinador e conseguiram pôr em prática as ideias do projecto que tenho para a equipa. Nem sempre isso acontece e felizmente tem havido até à altura uma boa resposta dos jogadores.
O seu regresso a Portugal, onde nunca foi treinador principal de uma equipa, aconteceu pelo desafio que lhe foi colocado?
O meu regresso não teve a ver directamente com o desafio feito pelo Marítimo. O projecto foi apresentado quando já tinha regressado a Portugal depois de ter saído da selecção do Gana. Vim cá para descansar e matar saudades mas já tinha várias propostas de clubes no estrangeiro e estava decidido a partir novamente. Quando surgiu o projecto do Marítimo acabei por aceitar pela dimensão do clube, as boas condições profissionais e o simbolismo de ter associados por todo o mundo devido a haver muitos emigrantes madeirenses. Além disso, ao escolher o Marítimo, que me oferecia muito menos dinheiro do que os clubes estrangeiros, tinha o privilégio de estar no meu país e encurtar um pouco a saudade que tive neste período. Tenho-me sentido um privilegiado nas minhas escolhas, essencialmente porque posso escolher o meu próximo destino e tenho conseguido estar onde me sinto bem, útil e me identifique com o projecto em que estou inserido. Isso é fundamental para qualquer profissão que se desempenhe.
Quais os seus objectivos para o Marítimo, nesta época e nas seguintes, caso se mantenha como treinador?
Espero deixar o clube com uma dimensão maior, seja pela experiência que transmiti ou pelos resultados. Aliás, penso que a classificação tem de reflectir o que nós fazemos nos clubes e por isso espero conseguir deixar o clube numa boa posição.
Mas pensa sair do clube no final da época?
Sim. Devo ficar apenas esta época. Tive 10 anos no Sporting como adjunto e cheguei à conclusão que os treinadores não devem ficar muito tempo num clube. Não devemos ficar muito colados a uma realidade que é muito própria dos adeptos. Gosto de criar condições de melhoria do clube, dar o meu contributo, enriquecer a minha experiência e em um ou dois anos sair. Penso que esse é o período máximo que um treinador deve-se manter num clube.
Tem algum sonho em particular para a sua carreira? Está nos seus objectivos futuros treinar um dos três clubes de maior expressão em Portugal?
Tenho um sonho fundamental e que tenho vindo a concretizar que é no fim de cada trabalho os jogadores com que trabalhei tornarem-se melhores e incentivar os mais jovens para que possam tornar-se realmente bons. E sinto-me muito feliz ao ver que alguns dos jovens que apoiei há alguns anos são hoje jogadores da selecção nacional. Sinto que está ali um pouco de mim. Relativamente aos clubes de maior dimensão não tenho nenhum objectivo em particular, mas espero até terminar a minha carreira ganhar o campeonato nacional, apesar de não definir um espaço temporal para que isso possa acontecer.
Pequena entrevista a Vanessa Fernandes quando ainda não era tão mediática. Para o jornal Destak ainda na sua edição semanal, em 2004.
Protagonista
Vanessa Fernandes
Triatleta olímpica
19 anos
A atleta portuguesa depois de um oitavo lugar nos Jogos Olímpicos conquistou a medalha de ouro na Taça do Mundo do Rio de Janeiro no passado fim-de-semana, um feito que permitiu à filha do antigo ciclista Venceslau Fernandes ascender ao 4.º lugar do ranking mundial.
O que é que aprendeu de mais valioso num ano em que conseguiu atingir tão bons resultados?
Aprendi que é sempre com muito trabalho e dedicação que se consegue atingir os objectivos a nos propomos. Não nos podemos distrair nem nos treinos nem em competição, temos de estar sempre concentrados se queremos ser alguém no desporto e dar bom nome a Portugal.
O seu pai, o antigo ciclista Venceslau Fernandes, em que medida é que foi uma peça importante na sua preparação como triatleta?
Primeiro que tudo foi ele que me pôs no desporto e depois tem-me acompanhado em todas as provas e é sempre ele que fala comigo mesmo antes de competir. É uma peça essencial para mim porque compreende o que é ser atleta e não só me dá conselhos emocionais como técnicos. Às vezes, quando vou ao norte, treinamos juntos a vertente de ciclismo.
O oitavo lugar nos Jogos Olímpicos ainda tão nova fazem-na acreditar que a medalha de ouro é possível? Quais os seus maiores sonhos para a modalidade?
É possível, mas não consigo dizer que vou ganhar. Tenho é vontade de melhorar o oitavo lugar e tenho uma grande margem de progressão porque nesta modalidade dá para estar em competição mais ou menos até aos 30 anos.
Foi uma surpresa para si ter conseguido vencer no Rio de Janeiro? Tem tido o reconhecimento das colegas mais velhas?
Sabia que podia conseguir um bom lugar mas nunca pensei que pudesse vencer. Havia atletas muito boas e o percurso até nem me era muito favorável, mas felizmente consegui ficar em primeiro. As minhas adversárias também ficaram surpreendidas e até me vieram dar os parabéns. Muita coisa mudou este ano, apesar de ser nova levam-me mais a sério e já falo com elas [as adversárias] no decorrer da prova. Também recebi muitos elogios de presidentes de várias federações que estavam lá no Brasil.
Triatlo é uma modalidade muito exigente. Quais são os maiores cuidados que costuma ter antes de uma prova?
Descansar o máximo possível. Hidratar bastante, ingerir muitos hidratos de carbono. Apesar de ter muito cuidado com a alimentação durante todo o ano antes das provas deve-se aumentar os hidratos de carbono e evitar as frutas, por exemplo.
O que é que a fascina no triatlo?
São três modalidades que gosto, mas adoro o ciclismo. Acho que estou bem para o que faço, enquadro-me muito bem no triatlo. Aliás acho que vai ser a modalidade do futuro. Desde que fui para os Jogos o triatlo deu um grande salto em Portugal. Gostava que a forma de encarar o desporto mudasse um pouco por cá, porque quando vamos aos Jogos Olímpicos exigem com muita facilidade medalhas, mas isso não é tudo.
Protagonista
Vanessa Fernandes
Triatleta olímpica
19 anos
A atleta portuguesa depois de um oitavo lugar nos Jogos Olímpicos conquistou a medalha de ouro na Taça do Mundo do Rio de Janeiro no passado fim-de-semana, um feito que permitiu à filha do antigo ciclista Venceslau Fernandes ascender ao 4.º lugar do ranking mundial.
O que é que aprendeu de mais valioso num ano em que conseguiu atingir tão bons resultados?
Aprendi que é sempre com muito trabalho e dedicação que se consegue atingir os objectivos a nos propomos. Não nos podemos distrair nem nos treinos nem em competição, temos de estar sempre concentrados se queremos ser alguém no desporto e dar bom nome a Portugal.
O seu pai, o antigo ciclista Venceslau Fernandes, em que medida é que foi uma peça importante na sua preparação como triatleta?
Primeiro que tudo foi ele que me pôs no desporto e depois tem-me acompanhado em todas as provas e é sempre ele que fala comigo mesmo antes de competir. É uma peça essencial para mim porque compreende o que é ser atleta e não só me dá conselhos emocionais como técnicos. Às vezes, quando vou ao norte, treinamos juntos a vertente de ciclismo.
O oitavo lugar nos Jogos Olímpicos ainda tão nova fazem-na acreditar que a medalha de ouro é possível? Quais os seus maiores sonhos para a modalidade?
É possível, mas não consigo dizer que vou ganhar. Tenho é vontade de melhorar o oitavo lugar e tenho uma grande margem de progressão porque nesta modalidade dá para estar em competição mais ou menos até aos 30 anos.
Foi uma surpresa para si ter conseguido vencer no Rio de Janeiro? Tem tido o reconhecimento das colegas mais velhas?
Sabia que podia conseguir um bom lugar mas nunca pensei que pudesse vencer. Havia atletas muito boas e o percurso até nem me era muito favorável, mas felizmente consegui ficar em primeiro. As minhas adversárias também ficaram surpreendidas e até me vieram dar os parabéns. Muita coisa mudou este ano, apesar de ser nova levam-me mais a sério e já falo com elas [as adversárias] no decorrer da prova. Também recebi muitos elogios de presidentes de várias federações que estavam lá no Brasil.
Triatlo é uma modalidade muito exigente. Quais são os maiores cuidados que costuma ter antes de uma prova?
Descansar o máximo possível. Hidratar bastante, ingerir muitos hidratos de carbono. Apesar de ter muito cuidado com a alimentação durante todo o ano antes das provas deve-se aumentar os hidratos de carbono e evitar as frutas, por exemplo.
O que é que a fascina no triatlo?
São três modalidades que gosto, mas adoro o ciclismo. Acho que estou bem para o que faço, enquadro-me muito bem no triatlo. Aliás acho que vai ser a modalidade do futuro. Desde que fui para os Jogos o triatlo deu um grande salto em Portugal. Gostava que a forma de encarar o desporto mudasse um pouco por cá, porque quando vamos aos Jogos Olímpicos exigem com muita facilidade medalhas, mas isso não é tudo.
Reportagem no feminino
Reportagem escrita para a secção Mulher do jornal Destak quando ainda era um semanal. Em Outubro de 2004. A minha primeira experiência (e única) em perguntar coisas algo pessoais a pessoas desconhecidas na rua. Neste caso foi no centro comercial Vasco da Gama. Acabou por ser uma experiência engraçada, fui bem acolhido pelas mulheres entrevistadas e senti-me uma espécie de psicólogo...
Ser solteira e independente está na moda
Mulheres independentes. Determinadas. Divertem-se quanto baste, sem pressões, nem ciúmes de um marido controlador ou machista. Não se sujeitam a um namorado que não as agrada, são exigentes e fazem por isso. Ser solteira também tem vantagens... descubra-as.
Há quem diga: “mais vale só do que mal acompanhada”. Numa sociedade em que a mulher tem cada vez maior liberdade de escolha, ser solteira não é sinónimo de não ser feliz, pelo contrário. Antigamente, não ter marido a partir de certa idade era grave e frequentemente motivo de estigmatização social («solteirona» ou «encalhada»), hoje em dia pode ser bem divertido.
«Neste momento sou mais feliz como solteira é uma opção que tomei para os próximos anos». Quem o diz é Marisa – 31 anos, engenheira do ambiente – e que, após ter terminado há alguns meses uma relação amorosa, decidiu manter-se solteira porque: «sei que não iria estar muito tempo na relação, agora quero dedicar-me aos meus trabalhos, experimentar tudo que possa e divertir-me com isso».
Marisa tem actualmente três empregos em simultâneo e não se sente, «de forma alguma», amedrontada de não ter nenhuma relação amorosa. «Há muitas outras coisas que me complementam a mim pessoalmente, além disso tenho muitos amigos e prefiro estar como estou», explica com determinação. Nos próximos tempos está planear participar numa operação humanitária no México, onde espera sentir-se bem consigo mesma, ajudar os outros e adquirir experiência de vida.
Uma atitude semelhante tem Sara, bióloga de 28 anos, que enumera assim as vantagens de se ser solteira: «as tarefas domésticas são mais leves, gasta-se menos dinheiro, tem-se mais liberdade nos convívios sociais, não se tem que estar com a família e amigos do namorado ou marido, tem-se maior liberdade sexual e acima de tudo há menos pressão».
E a solidão não se torna um problema? «Não me tenho sentido sozinha, muito porque neste momento ser solteira é o melhor para mim. É uma opção que tomei porque não quis seguir outras relações desgastantes e chatas». Sara, que faz neste momento trabalhos de investigação em biologia, não sente nenhuma pressão para arranjar alguém, mas admite que ainda existe na sociedade. «A sociedade de consumo obriga-nos a sentir pressionados para ter de casar. Quem não entra não é normal, quem entra é, apesar de haver cada vez mais solteiros», admite a bióloga que recentemente irá para Londres trabalhar.
Com 31 anos, Marisa, apesar de se sentir melhor solteira, admite querer ter filhos. «É injusto para qualquer criança não ter pai, por isso, quando quiser assentar vou ter de abdicar de algumas coisas. Tudo para dar o melhor aos meus filhos», explica.
Para Marisa hoje em dia há menos confiança «e em qualquer relação há sempre um pé atrás». Talvez por isso pergunte: «E porque não ser solteira?». Sara também deseja ter filhos «com alguém com quem me entendesse, mas não é algo que procure». Ambas são mulheres de sucesso profissional, determinadas e com espiríto de independência. Moram sozinhas e nem por isso se sentem isoladas. Procuram a felicidade e serem solteiras é o melhor modo, neste momento, de o serem.
--
«Não conseguia fazer nada sem o meu marido»
Com 50 anos, bem cuidados, Olinda Maria, professora e mãe de dois filhos não se consegue imaginar sem o marido, o que contrasta com muitas das jovens solteiras e cada vez mais independentes que existem na sociedade actual. 25 anos de casamento fazem com que a companhia do pai dos seus dois filhos seja essencial, devido ao «sentimento de protecção e de apoio que se tem». «Neste momento não conseguia fazer nada sem o meu marido, dependemos um do outro» explica a professora. A confiança é apontada como fundamental para uma relação sólida, «os jovens hoje em dia têm muita desconfiança e depois a coisa não dá», admite.
Olinda, final
Quando era solteira tinha muitos amigos e divertia-se, mas ela acredita que há um tempo para tudo e a partir da idade adulta deve-se pensar no casamento e levá-lo a sério, «esta malta jovem já não é assim», lamenta.
--
10 melhores formas de engate (fonte: vários sites dedicados ao tema)
Os homens costumam ter frases de engate típicas, como por exemplo: "Tanta carne e eu em jejum" ou "tantas curvas e eu sem travões". Mas hoje em dia as mulheres estão cada vez menos tímidas e também estão prontas para o engate. Conheça as dez melhores formas de engatar um homem, de preferência solteiro.
1 – Divirta-se. A conquista de um novo amor acontece quando acontecer, por isso o melhor é divertir-se bastante enquanto espera por novidades.
2 – Sinta-se confortável. Tem de estar bem consigo mesma para poder apresentar-se no seu melhor e para que alguém se sinta bem consigo.
3 – Seja arrojada. Acredite nos seus sonhos e faça o que puder para os alcançar, não se esqueça de ser você mesma.
4 – Vá de cabeça para um encontro com quem não conhece, mas prepara-se para fugir se não gostar.
5 – Troque olhares, sorrisos com o menos exuberante e terá uma surpresa.
6 – Faça companhia a si mesma e vá para fora.
7 – Celebre com os amigos e peça-lhes que tragam novas amizades, sangue novo é bom.
8 – Faça o primeiro gesto e não espere à lareira que nem uma Gata Borralheira.
9 – Exercite-se. Não apenas as pernas e os braços mas também as formas de aproximação.
10 – Ame-se a si mesma. Ninguém vai gostar assim tanto de si.
--
Ser solteiro é “pior do que fumar”
Estar casado traz de tal forma benefícios à saúde, que os solteiros têm maior risco de morrer do que os fumadores, indica um estudo da Universidade de Warwick (Inglaterra). Ao observar riscos comparativos num período superior a sete anos, os cientistas perceberam que os homens e mulheres casados têm tendência a ter melhor saúde do que os solteiros, cerca de 6%. Tudo isto devido ao “apoio social” de se ter um homem ou uma mulher e ao pior estilo de vida que, segundo o estudo, quando se é solteiro se tem.
Amor à primeira vista existe cientificamente
O amor à primeira vista, de que as pessoas mais românticas costumam falar e acreditar, foi comprovado cientificamente por especialistas da Universidade de Ohio (Estados Unidos). O estudo explica que as pessoas decidem qual o tipo de relação que querem após breves instantes de se encontrarem com outra pessoa. O co-autor do estudo, Artemio Ramirez, explicou que os resultados sugerem que as pessoas não querem perder tempo e por isso é como «uma profecia, fazemos uma previsão instantânea sobre que tipo de relação podemos ter com determinada pessoa».
Ser solteira e independente está na moda
Mulheres independentes. Determinadas. Divertem-se quanto baste, sem pressões, nem ciúmes de um marido controlador ou machista. Não se sujeitam a um namorado que não as agrada, são exigentes e fazem por isso. Ser solteira também tem vantagens... descubra-as.
Há quem diga: “mais vale só do que mal acompanhada”. Numa sociedade em que a mulher tem cada vez maior liberdade de escolha, ser solteira não é sinónimo de não ser feliz, pelo contrário. Antigamente, não ter marido a partir de certa idade era grave e frequentemente motivo de estigmatização social («solteirona» ou «encalhada»), hoje em dia pode ser bem divertido.
«Neste momento sou mais feliz como solteira é uma opção que tomei para os próximos anos». Quem o diz é Marisa – 31 anos, engenheira do ambiente – e que, após ter terminado há alguns meses uma relação amorosa, decidiu manter-se solteira porque: «sei que não iria estar muito tempo na relação, agora quero dedicar-me aos meus trabalhos, experimentar tudo que possa e divertir-me com isso».
Marisa tem actualmente três empregos em simultâneo e não se sente, «de forma alguma», amedrontada de não ter nenhuma relação amorosa. «Há muitas outras coisas que me complementam a mim pessoalmente, além disso tenho muitos amigos e prefiro estar como estou», explica com determinação. Nos próximos tempos está planear participar numa operação humanitária no México, onde espera sentir-se bem consigo mesma, ajudar os outros e adquirir experiência de vida.
Uma atitude semelhante tem Sara, bióloga de 28 anos, que enumera assim as vantagens de se ser solteira: «as tarefas domésticas são mais leves, gasta-se menos dinheiro, tem-se mais liberdade nos convívios sociais, não se tem que estar com a família e amigos do namorado ou marido, tem-se maior liberdade sexual e acima de tudo há menos pressão».
E a solidão não se torna um problema? «Não me tenho sentido sozinha, muito porque neste momento ser solteira é o melhor para mim. É uma opção que tomei porque não quis seguir outras relações desgastantes e chatas». Sara, que faz neste momento trabalhos de investigação em biologia, não sente nenhuma pressão para arranjar alguém, mas admite que ainda existe na sociedade. «A sociedade de consumo obriga-nos a sentir pressionados para ter de casar. Quem não entra não é normal, quem entra é, apesar de haver cada vez mais solteiros», admite a bióloga que recentemente irá para Londres trabalhar.
Com 31 anos, Marisa, apesar de se sentir melhor solteira, admite querer ter filhos. «É injusto para qualquer criança não ter pai, por isso, quando quiser assentar vou ter de abdicar de algumas coisas. Tudo para dar o melhor aos meus filhos», explica.
Para Marisa hoje em dia há menos confiança «e em qualquer relação há sempre um pé atrás». Talvez por isso pergunte: «E porque não ser solteira?». Sara também deseja ter filhos «com alguém com quem me entendesse, mas não é algo que procure». Ambas são mulheres de sucesso profissional, determinadas e com espiríto de independência. Moram sozinhas e nem por isso se sentem isoladas. Procuram a felicidade e serem solteiras é o melhor modo, neste momento, de o serem.
--
«Não conseguia fazer nada sem o meu marido»
Com 50 anos, bem cuidados, Olinda Maria, professora e mãe de dois filhos não se consegue imaginar sem o marido, o que contrasta com muitas das jovens solteiras e cada vez mais independentes que existem na sociedade actual. 25 anos de casamento fazem com que a companhia do pai dos seus dois filhos seja essencial, devido ao «sentimento de protecção e de apoio que se tem». «Neste momento não conseguia fazer nada sem o meu marido, dependemos um do outro» explica a professora. A confiança é apontada como fundamental para uma relação sólida, «os jovens hoje em dia têm muita desconfiança e depois a coisa não dá», admite.
Olinda, final
Quando era solteira tinha muitos amigos e divertia-se, mas ela acredita que há um tempo para tudo e a partir da idade adulta deve-se pensar no casamento e levá-lo a sério, «esta malta jovem já não é assim», lamenta.
--
10 melhores formas de engate (fonte: vários sites dedicados ao tema)
Os homens costumam ter frases de engate típicas, como por exemplo: "Tanta carne e eu em jejum" ou "tantas curvas e eu sem travões". Mas hoje em dia as mulheres estão cada vez menos tímidas e também estão prontas para o engate. Conheça as dez melhores formas de engatar um homem, de preferência solteiro.
1 – Divirta-se. A conquista de um novo amor acontece quando acontecer, por isso o melhor é divertir-se bastante enquanto espera por novidades.
2 – Sinta-se confortável. Tem de estar bem consigo mesma para poder apresentar-se no seu melhor e para que alguém se sinta bem consigo.
3 – Seja arrojada. Acredite nos seus sonhos e faça o que puder para os alcançar, não se esqueça de ser você mesma.
4 – Vá de cabeça para um encontro com quem não conhece, mas prepara-se para fugir se não gostar.
5 – Troque olhares, sorrisos com o menos exuberante e terá uma surpresa.
6 – Faça companhia a si mesma e vá para fora.
7 – Celebre com os amigos e peça-lhes que tragam novas amizades, sangue novo é bom.
8 – Faça o primeiro gesto e não espere à lareira que nem uma Gata Borralheira.
9 – Exercite-se. Não apenas as pernas e os braços mas também as formas de aproximação.
10 – Ame-se a si mesma. Ninguém vai gostar assim tanto de si.
--
Ser solteiro é “pior do que fumar”
Estar casado traz de tal forma benefícios à saúde, que os solteiros têm maior risco de morrer do que os fumadores, indica um estudo da Universidade de Warwick (Inglaterra). Ao observar riscos comparativos num período superior a sete anos, os cientistas perceberam que os homens e mulheres casados têm tendência a ter melhor saúde do que os solteiros, cerca de 6%. Tudo isto devido ao “apoio social” de se ter um homem ou uma mulher e ao pior estilo de vida que, segundo o estudo, quando se é solteiro se tem.
Amor à primeira vista existe cientificamente
O amor à primeira vista, de que as pessoas mais românticas costumam falar e acreditar, foi comprovado cientificamente por especialistas da Universidade de Ohio (Estados Unidos). O estudo explica que as pessoas decidem qual o tipo de relação que querem após breves instantes de se encontrarem com outra pessoa. O co-autor do estudo, Artemio Ramirez, explicou que os resultados sugerem que as pessoas não querem perder tempo e por isso é como «uma profecia, fazemos uma previsão instantânea sobre que tipo de relação podemos ter com determinada pessoa».
Tim Booth | A busca pela essência, até ao "osso"
Entrevista ao ex-vocalista dos James, por telefone. Saiu no Destak semanal em 2004.

Tim Booth adora desafios e detesta monotonia. Três anos após o fim da banda inglesa James, onde foi o vocalista ao longo de duas décadas, Tim Booth aparece com o seu álbum a solo intitulado Bone, onde não renega a herança dos James, isto depois de ter experimentado de tudo um pouco ao longo destes anos. Foi actor, argumentista, DJ e escreveu músicas para outras bandas, mas o destino levou-o novamente à interpretação das suas canções. Portugal é um dos destinos predilectos e regressa agora pela segunda vez este ano – esteve no último festival Sudoeste – para dois concertos, um na próxima terça-feira na Aula Magna, em Lisboa e outro no Porto.
João Tomé
Manteve-se ocupado ao longo destes três anos desde o fim dos James, como actor, argumentista e até como DJ. Como foram essas experiências?
São todas coisas que eu adoro fazer e são desafios. Eu gosto de alternar entre as coisas que gosto de fazer. Se me fartar de estar a fazer um papel no teatro, então faço um guião, ou se estou a fazer música e me farto então muda para outras coisas. Adoro esta diversidade! Acho que isto está relacionado com o facto de trabalhar com o Bryan Eno há demasiado tempo, ele vive uma vida incrível, todos os dias aparecem coisas diferentes. Às vezes é artístico, outras vezes é a música e vai para todo o lado no mundo e faz coisas fantásticas e exóticas e demonstra que não temos de estar presos apenas a um dos nossos gostos, mesmo que adoremos fazê-la, se fizermos durante tempo demais podemos secar nela. É fascinante fazer outras coisas e alternar, não nos fartamos e tudo se torna numa alegria.
Pensa em repetir estas experiências? Sim! Tenho alguns papéis porreiros já previstos para o ano passado em teatro na Inglaterra. E argumento tenho um que vou fazer que deve ir ser utilizado na televisão, que tenho de terminar nas próximas semanas.
Disse recentemente que após os James nunca pensou em seguir carreira a solo, queria apenas escrever canções para os outros. Porquê este regresso, mudou de ideias?
Foi mais por acaso. É que conheci o Lee Baker, comecei a adorar trabalhar com ele e uma coisa levou à outra, não foi pensada antes, a maioria das coisas que faço não costumam estar previstas começo as coisas e se tiver boa sorte andamos para a frente e trabalhamos em alguma coisa interessante. Foi isso que se sucedeu com este album, acabei por cantá-lo porque pareceu a coisa mais óbvia a fazer depois de algum tempo a trabalhar com o Lee.
Sentiu a necessidade quando estava a trabalhar com o Lee de cantar as suas próprias canções? Sim! Eu estava a cantar e a trabalhar nas letras e elas eram tão significantes para mim, e levei-as ao meu editor para as sugerir para serem cantadas por outras pessoas, e ele dizia-me: “Essas letras são tão particulares, não podes fazê-las mais gerais? Se queres que outras pessoas as cantem, tens de escrever mais na generalidade sobre o amor, ou a perda”. Mas as minhas letras são tão estranhas, que era muito difícil arranjar pessoas que fossem certas para as cantar. Alguns cantores até se propuseram em cantar algumas das canções, mas no fim acabei por decidir em cantá-las eu. Significavam tanto que parecia que não as queria deixar ir.
O seu registo é muito próximo dos James, acha que algumas pessoas esperavam um corte mais radical em relação ao passado?
Não sei. Obviamente é a minha voz, a minha melodia, as minhas letras, que era o mesmo com os James e não consigo fugir muito disso. Mas a música é muito diferente, eu penso que é, e o homem que fez a música nem conhecia muito os James, por isso não estava a tentar aproximar-se dos James nem nada, ele ficou longe da música dos James, mas vai haver sempre semelhanças porque eu sou o cantor.
Tem a mesma energia que tinha quando estava nos James? Sente-se mais maduro desde essa altura?
Espero que seja um pouco diferente. Algumas destas canções são bastante imaturas. Algumas são sobre a luxúria, um pouco infantis, mas ainda rockamos, é uma mistura de assuntos.
O que sente que mudou mais na sua música relativamente aos James?É mais na base do baixo e da bateria, o Lee Baker tocou todos os instrumentos neste album, fez toda a bateria, o baixo, a guitarra. Ele é mais um baterista e baixista, interessa-se bastante pela música funk e existe muito mais de “groove” nas canções do que haveria nos James. Essa é a diferença fundamental.
Porque é que o nome deste album é Bone? Por algum motivo em especial?É uma palavra agradável e que fica no ouvido (“catchy”). Tem um certo eufemismo sexual e significa a essência das coisas, quando ficam expostas até ao osso ficamos a saber como são as coisas. Tem muitos significados importantes para mim.
Se pudesse definir o seu album em quatro curtas frases como o definiria? Porquê? Quais os assuntos que aborda mais neste album. Porquê?
Esse é o seu trabalho não o meu. Eu sou o cantor e não gosto muito de falar sobre a música, é como uma forma de lixar a mente para mim. Faço a música muito inocentemente e simplesmente fico inspirado, excitado e apaixonado com o que estou a fazer e as letras são coisas que me estão a chatiar, ou a fascinar, quando estou a escrever e depois seguem o seu curso e ficam com vida própria e tornam-se personagens diferentes e eu deixo-as fazer isso e depois quando me perguntam perguntas de crítico... o crítico não teve nenhum papel na elaboração das músicas e é muito difícil afastar-me e pensar nas músicas, não gosto disso, a parte do crítico para mim não é muito produtiva (risos) e não me ajuda muito. Se formos a ver a tua opinião tem tanto valor como a minha, só que melhor porque vais ter mais distância.
Os James fizeram um concerto de despedida no Coliseu de Lisboa. Portugal é um destino obrigatório em concertos? O que pensa do público português?
Já vou a Portugal há uns 15 anos talvez e até mais novo desde quando era um teenager. É um país tão aberto e sempre fomos muito apreciados aí, sempre nos incentivaram a continuar em tantos sentidos. O público português perceberam o que eram os James muito rapidamente, mais rápido do que qualquer outro país, excepto a Inglaterra e isso é muito importante para mim. Não temos muito dinheiro, por isso, quando vamos a um sítio temos de saber se nos querem mesmo e Portugal é daqueles países que luto desde o início quando planeamos os concertos. Digo sempre que temos de tocar em Portugal.
A canção Down to the Sea é de alguma insatisfação relativamente à sociedade actual, porquê?
Penso que sim. Está relacionado com a americanização da cultura actual, que está a ficar cada vez mais forte. Eu até gosto muito da América, mas não gosto da sua crueza e crueldade da cultura que nos chega até a este lado, não é o melhor da américa que nos chega até aqui e essa canção é definitivamente numa postura chatiada, a procurar uma limpeza, um qualquer baptismo desta porcaria que se passa. Há muitas coisas nessa canção: “Everyones a victim, noone is to blame”, é porque ninguém quer-se responsabilizar com o que se está a passar na nossa cultura.
Ir ao fundo do mar [Down to the Sea], o que é isso? É alguém cometer suícidio? Ou é um renascer? Eu acho que é mais um renascer, uma limpeza. É uma música de descontentamento e de mostrar que a maior disto é tretas.
Mas há muitos lados positivos na cultura americana. Apanhamos o melhor e o pior da televisão americana. Os Sopranos, West Wingm são séries brilhantes, cultura ao mais alto nível, mas também temos a porcaria, como a Coca Cola, o McDonalds. Muita coisa que não presta chega cá e é fascinante. Há alguns dias que aceito bem como as coisas estão a ir neste aspecto, noutros como aquele em que escrevi essa canção que estou lixado com isso.
Como classificaria a indústria musical actual?É uma confusão. É o mesmo problema. Ontem morreu um DJ em Inglaterra que se chama John Peel. John Peel, tinha mais impacto na música neste país do que qualquer banda nos últimos 30 anos. Ele foi brilhante, achava sempre as músicas novas que não eram tocadas e tocava-as até serem tocadas por toda a gente, até que ia procurar mais coisas novas. Ele morreu ontem e ninguém vai conseguir preencher esse lugar neste país. Foi uma grande perda e sinto que estamos em grandes apuros em termos de música nestes países. Agora há os downloads, as editoras tomam cada vez menos riscos. Vão buscar menos pessoas novas e procuram música na América para terem mais sucesso. A maior parte da música é feita para fazer as pessoas famosas ou ricas, não para exprimir as suas almas, ou os seus espirítos, ou os seus corações, ou encontrar respostas para as suas vidas e para mim estas últimas razões são aquelas que levam as pessoas a fazer arte com qualidade. Não apenas porque querem ser famosos e fazer muito dinheiro.
Tim Booth adora desafios e detesta monotonia. Três anos após o fim da banda inglesa James, onde foi o vocalista ao longo de duas décadas, Tim Booth aparece com o seu álbum a solo intitulado Bone, onde não renega a herança dos James, isto depois de ter experimentado de tudo um pouco ao longo destes anos. Foi actor, argumentista, DJ e escreveu músicas para outras bandas, mas o destino levou-o novamente à interpretação das suas canções. Portugal é um dos destinos predilectos e regressa agora pela segunda vez este ano – esteve no último festival Sudoeste – para dois concertos, um na próxima terça-feira na Aula Magna, em Lisboa e outro no Porto.
João Tomé
Manteve-se ocupado ao longo destes três anos desde o fim dos James, como actor, argumentista e até como DJ. Como foram essas experiências?
São todas coisas que eu adoro fazer e são desafios. Eu gosto de alternar entre as coisas que gosto de fazer. Se me fartar de estar a fazer um papel no teatro, então faço um guião, ou se estou a fazer música e me farto então muda para outras coisas. Adoro esta diversidade! Acho que isto está relacionado com o facto de trabalhar com o Bryan Eno há demasiado tempo, ele vive uma vida incrível, todos os dias aparecem coisas diferentes. Às vezes é artístico, outras vezes é a música e vai para todo o lado no mundo e faz coisas fantásticas e exóticas e demonstra que não temos de estar presos apenas a um dos nossos gostos, mesmo que adoremos fazê-la, se fizermos durante tempo demais podemos secar nela. É fascinante fazer outras coisas e alternar, não nos fartamos e tudo se torna numa alegria.
Pensa em repetir estas experiências? Sim! Tenho alguns papéis porreiros já previstos para o ano passado em teatro na Inglaterra. E argumento tenho um que vou fazer que deve ir ser utilizado na televisão, que tenho de terminar nas próximas semanas.
Disse recentemente que após os James nunca pensou em seguir carreira a solo, queria apenas escrever canções para os outros. Porquê este regresso, mudou de ideias?
Foi mais por acaso. É que conheci o Lee Baker, comecei a adorar trabalhar com ele e uma coisa levou à outra, não foi pensada antes, a maioria das coisas que faço não costumam estar previstas começo as coisas e se tiver boa sorte andamos para a frente e trabalhamos em alguma coisa interessante. Foi isso que se sucedeu com este album, acabei por cantá-lo porque pareceu a coisa mais óbvia a fazer depois de algum tempo a trabalhar com o Lee.
Sentiu a necessidade quando estava a trabalhar com o Lee de cantar as suas próprias canções? Sim! Eu estava a cantar e a trabalhar nas letras e elas eram tão significantes para mim, e levei-as ao meu editor para as sugerir para serem cantadas por outras pessoas, e ele dizia-me: “Essas letras são tão particulares, não podes fazê-las mais gerais? Se queres que outras pessoas as cantem, tens de escrever mais na generalidade sobre o amor, ou a perda”. Mas as minhas letras são tão estranhas, que era muito difícil arranjar pessoas que fossem certas para as cantar. Alguns cantores até se propuseram em cantar algumas das canções, mas no fim acabei por decidir em cantá-las eu. Significavam tanto que parecia que não as queria deixar ir.
O seu registo é muito próximo dos James, acha que algumas pessoas esperavam um corte mais radical em relação ao passado?
Não sei. Obviamente é a minha voz, a minha melodia, as minhas letras, que era o mesmo com os James e não consigo fugir muito disso. Mas a música é muito diferente, eu penso que é, e o homem que fez a música nem conhecia muito os James, por isso não estava a tentar aproximar-se dos James nem nada, ele ficou longe da música dos James, mas vai haver sempre semelhanças porque eu sou o cantor.
Tem a mesma energia que tinha quando estava nos James? Sente-se mais maduro desde essa altura?
Espero que seja um pouco diferente. Algumas destas canções são bastante imaturas. Algumas são sobre a luxúria, um pouco infantis, mas ainda rockamos, é uma mistura de assuntos.
O que sente que mudou mais na sua música relativamente aos James?É mais na base do baixo e da bateria, o Lee Baker tocou todos os instrumentos neste album, fez toda a bateria, o baixo, a guitarra. Ele é mais um baterista e baixista, interessa-se bastante pela música funk e existe muito mais de “groove” nas canções do que haveria nos James. Essa é a diferença fundamental.
Porque é que o nome deste album é Bone? Por algum motivo em especial?É uma palavra agradável e que fica no ouvido (“catchy”). Tem um certo eufemismo sexual e significa a essência das coisas, quando ficam expostas até ao osso ficamos a saber como são as coisas. Tem muitos significados importantes para mim.
Se pudesse definir o seu album em quatro curtas frases como o definiria? Porquê? Quais os assuntos que aborda mais neste album. Porquê?
Esse é o seu trabalho não o meu. Eu sou o cantor e não gosto muito de falar sobre a música, é como uma forma de lixar a mente para mim. Faço a música muito inocentemente e simplesmente fico inspirado, excitado e apaixonado com o que estou a fazer e as letras são coisas que me estão a chatiar, ou a fascinar, quando estou a escrever e depois seguem o seu curso e ficam com vida própria e tornam-se personagens diferentes e eu deixo-as fazer isso e depois quando me perguntam perguntas de crítico... o crítico não teve nenhum papel na elaboração das músicas e é muito difícil afastar-me e pensar nas músicas, não gosto disso, a parte do crítico para mim não é muito produtiva (risos) e não me ajuda muito. Se formos a ver a tua opinião tem tanto valor como a minha, só que melhor porque vais ter mais distância.
Os James fizeram um concerto de despedida no Coliseu de Lisboa. Portugal é um destino obrigatório em concertos? O que pensa do público português?
Já vou a Portugal há uns 15 anos talvez e até mais novo desde quando era um teenager. É um país tão aberto e sempre fomos muito apreciados aí, sempre nos incentivaram a continuar em tantos sentidos. O público português perceberam o que eram os James muito rapidamente, mais rápido do que qualquer outro país, excepto a Inglaterra e isso é muito importante para mim. Não temos muito dinheiro, por isso, quando vamos a um sítio temos de saber se nos querem mesmo e Portugal é daqueles países que luto desde o início quando planeamos os concertos. Digo sempre que temos de tocar em Portugal.
A canção Down to the Sea é de alguma insatisfação relativamente à sociedade actual, porquê?
Penso que sim. Está relacionado com a americanização da cultura actual, que está a ficar cada vez mais forte. Eu até gosto muito da América, mas não gosto da sua crueza e crueldade da cultura que nos chega até a este lado, não é o melhor da américa que nos chega até aqui e essa canção é definitivamente numa postura chatiada, a procurar uma limpeza, um qualquer baptismo desta porcaria que se passa. Há muitas coisas nessa canção: “Everyones a victim, noone is to blame”, é porque ninguém quer-se responsabilizar com o que se está a passar na nossa cultura.
Ir ao fundo do mar [Down to the Sea], o que é isso? É alguém cometer suícidio? Ou é um renascer? Eu acho que é mais um renascer, uma limpeza. É uma música de descontentamento e de mostrar que a maior disto é tretas.
Mas há muitos lados positivos na cultura americana. Apanhamos o melhor e o pior da televisão americana. Os Sopranos, West Wingm são séries brilhantes, cultura ao mais alto nível, mas também temos a porcaria, como a Coca Cola, o McDonalds. Muita coisa que não presta chega cá e é fascinante. Há alguns dias que aceito bem como as coisas estão a ir neste aspecto, noutros como aquele em que escrevi essa canção que estou lixado com isso.
Como classificaria a indústria musical actual?É uma confusão. É o mesmo problema. Ontem morreu um DJ em Inglaterra que se chama John Peel. John Peel, tinha mais impacto na música neste país do que qualquer banda nos últimos 30 anos. Ele foi brilhante, achava sempre as músicas novas que não eram tocadas e tocava-as até serem tocadas por toda a gente, até que ia procurar mais coisas novas. Ele morreu ontem e ninguém vai conseguir preencher esse lugar neste país. Foi uma grande perda e sinto que estamos em grandes apuros em termos de música nestes países. Agora há os downloads, as editoras tomam cada vez menos riscos. Vão buscar menos pessoas novas e procuram música na América para terem mais sucesso. A maior parte da música é feita para fazer as pessoas famosas ou ricas, não para exprimir as suas almas, ou os seus espirítos, ou os seus corações, ou encontrar respostas para as suas vidas e para mim estas últimas razões são aquelas que levam as pessoas a fazer arte com qualidade. Não apenas porque querem ser famosos e fazer muito dinheiro.
Entrevista | Gonçalo Ribeiro Telles
Uma das primeiras entrevistas mais longas que fiz e uma das que mais gozo me deu fazer e foi por telefone - teria sido bem melhor em pessoa. Ribeiro Telles tinha muito para dizer e eu ainda muito para aprender. Saiu em duas páginas do Destak semanal em 2004.

Imagem da National Geographic portuguesa
«O problema é mais grave do que se pensa»
A poluição urbana é um problema das cidades modernas e que vai condicionar a vida das gerações futuras. Com 81 anos, o arquitecto paisagista Gonçalo Ribeito Telles já foi secretário de Estado, ministro, vereador e deputado e é um acérrimo defensor do ambiente. O autor da principal legislação ambiental do país, explicou ao Destak que a maior parte das medidas que estão a ser tomadas pelas autoridades são erradas e que para uma melhor qualidade de vida e ambiente à-que apostar numa política de reorganização urbana, evitando a entrada de carros nas grandes cidades. É o nosso futuro que está em causa quando se prejudica o ambiente.
por João Tomé
[publicado no jornal Destak, em Setembro 2004 - versão aumentada]
As cidades portuguesas estão cheias de carros e o aumento de combustíveis este ano chegou mesmo a aumentar 3% no primeiro semestre. Para si, a que se deve este aumento no uso de combustíveis mesmo depois dos preços terem aumentado 12,4%?
Tudo isso é uma consequência da forma como as cidades crescem, e do modelo de crescimento urbano que aplicamos. A cidades estão com tantos carros e isso só aumento também devido ao grande apoio e incentivo que o transporte privado tem tido pelos responsáveis das câmaras e do país. No Algarve, por exemplo, todas as vias entre os lotes de aldeias turísticas de construção não tem sequer espaço para a circulação de peões e bicicletas. São faixas de asfalto com seis metros de largura e 65 centímetros de passeios de cada lado. Isto incentiva a que se ande só de automóvel, ninguém anda nem passeia a pé ou de bicicleta, enfim, numa zona turística.
Lisboa, por exemplo, enquanto não incentivar uma política de corredores verdes e circulação de bicicletas e de peões na cidade não tem solução em termos, nem de qualidade de vida nem de recreio.
Que doenças ou dificuldades de saúde pode criar a poluição urbana?
Pode atacar as vias respiratórias, que é muito grave, e ainda existe outro problema que é a secura estival. É provocada pelo excesso de temperatura, nos meses quentes nas cidades porque não há um regulador indispensável na cidade que é a vegetação. Quando estamos a ter uma política de fazer parques de estacionamento dentro dos zonas interiores da cidade, dentro dos quintais, em todo o lado, estamos a prejudicar muito o problema de saúde na cidade.
No que diz respeito à poluição urbana, quais as medidas a curto prazo e mais urgentes a adoptar?
O calor é provocado porque só existem superficies impermeáveis, que não respiram, e faltam as superficies permeáveis como a vegetação, que respiram. Portanto, a temperatura aumenta desmesuradamente, porque a radiação das paredes é muito grande e não tem o necessário contrabalançar do sistema natural e da vegetação como se faz hoje em muitas das cidades europeias. Ou seja, isto vai “morrer” sufocado no Verão e “morrer” inundado no Inverno.
Além do mais, não pode haver tantos parques de estacionamento, principalmente subterrâneos, nem a circulação intensa que hoje temos. Não temos já divisas para pagar a energia que vem de fora. O problema é muito mais grave do que se pensa e é muito grave também em termos de qualidade e de abastecimento alimentar.
Os transportes públicos em Lisboa não funcionam porque há muitos automóveis que vêm para a cidade com uma pessoa e também não vêm nos transportes públicos porque demoram muito tempo.
Lisboa tem todo um plano feito e estudado para uma circulação de bicicletas em toda a cidade, que não foi aplicado porque não interessa. Têm de ser feitos corredores especiais integrados na vegetação e isso diminui a possibilidade da construção, coisa que muitos não querem.
E a longo prazo?
É modificar o urbanismo zomado por grandes concentrações de construções e ausência de corredores, transformá-lo num urbanismo e planeamento sistémico. Por exemplo, temos de tratar do problema da circulação da água, não podemos ter espaços verdes a brincar aos parques, que já não se usam em lado nenhum. Hoje têm de ser criados nos melhores sitios para que a vegetação cresça, mas o que acontece é que são construidos com uma porcaria de arranjos exteriores e de parquesinhos que são artificiais e que custam muito dinheiro para conservar e não têm a extensão que possibilite um melhor recreio e melhor qualidade de verde.
A nível de planeamento continua a haver poucos espaços verdes, será que essa situação faz parte da mentalidade portuguesa?
Não é disso que se trata. O que se passa é que há uma lei que não é cumprida que é a número 399, de 22 de Setembro, que diz que todos os munícipios tem de ter, com base do planeamento, uma estrutura ecológica municipal. Onde é que ela está? Não existe em nenhum munícipio. Trata-se de uma estrutura ecológica que mete todas as formas do sistema natural. Desde os bosques, às agriculturas dos vales, às encostas, aos espaços mais de recreio, às circulações de peões e bicicletas, não é um somatória de jardins e parques é algo mais, que está já a ser feito na maior parte das cidades, em França, na Alemanha, na Holanda. Além disso, também há tantos automóveis privados e tantas casas vazias.
Somos pouco preocupados na generalidade com o ambiente?
Não somos nós que não somos preocupados. Isto tem a ver com as fortunas que se fazem em Portugal e que hoje são muitas, que se fazem há custa da especulação urbana. É a política global que está errada, que é da responsabilidade dos governos e das autarquias que é quem comanda o processo de desenvolvimento.
Está neste momento a realizar um projecto de recuperação dos jardins da Gulbenkian. Como se recupera um jardim, o que envolve esse processo?
Eu estou a fazer exactamente o que deve ser feito nos serviços que existem, que é recuperá-los para uma economia mais natural que implique uma situação estável da vegetação e não uma situação artificial, que é o que se está a fazer por todo o lado na Europa. Os relvados nos parques públicos não são artificiais, são prados. Toda a parte de arborização e das redes são bosques, principalmente com as árvores do local, indígenas. Para saber o que envolve o processo de uma forma prática, só mesmo lá indo ver à Gulbenkian. Um jardim daqueles é uma questão de concepção e não apenas de flores. O mais importante num jardim acaba por ser a manutenção e conservação e por isso recuperar um jardim demora a eternidade. Cá desligou-se a concepção de jardins da sua manutenção, como se fossem casas ou edificios. O sistema natural desses espaços está em permanente evolução e a manutenção tem de acompanhá-la, que é o crescimento das árvores, dos prados. A manutenção não pode procurar que aquilo tudo seja um cenário estático.
As melhores plantas a plantar não digo. Não é para amadores.
Qual a obra de que mais se orgulha?
É o que não está feito. O que foi projectado e não está realizado. E depois há algumas coisas que foram destruidas pela manutenção, pela incompreensão do que era aquilo. Outras estão meio degradadas, como algumas zonas em Lisboa: o parque de São Jerónimo em Belém. Outras estão em vias de ser degradadas como o alto do parque Eduardo VII, onde se aplicou o sistema actual de manutenção, que leva à degradação.
Qual a obra que mais gostaria de fazer?
A obra do sistema natural do homem, principalmente nas zonas onde que ele está instalado, que é nas grandes cidades, nas áreas metropolitanas. É uma obra colectiva, não tem apenas a ver com uma pessoa, porque para continuar e manter essa obra têm de vir outras pessoas para a continuar no tempo. Exemplo disso são os jardins da Gulbenkian, que estavam a ser completamente destruidos por uma manutenção tradicional e clássica que levava a que ficasse de uma forma estática. Em bom tempo estamos a organizar para que o jardim possa ter a evolução natural, que acompanhe o desenvolvimento das árvores, dos maciços, a situação das clareiras dos relvados. Aquilo estava a ser destruído pela manutenção, como estão a ser todos os jardins de Lisboa.
Como tem visto a abordagem da câmara aos assuntos ambientais? Estão no bom caminho?
Não tem abordado coisa nenhuma! Os assuntos ambientais dizem respeito à construção da cidade e não tem sido feito nada nesse aspecto. Por exemplo, o problema de não se ter feito o corredor e a recuperação da ribeira da Alcântara – em que já está um projecto feito – é um situação ambiental gravíssima, não querem porque preferem construir na zona onde passa a ribeira. A câmara não tem contribuido para estas questões porque não as percebe.
E sobre o túnel do marquês, é necessário?
Eu acho que não era necessário para coisa nenhuma, há outras obras mais importantes, a unica utilidade que o túnel tem é ser visível.
Será prejudicial a nivel ambiental?
Tudo o que não é feito de forma organizada em termos de território é sempre prejudicial para o ambiente e gera poluição. Não traz vantagens, portanto é contrário a um bom ambiente. Gera mais carros na cidade e confusão.
E a recuperação de Monsanto? Como vê esta medida?
Monsanto não tinha solo. O principal responsável foi o engenheiro Rodrigo, que para fazer solo teve de colocar plantas pioneiras, as que haviam no país, para tentar uma recuperação do solo, porque sem solo bom não há vegetação. A recuperação foi feita e as plantas que fizeram essa recuperação e criaram matéria orgânica, hoje estão a ser destruídas pela própria vegetação natural dos carvalhos, das pistáceas, e tudo isso que está a aparecer com grande força. Está melhor do que estava, agora é preciso que deixem avançar a vegetação natural e que auxiliem as plantas pioneiras, não deixando avançar as plantas invasoras. Foi uma obra de 30 anos da própria natureza.
Quem são para si as pessoas mais capazes do ponto de vista ambiental em Portugal?
Parte das entidades responsáveis terem o bom senso suficiente e conhecimento na matéria, que não têm, para irem ao encontro daquilo que as pessoas desejam e não andar a criar embustes, a enganá-las, com esses arranjos, de rotundas, de arranjos exteriores a grandes urbanizações, isso tudo é para deitar fora. Há bastantes pessoas capazes cá, arquitectos paisagistas a trabalhar bem, só que também há muitas dificuldades.
Qual o seu sonho para Portugal de um ponto de vista ambiental?
É a recuperação da agricultura em todo o país. Não há ambiente possível sem recuperarmos por todo o país uma agricultura diversificada, de tipo mediterrânico, polivalente que integre depois os espaços urbanos. Hoje não há divisão entre espaços urbanos e espaços rurais, isso acabou, não há fronteiras. Tem de se interligar, como foi na origem, um com o outro. O planeamento tem de abranger os dois aspectos. Há que, de uma forma sábia, articular tanto o sistema natural que tem a agricultura, o recreio, as matas, como o sistema construido que tem os edifícios e os arruamentos. Hoje as cidades não estão dentro de muralhas nem respeitam limites administrativos, esses limites acabaram. É uma ocupação do território que integra o sistema de abrigo, que é o edificado, com o sistema natural (agricultura, pastagens, matas e não jardins da celeste artificiais). Se não fizermos isto estamos a arranjar um artificialismo que nos vai sair muito caro.

Imagem da National Geographic portuguesa
«O problema é mais grave do que se pensa»
A poluição urbana é um problema das cidades modernas e que vai condicionar a vida das gerações futuras. Com 81 anos, o arquitecto paisagista Gonçalo Ribeito Telles já foi secretário de Estado, ministro, vereador e deputado e é um acérrimo defensor do ambiente. O autor da principal legislação ambiental do país, explicou ao Destak que a maior parte das medidas que estão a ser tomadas pelas autoridades são erradas e que para uma melhor qualidade de vida e ambiente à-que apostar numa política de reorganização urbana, evitando a entrada de carros nas grandes cidades. É o nosso futuro que está em causa quando se prejudica o ambiente.
por João Tomé
[publicado no jornal Destak, em Setembro 2004 - versão aumentada]
As cidades portuguesas estão cheias de carros e o aumento de combustíveis este ano chegou mesmo a aumentar 3% no primeiro semestre. Para si, a que se deve este aumento no uso de combustíveis mesmo depois dos preços terem aumentado 12,4%?
Tudo isso é uma consequência da forma como as cidades crescem, e do modelo de crescimento urbano que aplicamos. A cidades estão com tantos carros e isso só aumento também devido ao grande apoio e incentivo que o transporte privado tem tido pelos responsáveis das câmaras e do país. No Algarve, por exemplo, todas as vias entre os lotes de aldeias turísticas de construção não tem sequer espaço para a circulação de peões e bicicletas. São faixas de asfalto com seis metros de largura e 65 centímetros de passeios de cada lado. Isto incentiva a que se ande só de automóvel, ninguém anda nem passeia a pé ou de bicicleta, enfim, numa zona turística.
Lisboa, por exemplo, enquanto não incentivar uma política de corredores verdes e circulação de bicicletas e de peões na cidade não tem solução em termos, nem de qualidade de vida nem de recreio.
Que doenças ou dificuldades de saúde pode criar a poluição urbana?
Pode atacar as vias respiratórias, que é muito grave, e ainda existe outro problema que é a secura estival. É provocada pelo excesso de temperatura, nos meses quentes nas cidades porque não há um regulador indispensável na cidade que é a vegetação. Quando estamos a ter uma política de fazer parques de estacionamento dentro dos zonas interiores da cidade, dentro dos quintais, em todo o lado, estamos a prejudicar muito o problema de saúde na cidade.
No que diz respeito à poluição urbana, quais as medidas a curto prazo e mais urgentes a adoptar?
O calor é provocado porque só existem superficies impermeáveis, que não respiram, e faltam as superficies permeáveis como a vegetação, que respiram. Portanto, a temperatura aumenta desmesuradamente, porque a radiação das paredes é muito grande e não tem o necessário contrabalançar do sistema natural e da vegetação como se faz hoje em muitas das cidades europeias. Ou seja, isto vai “morrer” sufocado no Verão e “morrer” inundado no Inverno.
Além do mais, não pode haver tantos parques de estacionamento, principalmente subterrâneos, nem a circulação intensa que hoje temos. Não temos já divisas para pagar a energia que vem de fora. O problema é muito mais grave do que se pensa e é muito grave também em termos de qualidade e de abastecimento alimentar.
Os transportes públicos em Lisboa não funcionam porque há muitos automóveis que vêm para a cidade com uma pessoa e também não vêm nos transportes públicos porque demoram muito tempo.
Lisboa tem todo um plano feito e estudado para uma circulação de bicicletas em toda a cidade, que não foi aplicado porque não interessa. Têm de ser feitos corredores especiais integrados na vegetação e isso diminui a possibilidade da construção, coisa que muitos não querem.
E a longo prazo?
É modificar o urbanismo zomado por grandes concentrações de construções e ausência de corredores, transformá-lo num urbanismo e planeamento sistémico. Por exemplo, temos de tratar do problema da circulação da água, não podemos ter espaços verdes a brincar aos parques, que já não se usam em lado nenhum. Hoje têm de ser criados nos melhores sitios para que a vegetação cresça, mas o que acontece é que são construidos com uma porcaria de arranjos exteriores e de parquesinhos que são artificiais e que custam muito dinheiro para conservar e não têm a extensão que possibilite um melhor recreio e melhor qualidade de verde.
A nível de planeamento continua a haver poucos espaços verdes, será que essa situação faz parte da mentalidade portuguesa?
Não é disso que se trata. O que se passa é que há uma lei que não é cumprida que é a número 399, de 22 de Setembro, que diz que todos os munícipios tem de ter, com base do planeamento, uma estrutura ecológica municipal. Onde é que ela está? Não existe em nenhum munícipio. Trata-se de uma estrutura ecológica que mete todas as formas do sistema natural. Desde os bosques, às agriculturas dos vales, às encostas, aos espaços mais de recreio, às circulações de peões e bicicletas, não é um somatória de jardins e parques é algo mais, que está já a ser feito na maior parte das cidades, em França, na Alemanha, na Holanda. Além disso, também há tantos automóveis privados e tantas casas vazias.
Somos pouco preocupados na generalidade com o ambiente?
Não somos nós que não somos preocupados. Isto tem a ver com as fortunas que se fazem em Portugal e que hoje são muitas, que se fazem há custa da especulação urbana. É a política global que está errada, que é da responsabilidade dos governos e das autarquias que é quem comanda o processo de desenvolvimento.
Está neste momento a realizar um projecto de recuperação dos jardins da Gulbenkian. Como se recupera um jardim, o que envolve esse processo?
Eu estou a fazer exactamente o que deve ser feito nos serviços que existem, que é recuperá-los para uma economia mais natural que implique uma situação estável da vegetação e não uma situação artificial, que é o que se está a fazer por todo o lado na Europa. Os relvados nos parques públicos não são artificiais, são prados. Toda a parte de arborização e das redes são bosques, principalmente com as árvores do local, indígenas. Para saber o que envolve o processo de uma forma prática, só mesmo lá indo ver à Gulbenkian. Um jardim daqueles é uma questão de concepção e não apenas de flores. O mais importante num jardim acaba por ser a manutenção e conservação e por isso recuperar um jardim demora a eternidade. Cá desligou-se a concepção de jardins da sua manutenção, como se fossem casas ou edificios. O sistema natural desses espaços está em permanente evolução e a manutenção tem de acompanhá-la, que é o crescimento das árvores, dos prados. A manutenção não pode procurar que aquilo tudo seja um cenário estático.
As melhores plantas a plantar não digo. Não é para amadores.
Qual a obra de que mais se orgulha?
É o que não está feito. O que foi projectado e não está realizado. E depois há algumas coisas que foram destruidas pela manutenção, pela incompreensão do que era aquilo. Outras estão meio degradadas, como algumas zonas em Lisboa: o parque de São Jerónimo em Belém. Outras estão em vias de ser degradadas como o alto do parque Eduardo VII, onde se aplicou o sistema actual de manutenção, que leva à degradação.
Qual a obra que mais gostaria de fazer?
A obra do sistema natural do homem, principalmente nas zonas onde que ele está instalado, que é nas grandes cidades, nas áreas metropolitanas. É uma obra colectiva, não tem apenas a ver com uma pessoa, porque para continuar e manter essa obra têm de vir outras pessoas para a continuar no tempo. Exemplo disso são os jardins da Gulbenkian, que estavam a ser completamente destruidos por uma manutenção tradicional e clássica que levava a que ficasse de uma forma estática. Em bom tempo estamos a organizar para que o jardim possa ter a evolução natural, que acompanhe o desenvolvimento das árvores, dos maciços, a situação das clareiras dos relvados. Aquilo estava a ser destruído pela manutenção, como estão a ser todos os jardins de Lisboa.
Como tem visto a abordagem da câmara aos assuntos ambientais? Estão no bom caminho?
Não tem abordado coisa nenhuma! Os assuntos ambientais dizem respeito à construção da cidade e não tem sido feito nada nesse aspecto. Por exemplo, o problema de não se ter feito o corredor e a recuperação da ribeira da Alcântara – em que já está um projecto feito – é um situação ambiental gravíssima, não querem porque preferem construir na zona onde passa a ribeira. A câmara não tem contribuido para estas questões porque não as percebe.
E sobre o túnel do marquês, é necessário?
Eu acho que não era necessário para coisa nenhuma, há outras obras mais importantes, a unica utilidade que o túnel tem é ser visível.
Será prejudicial a nivel ambiental?
Tudo o que não é feito de forma organizada em termos de território é sempre prejudicial para o ambiente e gera poluição. Não traz vantagens, portanto é contrário a um bom ambiente. Gera mais carros na cidade e confusão.
E a recuperação de Monsanto? Como vê esta medida?
Monsanto não tinha solo. O principal responsável foi o engenheiro Rodrigo, que para fazer solo teve de colocar plantas pioneiras, as que haviam no país, para tentar uma recuperação do solo, porque sem solo bom não há vegetação. A recuperação foi feita e as plantas que fizeram essa recuperação e criaram matéria orgânica, hoje estão a ser destruídas pela própria vegetação natural dos carvalhos, das pistáceas, e tudo isso que está a aparecer com grande força. Está melhor do que estava, agora é preciso que deixem avançar a vegetação natural e que auxiliem as plantas pioneiras, não deixando avançar as plantas invasoras. Foi uma obra de 30 anos da própria natureza.
Quem são para si as pessoas mais capazes do ponto de vista ambiental em Portugal?
Parte das entidades responsáveis terem o bom senso suficiente e conhecimento na matéria, que não têm, para irem ao encontro daquilo que as pessoas desejam e não andar a criar embustes, a enganá-las, com esses arranjos, de rotundas, de arranjos exteriores a grandes urbanizações, isso tudo é para deitar fora. Há bastantes pessoas capazes cá, arquitectos paisagistas a trabalhar bem, só que também há muitas dificuldades.
Qual o seu sonho para Portugal de um ponto de vista ambiental?
É a recuperação da agricultura em todo o país. Não há ambiente possível sem recuperarmos por todo o país uma agricultura diversificada, de tipo mediterrânico, polivalente que integre depois os espaços urbanos. Hoje não há divisão entre espaços urbanos e espaços rurais, isso acabou, não há fronteiras. Tem de se interligar, como foi na origem, um com o outro. O planeamento tem de abranger os dois aspectos. Há que, de uma forma sábia, articular tanto o sistema natural que tem a agricultura, o recreio, as matas, como o sistema construido que tem os edifícios e os arruamentos. Hoje as cidades não estão dentro de muralhas nem respeitam limites administrativos, esses limites acabaram. É uma ocupação do território que integra o sistema de abrigo, que é o edificado, com o sistema natural (agricultura, pastagens, matas e não jardins da celeste artificiais). Se não fizermos isto estamos a arranjar um artificialismo que nos vai sair muito caro.
Entrevista | Kate Walsh
Uma das primeiras entrevistas a gente da música que fiz. Por telefone. Não correu mal, não correu bem. Ela tinha pouco para dizer e eu poucos minutos para fazê-la falar. Foi em Setembro de 2004. Saiu no Destak, quando ainda era um semanário.
Uma voz de anjo inglesa
Há quem diga que tem uma voz de anjo. Kate Walsh tem 21 anos e apesar de vir do frio de Inglaterra canta músicas quentes, melódicas e com uma calma tranquilizante. O seu album de estreia, Clocktower Park, valeu-lhe muitos elogios e faz dela uma promessa do Reino Unido. Com muitas parecenças e influências de Tori Amos e Joni Mitchell, ela é autêntica e tem uma música muito própria. O que pretende é simples: transmitir muita emoção nas letras e na voz. Ainda vive em casa dos pais, numa pequena localidade inglesa em Essex e com uma voz muito doce e jovem, bem diferente quando canta, falou com o Destak esta semana. Kate actua esta noite, em Lisboa, no bar Santiago Alquimista, pelas 22h, depois de já cá ter estado em Junho.
por João Tomé
Porquê o regresso a Portugal depois de cá ter estado há tão pouco tempo? Já conhece o país?
Regresso porque as pessoas reagiram muito bem ao meu álbum e, por isso, vamos tentar publicitar a minha música e fazer com que mais pessoas conheçam as músicas. Antes de ir a Portugal em Junho não sabia nada do país, mas gostei muito, até aprendi um pouco de português. Estou ansiosa por tocar aí novamente.
Quais as suas influências musicais? Jewel, Tori Hamos, Joni Mitchell são nomes que aparecem associados à sua música, concorda com a associação?
Sem dúvida. Não tenho a certeza quanto à Jewel, apesar de perceber porque as pessoas me associam a ela, mas Tori Hamos foi mesmo a razão que me levou a começar a escrever letras aos 14 anos, e não apenas música como fazia desde os cinco anos. A Joni Mitchell também é uma referência, por isso sinto-me orgulhosa por associarem o meu nome ao delas. Elas influenciaram-me porque gostam muito de utilizar a voz, são evoluídas ao nível vocal e harmonioso, não estão apenas a cantar por cantar. Exprimem as emoções com a voz e é isso que eu quero fazer.
A sua cidade, Burnham (zona de Essex), no Reino Unido, é uma das suas maiores inspirações para as músicas?
Uso nas minhas letras as minhas experiências na cidade, porque até há poucos anos tudo o que eu conhecia era Burnham, esse era todo o meu mundo e tudo o que me aconteceu foi lá. Mas os temas que estão nas minhas músicas são tanto reais como ficcionais. Os poemas são sempre criados com realidade e ficção, para serem mais emocionantes. São temas baseados na minha vida como adolescente e como foi estar a crescer.
O que deseja transmitir com a sua música, com as suas letras? Para quando o próximo álbum de originais?
Tento fazer com que as pessoas percebam um pouco como sou e o que passei, mas também gosto de pensar que relacionam as músicas às suas vidas. Em relação ao próximo álbum não sei datas, mas acho que já escrevi as letras todas, estou desejosa de ir para o estúdio. Tenho escrito muitas músicas ultimamente, estou constantemente a escrever é uma paixão que tenho desde os 14 anos.
Foi fácil conseguir fazer impor a sua música, conseguir uma editora?
Eu tive muita sorte com tudo. Não sabia que podia cantar, mas o meu produtor, Russell, incitou-me a cantar e convenceu-me a fazer um álbum com ele. Depois, dos distribuidores à editora, todos gostaram bastante das canções e acabou por ser muito fácil para mim, tive muita sorte.
Que tipo de pessoas pensa que ouvem a sua música?
Gosto de pensar que qualquer tipo de pessoa pode gostar de ouvir o meu álbum, por razões diferentes. Sei que muitas pessoas que o ouviram e compraram são de diferentes contextos e idades. É bom poder cantar para pessoas diferentes. Com os concertos tenho visto isso, pessoas novas e mais velhas, talvez por a minha música ser mais calma.
Uma voz de anjo inglesa
Há quem diga que tem uma voz de anjo. Kate Walsh tem 21 anos e apesar de vir do frio de Inglaterra canta músicas quentes, melódicas e com uma calma tranquilizante. O seu album de estreia, Clocktower Park, valeu-lhe muitos elogios e faz dela uma promessa do Reino Unido. Com muitas parecenças e influências de Tori Amos e Joni Mitchell, ela é autêntica e tem uma música muito própria. O que pretende é simples: transmitir muita emoção nas letras e na voz. Ainda vive em casa dos pais, numa pequena localidade inglesa em Essex e com uma voz muito doce e jovem, bem diferente quando canta, falou com o Destak esta semana. Kate actua esta noite, em Lisboa, no bar Santiago Alquimista, pelas 22h, depois de já cá ter estado em Junho.
por João Tomé
Porquê o regresso a Portugal depois de cá ter estado há tão pouco tempo? Já conhece o país?
Regresso porque as pessoas reagiram muito bem ao meu álbum e, por isso, vamos tentar publicitar a minha música e fazer com que mais pessoas conheçam as músicas. Antes de ir a Portugal em Junho não sabia nada do país, mas gostei muito, até aprendi um pouco de português. Estou ansiosa por tocar aí novamente.
Quais as suas influências musicais? Jewel, Tori Hamos, Joni Mitchell são nomes que aparecem associados à sua música, concorda com a associação?
Sem dúvida. Não tenho a certeza quanto à Jewel, apesar de perceber porque as pessoas me associam a ela, mas Tori Hamos foi mesmo a razão que me levou a começar a escrever letras aos 14 anos, e não apenas música como fazia desde os cinco anos. A Joni Mitchell também é uma referência, por isso sinto-me orgulhosa por associarem o meu nome ao delas. Elas influenciaram-me porque gostam muito de utilizar a voz, são evoluídas ao nível vocal e harmonioso, não estão apenas a cantar por cantar. Exprimem as emoções com a voz e é isso que eu quero fazer.
A sua cidade, Burnham (zona de Essex), no Reino Unido, é uma das suas maiores inspirações para as músicas?
Uso nas minhas letras as minhas experiências na cidade, porque até há poucos anos tudo o que eu conhecia era Burnham, esse era todo o meu mundo e tudo o que me aconteceu foi lá. Mas os temas que estão nas minhas músicas são tanto reais como ficcionais. Os poemas são sempre criados com realidade e ficção, para serem mais emocionantes. São temas baseados na minha vida como adolescente e como foi estar a crescer.
O que deseja transmitir com a sua música, com as suas letras? Para quando o próximo álbum de originais?
Tento fazer com que as pessoas percebam um pouco como sou e o que passei, mas também gosto de pensar que relacionam as músicas às suas vidas. Em relação ao próximo álbum não sei datas, mas acho que já escrevi as letras todas, estou desejosa de ir para o estúdio. Tenho escrito muitas músicas ultimamente, estou constantemente a escrever é uma paixão que tenho desde os 14 anos.
Foi fácil conseguir fazer impor a sua música, conseguir uma editora?
Eu tive muita sorte com tudo. Não sabia que podia cantar, mas o meu produtor, Russell, incitou-me a cantar e convenceu-me a fazer um álbum com ele. Depois, dos distribuidores à editora, todos gostaram bastante das canções e acabou por ser muito fácil para mim, tive muita sorte.
Que tipo de pessoas pensa que ouvem a sua música?
Gosto de pensar que qualquer tipo de pessoa pode gostar de ouvir o meu álbum, por razões diferentes. Sei que muitas pessoas que o ouviram e compraram são de diferentes contextos e idades. É bom poder cantar para pessoas diferentes. Com os concertos tenho visto isso, pessoas novas e mais velhas, talvez por a minha música ser mais calma.
Ilha de Saturno
Texto escrito em 2004. Pornograficamente longo. Ainda quando não dominava a técnica do resumo e da selecção do melhor.
Viagem ao Passado Natural
Ilha de Saturno. Ilha do Sonho. Isolada ainda hoje do “mundo” mais civilizado, as Berlengas formaram-se à cerca de 280 milhões de anos e são um fragmento do continente americano. Com pequenas praias, de água cristalina, transparente. Com um forte construído em cima de uma rocha, grutas “mágicas” e natureza ainda pura, as mais de 22 mil gaivotas são quem domina a ilha. Nas Berlengas estamos dentro do Atlântico e parece que longe de Portugal e Europa. E o mar não termina. Tudo isto a 5,4 milhas (10 km) de Peniche. Fotografias e texto, João Tomé.
Água cristalina e transparente - com 4 e 5 metros de profundidade vê-se sempre o fundo -, praias pequenas, natureza pura, formas únicas nas rochas e grutas “mágicas” fazem parte da beleza natural da ilha Berlenga. Uma viagem curta, mas que dificilmente se esquece.
10h45. «Vocês vão adorar a ilha, a água é linda!» A expectativa cresce à medida que Filipe - professor estagiário de geografia de 22 anos, das Caldas da Rainha - vai explicando a três amigas o “paraíso das Berlengas” enquanto o barco parte do porto de Peniche. Duas vezes bastaram para Filipe ficar encantado pela Ilha de Saturno – assim chamavam à Berlenga os historiadores da antiguidade. Repleta de muito mar, aves, granito róseo, vento e sonho, no arquipélago natural e selvagem das Berlengas respira-se liberdade e pisa-se granito americano.
A viagem ao conjunto de ilhéus – composto por uma ilha habitável, a Berlenga Grande, ilhéus mais pequenos, os Farilhões e os rochedos Estelas (que não se vêem do continente, por estarem tapadas pela Berlenga) – constitui uma pequena aventura. A principal embarcação para a ilha no Verão, Cabo Avelar Pessoa, balanceia de um lado para o outro, num vai e vem que lembra as diversões mais emocionantes de parques temáticos. “Oh my god, this is fantastic! Ah!” Ingleses, portugueses, italianos e franceses correspondem com gritos de emoção, à medida que o barco balanceia pelas ondas crispadas do Atlântico.
A euforia é clara nesta viagem de 30 a 40 minutos (depende da embarcação e estado do mar), mas existe também a preocupação com os enjoos. «É por causa do mar ser assim que de Outubro a Abril não há visitas à Berlenga, apenas alguns pescadores vão à ilha. Há meses em que é mesmo impossível ir lá!», explica um dos funcionários que vai distribuindo sacos de plástico – que acabaram por não ser necessários – para os estômagos mais sensíveis.
Do barco ao fundo visualiza-se os contornos da ilha principal, a Ilha de Saturno. Rochas isoladas que parece que se elevaram sobre o mar. Mas, na verdade, esta formação granítica de tom rosa não é mais do que um resto que permaneceu das Américas quando os continentes estavam ainda em formação. Bem diferente do solo português litoral e bem diferente dos arquipélagos da Madeira ou Açores, formados por erupções vulcânicas. E a América ali tão perto. Estamos perante um símbolo único de outros tempos, e com grande riqueza natural que constitui a Reserva Natural das Berlengas (RNB).
À entrada na zona de principal da ilha, que fica mais ou menos a meio, vislumbra-se a mistura da beleza natural com os poucos e simples vestígios humanos presentes. Com um pequeno cais de desembarque, que já serviu romanos, vikings, mouros e piratas ingleses, esta zona faz esquecer que estamos na Europa ou Portugal. Ao fundo vê-se a principal praia da ilha, Carreiro do Mosteiro, com cerca de 100 metros, dependendo da maré. Grutas e encostas de tom rosa e uma água cristalina e transparente pouco comum no continente português soltam vários sorrisos daqueles que visitam pela primeira vez a ilha. Alguns exclamam: «Parece um paraíso!»
Também se vislumbra bem perto desta área de entradas e saídas, o farol, que está no topo da ilha, edificado em 1851 e baptizado de Duque de Bragança, cuja luz é visível a 30 milhas. Um pequeno bairro com poucas casas de pescadores, um restaurante e cinco tendas em socalcos naturais numa encosta preenchem a parte mais humana da ilha. No céu e nas encostas, milhares de gaivotas voam e chilreiam fazendo sentir, à medida que um sol abrasador queima os mais desprotegidos.
Beleza e natureza vs. turismo comercial
Na ilha existe muita beleza, mas não comodismo, ou turismo de ilha paradisíaca. A Berlenga é agreste, selvagem, pouco confortável e quem domina a ilha são as gaivotas. Um pequeno paraíso diferente dos paraísos comerciais que nos priva de confortos, mas coloca em contacto com a natureza mais pura e com histórias desde a sua criação peculiares.
Apenas 350 pessoas podem estar em simultâneo na ilha. A Berlenga é gerida pelo Instituto de Conservação da Natureza (ICN), que tutela a Reserva Natural das Berlengas (RNB) e cuida da vida natural desta ilha, que faz parte do concelho de Peniche e é considerada Reserva Biogenética pelo Conselho da Europa. A RNB é constituída pela Berlenga Grande e pelas águas envolventes até à profundidade de 30 metros.
Esta Reserva foi criada em 1983, com objectivos de preservação da fauna e flora, e para defender esta atmosfera insular, sem esquecer a riqueza das águas e o potencial turístico. A zona total da Reserva é de 1063 hectares e na parte central está a ilha da Berlenga com 78 hectares. O resto é o mar e os seus elementos.
O ICN tem ajudado a preservar o ecossistema insular da Berlenga, composto por uma centena de espécies botânicas diferentes - plantas como a Armeria e Pulicaria não existem em mais nenhum local do planeta -, por pequenos répteis, mamíferos e exemplares valiosos da avifauna marinha. Mas é no mar que está a maior riqueza do arquipélago. De acordo com o ICN, as suas águas biologicamente ricas não se encontram igual na costa portuguesa. Existe ainda um valioso património arqueológico subaquático – que se pode visitar em viagens de mergulho.
Mas há ainda muito a melhorar. O excesso de gaivotas tem de voltar a ser controlado e numa das praias inacessíveis a pé existe algum lixo. Também a presença de algumas plantas, chamadas infestantes, criam problemas para a natureza e rocha. Apesar disto a beleza natural prevalece.
Quem queira passar uns dias neste luxo natural tem algumas possibilidades, mas à que ir preparado para a aventura. Existem alguns socalcos numa encosta, recentes, que permitem acampar, mas não se está imune às necessidades das gaivotas que “pintam” as tendas de manchas brancas e o restaurante Mar e Sol tem 12 quartos.
No Forte de São João Baptista, uma das preciosidades da Berlenga também existem quartos, alguns deles na própria muralha com uma vista inesquecível. A gestão está a cargo da Associação Amigos da Berlenga e aqui a beleza não está associada ao conforto. Cada casa de banho serve quatro quartos e a água dos duches vem do mar. Não há electricidade nos quartos, aliás em toda a ilha a partir do fim do dia não há electricidade. Mas as limitações permitem um maior contacto com a natureza. Adormecer e acordar neste pedaço de terra pode ser uma experiência única – chegou a ser um retiro para Salazar, nos anos 50.
Passeio pela ilha, o excesso de gaivotas
Aventura e natureza é também o passeio pelos trilhos previstos para as pessoas ao longo da ilha da Berlenga. Apesar de não haver livre acesso a toda a ilha, devido a ser uma Reserva Natural, estes trilhos, de cerca de 2 quilómetros, são definidos por pedras pouco visíveis e placas.
O passeio permite uma sensação de isolamento, pela pouca presença humana. Bem longe do mundo civilizado, olhando para o continente vê-se o Cabo Carvoeiro (por vezes nem se vê) e do outro lado, apenas… mar, céu e sol (no final do dia). Uma sensação de despojamento e liberdade que só um oceano ou deserto podem dar.
Passear pela Reserva Natural das Berlengas permite também usufruir de grande riqueza biológica. Ainda em Junho, várias crianças, trazidas pelo navio Creoula (iniciativa do Pavilhão do Conhecimento) visitaram a ilha. Estes passeios permitem ver não só que há excesso de gaivotas, mas também espécies como airos – as aves símbolos da ilha, muito semelhantes a pinguins e que estão a diminuir pelo excesso de gaivotas –, pardelas e galhetas, lagartixas e sardões, coelhos e ratos. E também algumas plantas raras.
Aliás, o aumento da população de gaivotas – mais de 22 mil –, de acordo com o director da RNB, António Teixeira, em declarações ao Público, deve-se ao facto da ilha ter sido «uma vitima do aumento dramático ocorrido em toda a Europa ocidental. Até em Madrid há gaivotas». A abundância de lixos nas zonas costeiras e de desperdícios lançados ao mar foi o que trouxe à Berlenga as gaivotas em excesso, e também terá de ser a mão humana a destruir-lhe os ovos.
A parte mais a sul da ilha, é a que dá para se visitar melhor. Pode-se descer a enorme escadaria e entrar no forte, que é uma pequena península, ou ver o farol de perto, no topo da ilha. Dessa zona, ao olhar para o horizonte longínquo do oceano Atlântico, tem-se uma vista magnífica para as Estelas - que são pequenas rochas perto da ilha da Berlenga, que não é possível ver do continente. Do outro lado do oceano fica o continente americano, ao qual já pertenceram as Berlengas.
Para além da beleza natural há que tomar cuidados. É preciso saber respeitar a vida natural, nomeadamente as gaivotas, para não sermos surpreendidos com voos rasantes, o que facilmente acontece quando têm crias. Não sair dos trilhos. Também ter cuidado com o sol porque, apesar de não se tratar de uma ilha tropical, as probabilidades de se apanhar queimaduras na pele são bastante superiores a qualquer outra praia do país.
A parte norte da ilha, permite olhar mais de perto para os ilhéus Farilhões, que têm dimensões consideráveis. É mais complicado caminhar nesta zona, são encostas mais íngremes e a presença das gaivotas nem sempre permite continuar pelos trilhos. Mas a riqueza natural é inquestionável. Facilmente se dá um passeio por esta área sem se ver uma única pessoa, gaivotas, essas estão por toda a parte. Aventura, natureza selvagem, liberdade, oceano, sol e grutas quanto baste.
O fantástico mundo das grutas
«Esta é a Gruta Azul, onde a água fica com uma tonalidade azul muito clara e brilhante com o por do sol.» De cabelo grisalho e pele queimada pelo sol o senhor Marcelino guia a sua pequena lancha pelas formas irregulares das rochas da ilha, que estão repletas de “estórias” que vão sendo contadas à medida que se passa pelas grutas e locais “mágicos”. Neste caso, depois de conduzir a lancha para dentro da Gruta Azul (por baixo do forte), o senhor Marcelino explica que a muita abundância de plancton permite à água ficar com uma luminosidade azul pouco habitual.
A viagem à volta da ilha é imprescindível para quem quer desfrutar das riquezas naturais das Berlengas, mas esta é também uma viagem incompleta, devido às fortes correntes que vêem de norte e que fazem com que o percurso das lanchas da ilha fique limitado à parte sul.
Começa-se por atravessar o chamado “carreirinho” da senhora D. Inês, «uma senhora que visitava a ilha», diz Marcelino. A excursão continua, com a Pedrinha dos Corvos, outra gruta e a passagem pela praiazinha do Forte S. João Baptista, onde a água tem um tom mais verde. Mesmo ao lado do forte uma rocha muito estranha tem a forma de uma enorme baleia.
Tudo isto, enquanto as gaivotas se passeiam no céu e os tripulantes tocam na água cristalina, à medida que o barco vai navegando. Olhar para a Berlenga transmite beleza e segurança, mas olhar para o horizonte marítimo faz perceber que estamos longe de tudo.
A viagem continua, o senhor Marcelino chama a atenção para uma cavidade na rocha com a forma de uma coração invertido e mesmo numa das extremidades sul da ilha pode observar-se uma rocha a que deram o nome de Cabeça de Elefante (ou Ponta dos Fundões), pelo seu aspecto característico. Ao entrar em mais um dos “recortes” rochosos da ilha, vislumbramos uma das áreas mais impressionantes, onde existe a chamada Cova do Sonho. Uma abóbada magnânime de granito, digna de uma grande igreja antiga, com 75 metros de altura, “esculpida” pela força das marés de outrora.
Por baixo existe uma pequena praia «onde já se realizou um casamento, mas que neste momento não é segura porque caem pedras», explica o senhor Marcelino. Na mesma zona existem várias grutas profundas, uma delas “pintada” pelas marés de branco – onde antigamente os pescadores pernoitavam, para se proteger e hoje habitam corvos marinhos, que mergulham na água como pinguins – e o Furado Seco, «que é uma gruta que atravessa a rocha de um lado ao outro e que se passa de gatinhas». Depois de visto 1/4 da ilha, volta-se para trás entrando numa gruta (funciona como túnel) que atravessa parte da ilha e nos coloca perto do forte novamente.
«Parece que estamos a descobrir estas grutas que ninguém tinha ainda descoberto», diz um jovem na lancha, pelo aspecto intocado, puro e natural desta parte da ilha. A verdade é que cada extremidade, cada gruta e cada “recorte” de rocha é conhecida e tem nome. «Não faço ideia quem colocou os nomes, mas sei que foi ao longo dos séculos», diz o senhor Marcelino.
Há muitos séculos atrás as mesmas rochas já tiveram outros nomes, para outros povos, outras culturas, como é o caso da própria ilha da Berlenga que já se chamou Ilha de Saturno. Esta é uma ilha americana - do mesmo granito róseo do litoral atlântico americano -, uma ilha de sonho, ao largo de Peniche. A viagem às Berlengas pode ser curta, ao contrário das viagens às ilhas tropicais, mas dificilmente se esquece.
A História Vestígios da história do homem, numa ilha pouco humana
As Berlengas também já foram um lugar sagrado. No primeiro milénio antes de Cristo celebrava-se o culto de Baal-Mekart, na ilha de Saturno, como os historiadores da antiguidade lhe chamavam. Mas outras pequenas histórias conta a Berlenga. Pensa-se que fenícios e lusitanos conheciam o arquipélago e o utilizavam como porto de abrigo. Já dos romanos, restam cepos de âncoras perdidas nos fundos do mar (século I ao século V), dos vikings as histórias dos seus ataques a embarcações comerciais. Piratas ingleses também estiveram na ilha, assim como os mouros (corsários argelinos), e novamente os ingleses. Mais tarde, já com os portugueses, nos Descobrimentos, foi no mar das Berlengas que capturaram a nau de Garcia Dias, vinda da Índia.
Do século XVI restam as ruínas do Mosteiro da Misericórdia, no cima das quais foi construído o actual restaurante Sol e Mar (1953), e do século XVII a Fortaleza (ou Forte) de São João Baptista, mandado construir em 1651. O Mosteiro foi mandado construir por D. Leonor, esposa de D. Manuel I, para albergar a ordem de S. Gerónimo. Os monges mantiveram-se no Mosteiro apenas cerca de três décadas devido às constantes incursões de corsários argelinos, que os enviavam para mercados de escravos no Norte de África, a doenças ou falta de alimentos.
Alguns anos mais tarde (1651) foi mandado erguer o Forte de São João Baptista por D. João IV de Portugal, onde se travaram batalhas com corsários e com castelhanos, a mais célebre foi em 1666, quando o castelhano Diogo Ibarra tentou ocupou a ilha depois de atacar o forte durante dois dias. A guarnição portuguesa que conseguiu resistir quanto possível era comandada pelo Cabo Avelar Pessoa e daí, a principal embarcação para a ilha ter o mesmo nome em homenagem ao Cabo.
Foi D. Afonso VI que restaurou a fortaleza, mas voltou a ser danificada e chegou a estar totalmente abandonada durante muitos anos. Nos anos 50 do século passado tornou-se numa pousada, que acolheu várias vezes Salazar e depois do 25 de Abril de 1974 foi ocupada. Um protocolo entre o Ministério da Defesa e a Câmara de Peniche atribuiu a gestão do forte secular à entretanto criada Associação dos Amigos da Berlenga.
-------
Informações e viagens
Período normal para visitar a ilha – de Junho a Setembro, algumas pequenas embarcações vão a partir de Abril (noutras alturas torna-se perigoso)
Pessoas permitidas por dia – 350
Preços da viagem de Peniche – ida e volta 17 €; para quem fique um dia ou mais 10/11 € de ida e o mesmo na volta.
Viagem às grutas na ilha – pequenas lanchas que estão na ilha 2,50 €
Empresas que fazem percurso – para marcações prévias: Viamar 262785646; Berlenga Turpesca 262789960, entre outras.
Alojamento – Forte São João Baptista (20 quartos) 8,50 a 9 € (262785263); Campismo 7 € (262789571); Restaurante Mar e Sol (12 quartos) 77 € (262750331).
Pontos de interesse – os vários quilómetros de trilhos, visita às grutas, Forte, fazer mergulho ou visitar também os Farilhões e Estelas com duração de 7 horas (através de uma das empresas que disponibiliza esses serviços).
Telemóvel - há rede, mas em certos locais com dificuldade – não há receptores na ilha, mas ainda se apanha cobertura do continente.
Restrições – proibido caça submarina e motos de água, importante andar nos trilhos e respeitar a natureza, não deixar lixo, não há multibanco na ilha, apenas há dois estabelecimentos comerciais um restaurante e um café/mercado de reduzidas dimensões.
Informações e marcações para campismo – Posto de Turismo de Peniche (262789571/262785934)
Viagem ao Passado Natural
Ilha de Saturno. Ilha do Sonho. Isolada ainda hoje do “mundo” mais civilizado, as Berlengas formaram-se à cerca de 280 milhões de anos e são um fragmento do continente americano. Com pequenas praias, de água cristalina, transparente. Com um forte construído em cima de uma rocha, grutas “mágicas” e natureza ainda pura, as mais de 22 mil gaivotas são quem domina a ilha. Nas Berlengas estamos dentro do Atlântico e parece que longe de Portugal e Europa. E o mar não termina. Tudo isto a 5,4 milhas (10 km) de Peniche. Fotografias e texto, João Tomé.

Água cristalina e transparente - com 4 e 5 metros de profundidade vê-se sempre o fundo -, praias pequenas, natureza pura, formas únicas nas rochas e grutas “mágicas” fazem parte da beleza natural da ilha Berlenga. Uma viagem curta, mas que dificilmente se esquece.
10h45. «Vocês vão adorar a ilha, a água é linda!» A expectativa cresce à medida que Filipe - professor estagiário de geografia de 22 anos, das Caldas da Rainha - vai explicando a três amigas o “paraíso das Berlengas” enquanto o barco parte do porto de Peniche. Duas vezes bastaram para Filipe ficar encantado pela Ilha de Saturno – assim chamavam à Berlenga os historiadores da antiguidade. Repleta de muito mar, aves, granito róseo, vento e sonho, no arquipélago natural e selvagem das Berlengas respira-se liberdade e pisa-se granito americano.
A viagem ao conjunto de ilhéus – composto por uma ilha habitável, a Berlenga Grande, ilhéus mais pequenos, os Farilhões e os rochedos Estelas (que não se vêem do continente, por estarem tapadas pela Berlenga) – constitui uma pequena aventura. A principal embarcação para a ilha no Verão, Cabo Avelar Pessoa, balanceia de um lado para o outro, num vai e vem que lembra as diversões mais emocionantes de parques temáticos. “Oh my god, this is fantastic! Ah!” Ingleses, portugueses, italianos e franceses correspondem com gritos de emoção, à medida que o barco balanceia pelas ondas crispadas do Atlântico.
A euforia é clara nesta viagem de 30 a 40 minutos (depende da embarcação e estado do mar), mas existe também a preocupação com os enjoos. «É por causa do mar ser assim que de Outubro a Abril não há visitas à Berlenga, apenas alguns pescadores vão à ilha. Há meses em que é mesmo impossível ir lá!», explica um dos funcionários que vai distribuindo sacos de plástico – que acabaram por não ser necessários – para os estômagos mais sensíveis.
Do barco ao fundo visualiza-se os contornos da ilha principal, a Ilha de Saturno. Rochas isoladas que parece que se elevaram sobre o mar. Mas, na verdade, esta formação granítica de tom rosa não é mais do que um resto que permaneceu das Américas quando os continentes estavam ainda em formação. Bem diferente do solo português litoral e bem diferente dos arquipélagos da Madeira ou Açores, formados por erupções vulcânicas. E a América ali tão perto. Estamos perante um símbolo único de outros tempos, e com grande riqueza natural que constitui a Reserva Natural das Berlengas (RNB).
À entrada na zona de principal da ilha, que fica mais ou menos a meio, vislumbra-se a mistura da beleza natural com os poucos e simples vestígios humanos presentes. Com um pequeno cais de desembarque, que já serviu romanos, vikings, mouros e piratas ingleses, esta zona faz esquecer que estamos na Europa ou Portugal. Ao fundo vê-se a principal praia da ilha, Carreiro do Mosteiro, com cerca de 100 metros, dependendo da maré. Grutas e encostas de tom rosa e uma água cristalina e transparente pouco comum no continente português soltam vários sorrisos daqueles que visitam pela primeira vez a ilha. Alguns exclamam: «Parece um paraíso!»
Também se vislumbra bem perto desta área de entradas e saídas, o farol, que está no topo da ilha, edificado em 1851 e baptizado de Duque de Bragança, cuja luz é visível a 30 milhas. Um pequeno bairro com poucas casas de pescadores, um restaurante e cinco tendas em socalcos naturais numa encosta preenchem a parte mais humana da ilha. No céu e nas encostas, milhares de gaivotas voam e chilreiam fazendo sentir, à medida que um sol abrasador queima os mais desprotegidos.

Beleza e natureza vs. turismo comercial
Na ilha existe muita beleza, mas não comodismo, ou turismo de ilha paradisíaca. A Berlenga é agreste, selvagem, pouco confortável e quem domina a ilha são as gaivotas. Um pequeno paraíso diferente dos paraísos comerciais que nos priva de confortos, mas coloca em contacto com a natureza mais pura e com histórias desde a sua criação peculiares.
Apenas 350 pessoas podem estar em simultâneo na ilha. A Berlenga é gerida pelo Instituto de Conservação da Natureza (ICN), que tutela a Reserva Natural das Berlengas (RNB) e cuida da vida natural desta ilha, que faz parte do concelho de Peniche e é considerada Reserva Biogenética pelo Conselho da Europa. A RNB é constituída pela Berlenga Grande e pelas águas envolventes até à profundidade de 30 metros.
Esta Reserva foi criada em 1983, com objectivos de preservação da fauna e flora, e para defender esta atmosfera insular, sem esquecer a riqueza das águas e o potencial turístico. A zona total da Reserva é de 1063 hectares e na parte central está a ilha da Berlenga com 78 hectares. O resto é o mar e os seus elementos.
O ICN tem ajudado a preservar o ecossistema insular da Berlenga, composto por uma centena de espécies botânicas diferentes - plantas como a Armeria e Pulicaria não existem em mais nenhum local do planeta -, por pequenos répteis, mamíferos e exemplares valiosos da avifauna marinha. Mas é no mar que está a maior riqueza do arquipélago. De acordo com o ICN, as suas águas biologicamente ricas não se encontram igual na costa portuguesa. Existe ainda um valioso património arqueológico subaquático – que se pode visitar em viagens de mergulho.
Mas há ainda muito a melhorar. O excesso de gaivotas tem de voltar a ser controlado e numa das praias inacessíveis a pé existe algum lixo. Também a presença de algumas plantas, chamadas infestantes, criam problemas para a natureza e rocha. Apesar disto a beleza natural prevalece.
Quem queira passar uns dias neste luxo natural tem algumas possibilidades, mas à que ir preparado para a aventura. Existem alguns socalcos numa encosta, recentes, que permitem acampar, mas não se está imune às necessidades das gaivotas que “pintam” as tendas de manchas brancas e o restaurante Mar e Sol tem 12 quartos.
No Forte de São João Baptista, uma das preciosidades da Berlenga também existem quartos, alguns deles na própria muralha com uma vista inesquecível. A gestão está a cargo da Associação Amigos da Berlenga e aqui a beleza não está associada ao conforto. Cada casa de banho serve quatro quartos e a água dos duches vem do mar. Não há electricidade nos quartos, aliás em toda a ilha a partir do fim do dia não há electricidade. Mas as limitações permitem um maior contacto com a natureza. Adormecer e acordar neste pedaço de terra pode ser uma experiência única – chegou a ser um retiro para Salazar, nos anos 50.
Passeio pela ilha, o excesso de gaivotas
Aventura e natureza é também o passeio pelos trilhos previstos para as pessoas ao longo da ilha da Berlenga. Apesar de não haver livre acesso a toda a ilha, devido a ser uma Reserva Natural, estes trilhos, de cerca de 2 quilómetros, são definidos por pedras pouco visíveis e placas.
O passeio permite uma sensação de isolamento, pela pouca presença humana. Bem longe do mundo civilizado, olhando para o continente vê-se o Cabo Carvoeiro (por vezes nem se vê) e do outro lado, apenas… mar, céu e sol (no final do dia). Uma sensação de despojamento e liberdade que só um oceano ou deserto podem dar.
Passear pela Reserva Natural das Berlengas permite também usufruir de grande riqueza biológica. Ainda em Junho, várias crianças, trazidas pelo navio Creoula (iniciativa do Pavilhão do Conhecimento) visitaram a ilha. Estes passeios permitem ver não só que há excesso de gaivotas, mas também espécies como airos – as aves símbolos da ilha, muito semelhantes a pinguins e que estão a diminuir pelo excesso de gaivotas –, pardelas e galhetas, lagartixas e sardões, coelhos e ratos. E também algumas plantas raras.
Aliás, o aumento da população de gaivotas – mais de 22 mil –, de acordo com o director da RNB, António Teixeira, em declarações ao Público, deve-se ao facto da ilha ter sido «uma vitima do aumento dramático ocorrido em toda a Europa ocidental. Até em Madrid há gaivotas». A abundância de lixos nas zonas costeiras e de desperdícios lançados ao mar foi o que trouxe à Berlenga as gaivotas em excesso, e também terá de ser a mão humana a destruir-lhe os ovos.
A parte mais a sul da ilha, é a que dá para se visitar melhor. Pode-se descer a enorme escadaria e entrar no forte, que é uma pequena península, ou ver o farol de perto, no topo da ilha. Dessa zona, ao olhar para o horizonte longínquo do oceano Atlântico, tem-se uma vista magnífica para as Estelas - que são pequenas rochas perto da ilha da Berlenga, que não é possível ver do continente. Do outro lado do oceano fica o continente americano, ao qual já pertenceram as Berlengas.
Para além da beleza natural há que tomar cuidados. É preciso saber respeitar a vida natural, nomeadamente as gaivotas, para não sermos surpreendidos com voos rasantes, o que facilmente acontece quando têm crias. Não sair dos trilhos. Também ter cuidado com o sol porque, apesar de não se tratar de uma ilha tropical, as probabilidades de se apanhar queimaduras na pele são bastante superiores a qualquer outra praia do país.
A parte norte da ilha, permite olhar mais de perto para os ilhéus Farilhões, que têm dimensões consideráveis. É mais complicado caminhar nesta zona, são encostas mais íngremes e a presença das gaivotas nem sempre permite continuar pelos trilhos. Mas a riqueza natural é inquestionável. Facilmente se dá um passeio por esta área sem se ver uma única pessoa, gaivotas, essas estão por toda a parte. Aventura, natureza selvagem, liberdade, oceano, sol e grutas quanto baste.
O fantástico mundo das grutas
«Esta é a Gruta Azul, onde a água fica com uma tonalidade azul muito clara e brilhante com o por do sol.» De cabelo grisalho e pele queimada pelo sol o senhor Marcelino guia a sua pequena lancha pelas formas irregulares das rochas da ilha, que estão repletas de “estórias” que vão sendo contadas à medida que se passa pelas grutas e locais “mágicos”. Neste caso, depois de conduzir a lancha para dentro da Gruta Azul (por baixo do forte), o senhor Marcelino explica que a muita abundância de plancton permite à água ficar com uma luminosidade azul pouco habitual.
A viagem à volta da ilha é imprescindível para quem quer desfrutar das riquezas naturais das Berlengas, mas esta é também uma viagem incompleta, devido às fortes correntes que vêem de norte e que fazem com que o percurso das lanchas da ilha fique limitado à parte sul.
Começa-se por atravessar o chamado “carreirinho” da senhora D. Inês, «uma senhora que visitava a ilha», diz Marcelino. A excursão continua, com a Pedrinha dos Corvos, outra gruta e a passagem pela praiazinha do Forte S. João Baptista, onde a água tem um tom mais verde. Mesmo ao lado do forte uma rocha muito estranha tem a forma de uma enorme baleia.
Tudo isto, enquanto as gaivotas se passeiam no céu e os tripulantes tocam na água cristalina, à medida que o barco vai navegando. Olhar para a Berlenga transmite beleza e segurança, mas olhar para o horizonte marítimo faz perceber que estamos longe de tudo.
A viagem continua, o senhor Marcelino chama a atenção para uma cavidade na rocha com a forma de uma coração invertido e mesmo numa das extremidades sul da ilha pode observar-se uma rocha a que deram o nome de Cabeça de Elefante (ou Ponta dos Fundões), pelo seu aspecto característico. Ao entrar em mais um dos “recortes” rochosos da ilha, vislumbramos uma das áreas mais impressionantes, onde existe a chamada Cova do Sonho. Uma abóbada magnânime de granito, digna de uma grande igreja antiga, com 75 metros de altura, “esculpida” pela força das marés de outrora.
Por baixo existe uma pequena praia «onde já se realizou um casamento, mas que neste momento não é segura porque caem pedras», explica o senhor Marcelino. Na mesma zona existem várias grutas profundas, uma delas “pintada” pelas marés de branco – onde antigamente os pescadores pernoitavam, para se proteger e hoje habitam corvos marinhos, que mergulham na água como pinguins – e o Furado Seco, «que é uma gruta que atravessa a rocha de um lado ao outro e que se passa de gatinhas». Depois de visto 1/4 da ilha, volta-se para trás entrando numa gruta (funciona como túnel) que atravessa parte da ilha e nos coloca perto do forte novamente.
«Parece que estamos a descobrir estas grutas que ninguém tinha ainda descoberto», diz um jovem na lancha, pelo aspecto intocado, puro e natural desta parte da ilha. A verdade é que cada extremidade, cada gruta e cada “recorte” de rocha é conhecida e tem nome. «Não faço ideia quem colocou os nomes, mas sei que foi ao longo dos séculos», diz o senhor Marcelino.
Há muitos séculos atrás as mesmas rochas já tiveram outros nomes, para outros povos, outras culturas, como é o caso da própria ilha da Berlenga que já se chamou Ilha de Saturno. Esta é uma ilha americana - do mesmo granito róseo do litoral atlântico americano -, uma ilha de sonho, ao largo de Peniche. A viagem às Berlengas pode ser curta, ao contrário das viagens às ilhas tropicais, mas dificilmente se esquece.

A História Vestígios da história do homem, numa ilha pouco humana
As Berlengas também já foram um lugar sagrado. No primeiro milénio antes de Cristo celebrava-se o culto de Baal-Mekart, na ilha de Saturno, como os historiadores da antiguidade lhe chamavam. Mas outras pequenas histórias conta a Berlenga. Pensa-se que fenícios e lusitanos conheciam o arquipélago e o utilizavam como porto de abrigo. Já dos romanos, restam cepos de âncoras perdidas nos fundos do mar (século I ao século V), dos vikings as histórias dos seus ataques a embarcações comerciais. Piratas ingleses também estiveram na ilha, assim como os mouros (corsários argelinos), e novamente os ingleses. Mais tarde, já com os portugueses, nos Descobrimentos, foi no mar das Berlengas que capturaram a nau de Garcia Dias, vinda da Índia.
Do século XVI restam as ruínas do Mosteiro da Misericórdia, no cima das quais foi construído o actual restaurante Sol e Mar (1953), e do século XVII a Fortaleza (ou Forte) de São João Baptista, mandado construir em 1651. O Mosteiro foi mandado construir por D. Leonor, esposa de D. Manuel I, para albergar a ordem de S. Gerónimo. Os monges mantiveram-se no Mosteiro apenas cerca de três décadas devido às constantes incursões de corsários argelinos, que os enviavam para mercados de escravos no Norte de África, a doenças ou falta de alimentos.
Alguns anos mais tarde (1651) foi mandado erguer o Forte de São João Baptista por D. João IV de Portugal, onde se travaram batalhas com corsários e com castelhanos, a mais célebre foi em 1666, quando o castelhano Diogo Ibarra tentou ocupou a ilha depois de atacar o forte durante dois dias. A guarnição portuguesa que conseguiu resistir quanto possível era comandada pelo Cabo Avelar Pessoa e daí, a principal embarcação para a ilha ter o mesmo nome em homenagem ao Cabo.
Foi D. Afonso VI que restaurou a fortaleza, mas voltou a ser danificada e chegou a estar totalmente abandonada durante muitos anos. Nos anos 50 do século passado tornou-se numa pousada, que acolheu várias vezes Salazar e depois do 25 de Abril de 1974 foi ocupada. Um protocolo entre o Ministério da Defesa e a Câmara de Peniche atribuiu a gestão do forte secular à entretanto criada Associação dos Amigos da Berlenga.
-------
Informações e viagens
Período normal para visitar a ilha – de Junho a Setembro, algumas pequenas embarcações vão a partir de Abril (noutras alturas torna-se perigoso)
Pessoas permitidas por dia – 350
Preços da viagem de Peniche – ida e volta 17 €; para quem fique um dia ou mais 10/11 € de ida e o mesmo na volta.
Viagem às grutas na ilha – pequenas lanchas que estão na ilha 2,50 €
Empresas que fazem percurso – para marcações prévias: Viamar 262785646; Berlenga Turpesca 262789960, entre outras.
Alojamento – Forte São João Baptista (20 quartos) 8,50 a 9 € (262785263); Campismo 7 € (262789571); Restaurante Mar e Sol (12 quartos) 77 € (262750331).
Pontos de interesse – os vários quilómetros de trilhos, visita às grutas, Forte, fazer mergulho ou visitar também os Farilhões e Estelas com duração de 7 horas (através de uma das empresas que disponibiliza esses serviços).
Telemóvel - há rede, mas em certos locais com dificuldade – não há receptores na ilha, mas ainda se apanha cobertura do continente.
Restrições – proibido caça submarina e motos de água, importante andar nos trilhos e respeitar a natureza, não deixar lixo, não há multibanco na ilha, apenas há dois estabelecimentos comerciais um restaurante e um café/mercado de reduzidas dimensões.
Informações e marcações para campismo – Posto de Turismo de Peniche (262789571/262785934)
Subscrever:
Mensagens (Atom)