Entrevista a Andrea Berloff

Saiu em formato bem mais pequeno no Destak, em 2008.





Entrevista
Oliver Stone «é mais exigente com ele próprio do que com os outros»
Entrevista à argumentista Andrea Berloff, que se estreou na profissão com o filme World Trade Center, de Oliver Stone. O DVD da homenagem aos heróis do 11 de Setembro de 2001 foi lançado esta semana em Portugal.


Idade: 33 anos. Profissão: Argumentista (ex-actriz.
Hobbys: «Adoro ler, leio muito. Gosto muito de fazer caminhadas.
Tenho um filho.»



Há quanto tempo é guionista? É a sua grande paixão?
Agora é a minha paixão. Comecei como actriz, durante vários anos. Sou uma argumentista profissional há quatro ou cinco anos. Mas obviamente antes disso já escrevia só que não era paga por isso. É difícil de dizer há quantos anos comecei a escrever, porque houve uma altura em que fazia as duas coisas, actriz e argumentista, mas diria há uns oito anos.

Como adolescente já gostava de escrever?
Não. Só comecei-me a interessar por isso e a escrever quando tinha 25 anos, à volta disso. Nunca escrevi nada até essa altura.

Como actriz fez que tipo de trabalhos?
Teatro. Estive em Nova Iorque durante alguns anos onde fiz teatro.

Essa também é uma paixão?
Sim, adoro teatro, mas é difícil viver disso, infelizmente.

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Como surgiu o convite para este projecto de trabalhar com Oliver Stone?
Tinha estado a trabalhar e a ser paga para escrever, mas nunca tinha tido nada produzido antes mas os produtores do filme, Michael Shamberg, Stacey Sher e Debora Hill, que queriam fazer um filme sobre a tragédia, encontraram-se com alguns argumentistas. Então convidaram-me para apresentar uma proposta e mostrei-lhes como iria pegar na ideia e eles contrataram-me.

Pesquisou antes de a contratarem, depois, ou antes e depois?
Ambas. Antes de ir ter aquela reunião fiz cerca de 40 horas de pesquisa, vendo jornais e pesquisando na Internet, essas coisas. Depois consegui o trabalho e fui a Nova Iorque onde fiz muito mais pesquisa próxima.

As histórias de John e Will Jimeno foram propostas por si?
Não, os produtores tinham já escolhido as duas famílias e sabiam que o filme era sobre essas duas famílias, quando me contrataram.

Entrevistou as famílias durante quanto tempo?
Houve mais do que uma viagem a Nova Iorque. A primeira vez que fui estive uma semana apenas com as duas famílias. Voltei uns meses depois e conheci muitos dos salvadores. Fui cerca de 10 ou 11 vezes a Nova Iorque, por isso passei muitas horas com eles.

Sentiu uma ligação emocional com eles e as suas histórias?
Imediatamente. Eu nunca encontrei um grupo de pessoas tão simpático. Tão generosos com o seu tempo e tão desejosos em nos ajudar a contar a melhor história possível. Verdadeiramente não havia uma maçã podre no grupo. É obviamente muito estranho e difícil quando nos sentamos numa sala cheia de desconhecidos e pedimos-lhe que nos contem sobre o pior dia das suas vidas. Eles têm o coração bem aberto. No primeiro dia sentei-me com John e Will e as suas esposas. E numa hora estávamos todos ali sentados e a chorar. Foi algo como nunca experienciei antes.

A história deles os dois é muito forte e emocional. Como conheceu Oliver Stone neste processo?
O Oliver veio mais tarde. Eu tinha feito toda esta pesquisa, encontrei-me com as famílias e escrevi o argumento. E depois, alguns meses depois, o agente do Oliver acabou por ler o argumento e achar que ele poderia gostar dele. Então enviou-lhe. Uma versão do argumento foi feito mais ou menos antes do OLiver entrar no filme. Depois dele decidir ficar com o projecto voltámos a Nova Iorque, fizemos mais pesquisa e mais alguma escrita. Foi mais ou menos feito na altura que ele entrou.

O argumento teve várias versões?
Não propriamente, tinha uma primeira versão que criei sozinha e uma segunda que o Oliver criou com a minha ajuda – estive envolvida. Quando o Oliver entrou no projecto algumas coisas mudaram. Primeiro o projecto ficou com uma dimensão muito maior, com Oliver Stone, Nicolas Cage, e a Paramount, nada disso existia quando comecei. Muitos mais dos verdadeiros salvadores quiseram que as suas história entrassem. Então tivemos de voltar a Nova Iorque e entrevistar mais resgatadores. E isso foi um trabalho intenso que tive de fazer com o Oliver.

Como é Oliver Stone? É um homem fácil com quem se trabalhar?
Fácil não é a palavra correcta (risos). Ele é muito exigente, como deve ser. Ele sabe o que quer… é um dos homens mais inteligentes com quem já trabalhei. Ele é mais exigente com ele próprio do que com os outros, mas é extremamente colaborante o que achei surpreendente. Não tinha qualquer obrigação de colaborar comigo, poderia facilmente ter feito tudo sozinho mas não o fez. Trabalhámos juntos muito bem. Foi uma experiência de aprendizagem incrível para mim.

Li que ele gostou muito do seu guião para uma novata. Nunca tinha visto uma novata escrever tão bem?
É um grande elogio. Ele disse muitas coisas boas sobre mim publicamente, por todas estou muito agradecida. Por isso é obviamente fascinante trabalhar com alguém do seu estatuto.

Li que escreveu o argumento a pensar em John McLoughlin como Mel Gibson. É verdade?
Isso não é verdade. Não é que não gosto dele… é curioso que se publicam coisas desse tipo. Quando escrevo histórias reais nunca penso em qualquer actor, penso sempre nas pessoas em questão. Conhecia o John tão bem e claro que não estava a pensar que o Mel Gibson ia ficar bem, só pensava no John McLoughlin. Não que eu não gostasse que ele estivesse no filme, mas nunca esteve na minha mente.

Mas ele foi ponderado para o papel?
A primeira e única pessoa que Oliver Stone abordou foi o Nicolas Cage. Aconteceu tudo muito depressa. O Oliver disse sim, duas semanas depois o Nic disse sim. Assim que o Oliver aceitou fazer o filme escreveu uma carta ao Nicolas Cage a convidá-lo e ele disse sim. Aconteceu tudo muito rapidamente.

O filme consegue mostrar uma história muito humana e tocante recorrendo a vários flashbacks entre as cenas em que eles estão presos no entulho e no escuro. Foi complicado manter um ritmo interessante e um lado humano destes homens no meio daquela confusão?
Acho que foi tudo muito difícil. Este foi um projecto muito complicado emocionalmente para escrever. Mas os homens da história eram muito fascinantes. E as histórias que eles contavam uns aos outros eram naturalmente dramáticas e interessantes. Por isso nunca senti que tivesse de inventar material para criar drama, estava tudo ali. Estivemos muito preocupados em ser exactos e rigorosos e eles também. Cerca de 98% do que eles contaram para o filme é rigoroso. A nível da estrutura, isso era algo que criei. Mas a maioria dos acontecimentos aconteceu.

Essa estrutura de flashbacks permite perceber com pormenor o que eles sentiam e experienciaram. Esse efeito foi criado de propósito, para sentirmos o que aqueles homens passaram e como as suas vidas eram importantes?
Quando lhes perguntava em que é que pensavam. Ambos disseram que pensavam sobre as mulheres, os filhos e isso é uma faceta muito humana – algo com que todos os humanos podem sentir proximidade. Quando estamos à beira da morte pensamos naqueles que amamos. Por isso, acho que o flashback que usámos serviu alguns propósitos, para permitir ao público perceber que estes homens têm uma vida inteira para onde voltar, é muito importante que se perceba que há pessoas à espera deles. Isso esconde o sentido de urgência, para que o público queira que aqueles homens viva. E também dá uma imagem mais cheia de quem estes homens são e eram apenas dois homens num buraco o tempo todo, sem ir intercalando com as famílias poderia tornar-se secante. Não há muita acção. São só dois homens, só se consegue ver as suas caras, nem se consegue ver os seus corpos. Por isso há várias razões porque criei essa estrutura.

Qual foi a parte do argumento de que mais se orgulha?
Há duas partes que acho que resultou muito bem tanto no guião como no filme. Gostei muito do momento em que estivemos com os polícias o tempo todo, eles já estão presos nos escombros, o edifício caiu. Não lembro exactamente como escrevi, mas basicamente subimos pelo fumo acima, e sobre a ilha de Manhattan, sobre a Terra e até ao espaço. Onde chegamos a um satélite. E depois vemos as reacções das pessoas um pouco por todo o mundo do 9/11. Gosto desse momento porque globaliza a história para que não seja apenas norte-americana, para que as pessoas, espero, possam recordar como foi esse dia um pouco por todo o mundo. É um momento muito rápido, mas foi essa a minha intenção. Esse momento foi eficaz.

Gostou das críticas e da reacção do público ao filme?
Sim. Foi interessante, porque houve reacções diferentes de país para país. O que é interessante é que, sim, recebemos várias críticas negativas, especialmente no resto dos países, que não os Estados Unidos, mas resultou tão bem, as pessoas foram vê-lo por todo o mundo. Por isso, apesar de algumas críticas más, as pessoas foram vê-lo. Num certo sentido, se tivesse de escolher quem queria fazer feliz, se um crítico ou uma pessoa comum, estaria muito mais preocupada com a pessoa comum e estou muito feliz com o sucesso do filme. Fez mais dinheiro internacionalmente do que fez nos Estados Unidos, e acho isso maravilhoso.

Li que escreveu esta história a pensar não apenas como uma história americana, mas uma história humana, que pode tocar qualquer um no mundo. Quando escreveu o filme tinha esse intuito, de fazer uma história que pudesse ser apreciada não só nos Estados Unidos, como no resto do mundo?
Claro. Óbvio que esta é uma história americana e não tinha qualquer intenção de fazer alguém nos Estados Unidos perturbado. E talvez esteja a ser demasiado grandiosa e com um ego muito grande, mas os meus maiores sonhos para o filme eram fazer ver o que aconteceu a 11 de Setembro a duas famílias, e o filme acaba na manhã de 12 de Setembro porque o veio a seguir ao 11 de Setembro foi um sentimento totalmente diferente, claro.
Para mim, se todos nos lembrarmos o que sentimos com o 11 de Setembro, o que foi sentirmo-nos unificados enquanto um planeta e preocuparmo-nos pelas pessoas, e estou a ser optimista agora, esse é um local que espero que possamos voltar um dia. Por isso, houve algumas coisas que queria transmitir.
Quis lembrar às pessoas o que foi sentir aquele dia, que não foi um dia de ódio a nível geral – e sei que isto soa um pouco lamechas – mas foi um dia com uma quantidade tremenda de amor, entre as pessoas. E na minha vida não senti isso, nesse sentido global. E queria lembrar os americanos e o mundo que os americanos podem ser boas pessoas que tomam as decisões certas. Somos capaz disso, e acho que todos devíamos ser recordados disso.

Creio que está a fazer um remake do filme de 1973 Don't Look Now…
Eu sei que está na Internet, mas não estou a fazer esse argumento. Tive uma conversa sobre esse projecto, mas nunca aconteceu, não foi para a frente. Nunca escrevi nada para eles, a única coisa que fiz foi ter uma conversa com um produtor. Mas acabei de escrever um argumento para o Ridley Scott para um filme sobre a família Gucci. É uma família ligada à moda mas não é um filme sobre moda, é sobre a família de uma forma muito dramática. Por isso acabei de escrever isso e há várias outras coisas em que estou a começar, por isso tenho andado ocupada.

Trabalhar neste projecto abriu-lhe portas para fazer outros filmes?
Sim, sem dúvida, foi uma oportunidade fantástica.

Sobre o filme do Ridley Scott, pode contar-nos um pouco mais sobre ele?
Ainda é muito cedo, ainda estamos a trabalhar no guião. Já o escrevi mas eu e o Ridley ainda vamos pensar bem nele, por isso não está pronto. Não há muito a dizer nesta altura, porque ainda estamos a trabalhar nele para perceber que tipo de filme pode ser, mas basicamente é um grande drama sobre uma família que teve muitas dificuldades. Passa-se nos anos 80 e 90.

De argumentista sem trabalhos produzidos passou a argumentista que trabalhou com Oliver Stone e Ridley Scott em pouco tempo, isto é fantástico para si?
(risos) Sim, é, sem dúvida. Sou muito sortuda. Parece que apenas estou autorizada a trabalhar com grandes homens na casa dos 60. Tenho sido muito abençoada nos últimos anos, muito sortuda.

Com Ridley Scott como é que o projecto veio ter consigo?
Já tinha feito um esboço para um trabalho para a companhia dele, por isso já conhecia as pessoas da companhia dele e depois, eles apenas me ligaram, já depois de sair o World Trade Center. Para o projecto Gucci foi tudo muito rápido. Eles ligaram-me e disseram para eu ir lá e encontrar-me com o Ridley para falar sobre um projecto que ele estava interessado. Isso foi um dos trabalhos mais fáceis que já fiz.

Quando irá estrear nas salas?
Ainda não estamos sem sequer perto disso. Ainda é muito cedo.

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Que géneros e tipos de filme gostava ainda de fazer na sua carreira?
Isso é interessante. Tendo a ser mais uma escritora de drama. Mas gostaria de fazer coisas diferentes. Gostava de fazer uma comédia muito inteligente, que nunca escrevi, mas gostava de ter a oportunidade de o fazer e talvez uma história de amor, mas uma inteligente.

Tem argumentos prontos para que possam ser comprados?
Tenho apenas um que esteja pronto e que esteja mesmo a tentar vender. É uma história verídica sobre alguns autores, escritores, que viviam em Paris nos anos 20.

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É difícil ser uma argumentista nos Estados Unidos, mais do que ser actriz?
Pode estar a perguntar à pessoa errada (risos) porque, para mim, foi mais fácil ser uma argumentista do que actriz, tive muito mais sucesso como argumentista do que como actriz. Ser uma argumentista não é um trabalho fácil, tive muita sorte e tenho bem consciência disso. A maioria dos meus amigos argumentistas não estão empregados, por isso não é fácil. É uma questão de oportunidades. Eu era uma miúda da classe média, em Bóston, que teve sorte. Não conhecia ninguém em Hollywood, quando lá cheguei e apenas tive sorte. Há muitas mais pessoas que não têm sorte.

Foi para Hollywood para seguir a carreira de actriz? Com que idade?
Sim, de actriz, tinha uns 25. Vim de Nova Iorque, onde fiz teatro durante alguns anos, e mudei-me para Los Angeles por haver mais trabalho.


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PERGUNTAS posteriores, por e-mail
Chegou a conhecer Nicolas Cage? O que achou dele como profissional e no trato pessoal?

Sim, conheci o Nicolas Cage. Ele é um gentleman de lés a lés. Encarou o papel de forma muito séria e trabalhou com afinco para retratar de forma correcta John McLoughlin.

Esteve no local de rodagem? Com que frequência? Foi estranho?
Sim, estive bastantes vezes no set, tanto em Nova Iorque (onde filmámos durante um mês) e em Los Algeles (onde filmámos quase 3 meses). Claro, tinha um bebé no meio da produção, por isso tive de tirar duas semanas! ;)