12 Anos Escravo
Ao entrarmos no escuro da sala de cinema, chegarmos à poltrona das experiências e nos sentarmos, olhamos para a tela e começamos a sair da realidade moderna, livre q.b., com direitos humanos básicos e democrática.
12 Anos Escravo tira-nos da zona de conforto onde nem sabíamos estar e coloca as nossas mentes no meio da transição entre uns Estados Unidos com (Sul) e sem (Norte) escravatura.
Steve McQueen deixa-nos, sem aviso, na pele de um negro livre do Norte. Letrado, inteligente, respeitado na zona onde vive e com talentos vários (incluindo a música), Solomon Northup é apanhado e capturado numa viagem de trabalho a Washington como se de um animal selvagem se tratasse. É dessa forma bruta e violente que se vê refém de um um 'Sul' intolerante e onde a escravatura ainda faz parte do prato principal.
O que é chocante no filme de McQueen é sentir a impotência e frustração de um homem desde sempre habituado ao que todos devem ter, a liberdade, 'castrado' pela força esmagadora da escravatura. Torna-se devastador o efeito que essa subjugação tem num homem livre.
12 Anos Escravo é sociologicamente relevante mas ao mesmo tempo perturbante, quando se vê as diferenças entre este homem agora escravizado e todos aqueles que nasceram no meio da escravatura, já dormentes ou indolores.
Já parecem indiferentes ao espancamento, às chicotadas ou ao assassínio de amigos ou conhecidos ali mesmo ao seu lado. É o hábito que os destrói, é o hábito que os apaga. Parecem gente sem alma. Dorida e em estado vegetativo que simplesmente só cumpre, não raciocina, num contrasto claro com o até à pouco tempo livre, Solomon Northup. Os conhecimentos, inteligência e talento, no entanto, só lhe trazem dissabores.
Tal como um mau chefe nos dias que correm, os seus donos e respectivos capatazes, sentem-se várias vezes ameaçados por alguém que é bom e eficaz no que faz - embora com consequências incrivelmente mais injustas, violentas e avassaladoras do que as de um 'simples' local de trabalho.
É um filme duro, sem subterfúgios ou 'paninhos quentes', que nos coloca no centro de uma das maiores injustiças que o ser humano praticou sobre outros da mesma espécie, considerados inferiores pela cor da pele.
O hábito também forma as mulheres e homens do sul, habituados àquela 'propriedade', com que podiam fazer o que bem entendessem chamada homem/mulher/criança negra.
O papel da vida de Chiwetel Ejiofor é composto com desempenhos fabulosos e perturbantes de Michael Fassbender (pela 3ª vez a trabalhar com McQueen - é um totalista), Benedict Cumberbatch, Brad Pitt, Paul Giamatti e Paul Dano.
A maior surpresa é mesmo a ganesa-mexicana Lupita Nyong'o, que faz de escrava subjugada de mil e uma formas pelo temível e instável capataz Michael Fassbender. O britânico McQueen rodeia-se dos melhores actores britânicos da actualidade, com um toque americano à mistura, para trazer esta história norte-americana na origem e globalmente humana na génese.
O que é que 12 Anos Escravo muda? Faz-nos dar valor à nossa liberdade de escolha, de pensamento, de trabalho e de ser quem somos.
Um filme baseado em factos verídicos, que emociona, nos tira com estrondo da realidade moderna tecnológica e cibernética e nos coloca no final do século XIX, prontos para ficarmos revoltados e solidários com Solomon Northup:
O talentoso homem livre que se vê escravo e obrigado (vezes sem conta e à força) a assumir uma identidade diferente e a ser escravizado durante 12 longos e duros anos da sua vida.
Um forte candidato aos Óscares pela história, realização e interpretações notáveis (Fassbender, Ejiofor) e um forte candidato a filme para ficar na memória por muitos e bons anos.
A ver!
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